Os microplásticos e nanoplásticos estão a ser encontrados em diferentes ambientes, incluindo rios, oceanos, alimentos e água potável. Embora ainda não conheçamos completamente os efeitos da exposição prolongada destas partículas na saúde humana, a sua presença na água que bebemos tem despertado crescente interesse científico.
Um estudo publicado em 2024 na revista Environmental Science & Technology Letters investigou uma estratégia simples: ferver a água da torneira antes de a consumir. Os resultados sugerem que este procedimento pode reduzir a quantidade de determinadas partículas de plástico, sobretudo quando a água contém uma concentração relativamente elevada de minerais.
Mas há uma ressalva fundamental: os resultados laboratoriais não garantem que ferver água em qualquer casa produza a mesma redução. A composição da água, as características das partículas e a forma como os precipitados são separados influenciam a eficácia do método.
O que são os microplásticos e os nanoplásticos?
Os microplásticos são pequenas partículas de plástico que podem resultar da degradação de embalagens, tecidos sintéticos, pneus e outros materiais. Os nanoplásticos são ainda mais pequenos, geralmente com dimensões inferiores a um micrómetro.
Estas partículas podem chegar ao ambiente através de diferentes processos industriais e domésticos. Dependendo das suas dimensões e características, algumas podem permanecer na água mesmo depois dos processos convencionais de tratamento.
A exposição humana pode ocorrer através da ingestão de água e alimentos ou pela inalação de partículas presentes no ar. No entanto, a quantidade a que cada pessoa está exposta varia de acordo com a origem da água, os hábitos individuais e os métodos utilizados para medir estas partículas.
Embora já tenham sido identificados microplásticos em amostras biológicas humanas, ainda não conhecemos completamente as consequências da exposição crónica. É importante distinguir a deteção destas partículas da demonstração de que provocam uma doença específica.
O que investigaram os cientistas?
Zimin Yu e colaboradores publicaram, em fevereiro de 2024, um estudo que avaliou a possibilidade de reduzir microplásticos e nanoplásticos da água da torneira através da fervura.
Os investigadores estudaram partículas de diferentes polímeros, incluindo poliestireno, polietileno e polipropileno. Estes materiais são utilizados numa grande variedade de produtos e podem estar presentes no ambiente sob a forma de partículas microscópicas.
O trabalho analisou o comportamento das partículas durante o aquecimento, dando especial atenção ao carbonato de cálcio, um mineral associado à dureza da água e à formação de depósitos de calcário.
Além das experiências laboratoriais, os investigadores recorreram a dados publicados sobre a presença destas partículas na água e sobre a dureza da água em diferentes regiões para estimar o possível efeito da fervura na ingestão humana.
Como pode a fervura ajudar a remover partículas de plástico?
O mecanismo estudado não consiste em dissolver ou destruir o plástico. Está relacionado com a formação de precipitados minerais durante o aquecimento da água.
A água dura contém quantidades relativamente elevadas de minerais dissolvidos, incluindo cálcio e magnésio. Quando é aquecida, podem ocorrer alterações químicas que favorecem a formação de carbonato de cálcio sólido.
Durante este processo, algumas partículas de plástico podem ficar associadas aos depósitos minerais, formando agregados maiores. Estes agregados podem depositar-se no fundo do recipiente, permitindo reduzir a quantidade de partículas em suspensão na água que é cuidadosamente separada do sedimento.
Nas condições laboratoriais estudadas, a fervura de água dura, com uma dureza superior a 120 miligramas por litro expressos em carbonato de cálcio, permitiu remover pelo menos 80% das partículas analisadas, com dimensões entre 0,1 e 150 micrómetros.
Este resultado é interessante, mas não significa que qualquer água fervida fique livre de microplásticos. A eficácia depende da composição da água e das características das partículas presentes.
Ferver água em casa produz o mesmo resultado?
Não podemos garantir que sim. Esta é uma das principais limitações a considerar quando tentamos aplicar os resultados do estudo à vida quotidiana.
Os investigadores demonstraram que o processo pode funcionar em condições experimentais específicas. Contudo, a água da torneira varia entre regiões e até entre diferentes abastecimentos. A quantidade de cálcio, a dureza da água e a composição das partículas podem alterar a eficiência da remoção.
Na água dura, a formação de precipitados minerais pode facilitar a agregação das partículas. Na água macia, que contém menos minerais, este mecanismo pode ser menos eficaz. O estudo também não permite garantir uma remoção equivalente para todos os tipos de plástico ou para partículas com características diferentes das analisadas.
Por isso, não é correto afirmar que ferver água em casa elimina uma percentagem fixa de microplásticos. Também não é necessário concluir que o método só funciona num laboratório: o mecanismo pode ocorrer em condições domésticas, mas a eficácia real em cada situação permanece incerta.
O que acontece se bebermos a água depois de ferver?
A forma como a água é consumida depois da fervura também pode ser importante.
Se parte das partículas ficar associada aos precipitados minerais que se depositam no fundo, separar cuidadosamente a água do sedimento poderá reduzir a ingestão dessas partículas. Se o depósito for novamente misturado com a água, parte delas poderá voltar a ficar em suspensão.
Os precipitados visíveis, como os depósitos esbranquiçados de calcário, não permitem saber quantos microplásticos foram removidos. A ausência de depósitos também não demonstra que a água esteja livre de partículas.
O estudo não estabeleceu um procedimento doméstico universal, com eficácia garantida para qualquer água da torneira. Assim, não é possível recomendar a fervura diária como estratégia obrigatória para toda a população.
O calor pode libertar substâncias químicas dos plásticos?
Sim, dependendo do material e das condições de exposição, o calor pode favorecer a libertação de determinados aditivos ou de outras substâncias químicas associadas aos plásticos. No entanto, este fenómeno é diferente da remoção de partículas estudada pelos investigadores.
Os polímeros comuns, como o polietileno e o polipropileno, não se dissolvem simplesmente em água a 100 °C. A fervura não destrói necessariamente as partículas, podendo antes favorecer a sua agregação com os minerais presentes na água.
Se a água for aquecida num recipiente adequado, como uma panela de aço inoxidável ou um recipiente de vidro resistente ao calor, evita-se o contacto direto com plástico durante a fervura. Ainda assim, isso não garante a remoção de todos os contaminantes existentes na água.
A fervura elimina outros contaminantes?
Não. Ferver a água pode inativar muitos microrganismos que provocam doenças, quando se segue um procedimento adequado, mas não constitui um método universal de purificação.
Alguns contaminantes químicos dissolvidos podem permanecer na água após a fervura. Além disso, a evaporação de parte da água pode aumentar a concentração de determinadas substâncias não voláteis.
Quando existe um aviso oficial sobre a qualidade da água, devem ser seguidas as recomendações das autoridades competentes. A fervura não substitui as orientações específicas para situações de contaminação química.
Existem alternativas para reduzir os microplásticos na água?
Uma alternativa é recorrer a sistemas de filtração concebidos e testados para reduzir partículas de dimensões relevantes. A eficácia depende da tecnologia utilizada, do tipo de filtro, das características das partículas e da manutenção do equipamento.
Nem todos os filtros domésticos foram concebidos para reter microplásticos e nanoplásticos. Por isso, a escolha deve basear-se nas especificações técnicas e em ensaios de eficácia, e não apenas na indicação genérica de que a água é filtrada.
Também é importante ter em conta que a água da rede pública está sujeita a controlos de qualidade. A presença potencial de microplásticos não significa, por si só, que a água distribuída seja imprópria para consumo.
O estudo demonstrou benefícios para a saúde?
Não. Os investigadores avaliaram a remoção de partículas em condições experimentais e estimaram a possível redução da ingestão através da água. Não realizaram um ensaio clínico que demonstrasse que beber água fervida reduz doenças ou melhora indicadores de saúde humana.
Os autores estimaram que o consumo de água fervida poderia reduzir a ingestão de microplásticos e nanoplásticos entre duas e cinco vezes, dependendo das condições consideradas. Esta estimativa baseia-se em resultados experimentais e dados de exposição, não numa medição direta de benefícios clínicos nas pessoas.
São necessários mais estudos para perceber quais as partículas que representam maior preocupação, quais as doses relevantes e se reduzir a exposição produz benefícios mensuráveis a longo prazo.
Conclusão: vale a pena ferver a água da torneira?
O estudo de Yu e colaboradores mostra que a fervura pode reduzir determinadas partículas de plástico na água, sobretudo quando existe dureza suficiente para favorecer a formação de precipitados minerais.
Contudo, a eficácia observada em laboratório não pode ser automaticamente aplicada a todas as casas. A composição da água, os tipos de partículas e a separação dos sedimentos influenciam o resultado. Ferver a água também não elimina todos os contaminantes nem demonstrou prevenir doenças relacionadas com os plásticos.
Na minha perspetiva, a principal mensagem é evitar tanto o alarmismo como as promessas excessivas. Não há evidência suficiente para recomendar que toda a gente passe a ferver diariamente a água da torneira apenas para remover microplásticos.
Se o objetivo for reduzir a exposição a partículas, pode fazer sentido avaliar a qualidade da água local e considerar sistemas de filtração cuja eficácia esteja devidamente demonstrada. A melhor decisão depende das condições reais, e não apenas de um resultado laboratorial promissor.
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Referências
- Yu Z, Wang JJ, Liu LY, Li Z, Zeng EY. Drinking Boiled Tap Water Reduces Human Intake of Nanoplastics and Microplastics. Environmental Science & Technology Letters. 2024;11(3):273–279. https://doi.org/10.1021/acs.estlett.4c00081.
- Hale RC, Albert BI. Comment on “Drinking Boiled Tap Water Reduces Human Intake of Nanoplastics and Microplastics”. Environmental Science & Technology Letters. 2024;11(6):648–649. https://doi.org/10.1021/acs.estlett.4c00265.