Reduzir o contacto dos alimentos com plástico pode diminuir a exposição a químicos?

Reduzir o contacto dos alimentos com plástico pode diminuir a exposição a químicos? September 15, 2026Leave a comment

Um estudo publicado na Nature Medicine em 21 de abril de 2026 sugere que reduzir o contacto dos alimentos com plástico pode diminuir rapidamente a exposição a alguns químicos associados aos plásticos.

Vivemos rodeados de plástico. Garrafas, recipientes, embalagens, utensílios de cozinha, alimentos embalados, produtos de higiene e até o ambiente doméstico podem contribuir para a exposição a substâncias químicas associadas aos plásticos.

A questão importante é perceber se pequenas alterações no dia a dia conseguem realmente reduzir essa exposição.

Um novo estudo, denominado PERTH Trial — Plastic Exposure Reduction Transforms Health, procurou responder precisamente a esta questão. Os investigadores avaliaram 211 adultos australianos e, posteriormente, realizaram um ensaio clínico piloto randomizado com 60 participantes durante apenas sete dias. (Nature)

Os resultados são interessantes: uma intervenção que reduziu o contacto dos alimentos com plástico provocou diminuições significativas de vários metabolitos de ftalatos e bisfenóis medidos na urina.

O que são os ftalatos e os bisfenóis?

Os plásticos não são constituídos apenas pelo polímero que lhes dá a estrutura.

Durante a produção podem ser utilizados numerosos compostos químicos para conferir determinadas propriedades, como flexibilidade, estabilidade, resistência ou durabilidade.

Entre eles encontram-se os ftalatos e os bisfenóis.

Os ftalatos são utilizados, entre outras aplicações, como plastificantes, enquanto o bisfenol A (BPA) é utilizado na produção de determinados materiais e resinas.

Estas substâncias podem migrar dos materiais para os alimentos, sobretudo durante processos de armazenamento, transporte, preparação e acondicionamento. A exposição também pode ocorrer através do ar, poeiras e produtos de higiene pessoal. (Nature)

Alguns destes compostos apresentam atividade de disruptores endócrinos, ou seja, podem interferir com sistemas hormonais. Estudos epidemiológicos anteriores também encontraram associações entre determinados níveis de exposição e alterações cardiovasculares ou metabólicas.

No entanto, é importante distinguir associação de causalidade. O facto de uma substância estar associada a determinado problema de saúde não significa, por si só, que seja responsável por esse problema.

Como foi realizado o estudo?

O PERTH Trial teve duas componentes.

A primeira foi uma coorte observacional com 211 adultos saudáveis, com uma idade média de aproximadamente 43 anos.

Os investigadores recolheram informação sobre alimentação, utilização de produtos de higiene pessoal, exposição a plástico, composição corporal e vários marcadores sanguíneos. Foram também analisadas amostras de urina e amostras nasais. (Nature)

Posteriormente, 60 participantes foram incluídos num ensaio clínico randomizado com duração de sete dias.

Os participantes foram distribuídos por cinco grupos.

Alguns receberam alimentos produzidos, processados, embalados e fornecidos com o mínimo possível de contacto com plástico. Outros receberam também utensílios de cozinha com menor utilização de plástico ou produtos de higiene pessoal com menor exposição a estes materiais.

Um grupo funcionou como controlo e não recebeu qualquer intervenção.

Um dos aspetos interessantes foi o facto de a intervenção alimentar ter sido concebida para manter aproximadamente constante a ingestão energética. Assim, os investigadores procuraram alterar principalmente a exposição ao plástico, e não simplesmente fazer os participantes comerem menos. (Nature)

O que aconteceu depois de apenas sete dias?

Os resultados foram particularmente expressivos em alguns dos compostos analisados.

No grupo que recebeu alimentos com contacto mínimo com plástico, verificou-se uma redução de cerca de 31,5% no mono-n-butil ftalato (MnBP) e de 46,7% no monobenzil ftalato (MBzP), comparativamente ao grupo de controlo.

Também foi observada uma redução de aproximadamente 58,5% na soma dos bisfenóis urinários. (Nature)

Quando os participantes receberam alimentos com baixo contacto com plástico e também utensílios de cozinha com menor utilização de plástico, a redução de alguns compostos foi ainda maior.

Neste grupo, o MnBP diminuiu cerca de 37,5%, o MBzP aproximadamente 53,5% e o BPA cerca de 59,7%.

Quando foram combinados os grupos que receberam alimentos com baixo contacto com plástico, observaram-se reduções de aproximadamente 38% no MnBP, 45% no MBzP e 52% no BPA. (Nature)

Isto significa que sete dias foram suficientes para produzir alterações mensuráveis na exposição interna a determinados químicos associados aos plásticos.

E os produtos de higiene pessoal?

A alimentação não foi a única fonte analisada.

Os investigadores também estudaram produtos de cuidados pessoais, como champôs, produtos para a pele e outros cosméticos.

No estudo observacional, maior utilização de determinados produtos esteve associada a níveis urinários superiores de alguns metabolitos de ftalatos.

Por exemplo, maior utilização de champô esteve associada a níveis superiores de monoetil ftalato, enquanto determinados produtos para a pele estiveram associados a níveis superiores de outro metabolito de ftalatos. (Nature)

No ensaio clínico, a utilização exclusiva de produtos de higiene pessoal com baixo contacto com plástico também reduziu alguns metabolitos.

Isto reforça uma ideia importante: a exposição aos químicos associados aos plásticos não depende exclusivamente da alimentação.

Alimentos ultraprocessados e embalagens

Outro resultado relevante surgiu na componente observacional.

Os participantes que apresentavam padrões alimentares com maior consumo de alimentos altamente processados, comida rápida e alimentos embalados em plástico apresentavam maior enriquecimento de determinados metabolitos de ftalatos.

Por outro lado, o grupo que raramente consumia comida rápida, alimentos altamente processados, alimentos embalados em plástico ou alimentos aquecidos em plástico não apresentou enriquecimento dos compostos analisados da mesma forma. (Nature)

Isto não significa que todos os alimentos embalados sejam perigosos ou que seja necessário eliminar completamente o plástico.

Significa que a quantidade e o tipo de contacto com plástico podem ser uma variável modificável da exposição química.

Devemos deixar de utilizar plástico?

Provavelmente não é essa a principal conclusão do estudo.

O plástico tem inúmeras utilizações importantes e seria pouco realista eliminar completamente a exposição.

Além disso, o estudo foi pequeno na componente randomizada e durou apenas sete dias.

Mais importante ainda: os investigadores mediram principalmente biomarcadores de exposição, nomeadamente substâncias eliminadas na urina.

Não demonstraram que reduzir esses metabolitos durante sete dias provoque automaticamente uma redução de doenças cardiovasculares, diabetes, cancro ou outras doenças.

Essa distinção é fundamental.

O estudo mostra que a exposição pode ser modificada. Não demonstra ainda quais serão os efeitos clínicos de manter essa redução durante anos ou décadas.

Então, o que podemos fazer no dia a dia?

Sem procurar uma vida completamente livre de plástico, algumas medidas parecem razoáveis.

1. Evitar aquecer alimentos em recipientes de plástico

O aquecimento pode aumentar a migração de determinados compostos dos materiais para os alimentos.

Quando possível, pode optar-se por recipientes de vidro ou cerâmica para aquecer e armazenar refeições.

2. Reduzir alimentos muito processados e excessivamente embalados

Esta medida tem uma vantagem adicional.

Uma alimentação baseada predominantemente em alimentos pouco processados — legumes, fruta, leguminosas, peixe, ovos, frutos secos e outros alimentos minimamente processados — pode simultaneamente melhorar a qualidade nutricional e reduzir algumas fontes de contacto com embalagens.

3. Utilizar recipientes reutilizáveis adequados

Garrafas de vidro ou recipientes de materiais concebidos para utilização alimentar podem reduzir a necessidade de contacto permanente com determinados plásticos descartáveis.

4. Não transformar a questão numa obsessão

A saúde não depende de eliminar todos os químicos do ambiente.

Sono adequado, atividade física regular, alimentação equilibrada, controlo da pressão arterial, não fumar, peso corporal adequado e outros fatores têm uma importância muito bem estabelecida.

A redução da exposição a determinados químicos pode ser encarada como mais uma pequena peça da prevenção, e não como a solução isolada para a saúde.

E o exercício físico?

Curiosamente, este tema também se relaciona com a visão global de saúde.

Uma pessoa pode treinar regularmente, controlar o peso e alimentar-se bem, mas continuar exposta diariamente a diferentes contaminantes ambientais.

Isto não significa que o exercício deixe de ser importante. Pelo contrário.

A atividade física continua a ser uma das estratégias mais consistentes para melhorar a saúde cardiovascular, metabólica, muscular e funcional.

O objetivo deve ser uma abordagem integrada: atividade física regular, alimentação de boa qualidade, sono adequado e redução razoável de exposições ambientais potencialmente evitáveis.

O que este estudo realmente nos ensina?

Talvez a mensagem mais interessante do PERTH Trial seja a rapidez com que algumas exposições podem ser modificadas.

Em apenas sete dias, uma intervenção relativamente intensiva conseguiu reduzir vários marcadores urinários de exposição a ftalatos e bisfenóis.

Mas há uma segunda mensagem igualmente importante: reduzir exposição não é o mesmo que provar benefício clínico.

Precisamos de estudos maiores, mais prolongados e com resultados clínicos para saber se reduções sustentadas destes compostos se traduzem numa menor incidência de doença.

Até lá, faz sentido adoptar medidas simples e razoáveis, sem alarmismo.

Reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados, evitar aquecer comida em plástico quando existem alternativas, utilizar recipientes adequados e privilegiar alimentos frescos pode ser uma estratégia prática.

E, sobretudo, estas escolhas podem melhorar simultaneamente vários aspetos da alimentação.

Posso ajudar

Posso ajudar a integrar exercício, alimentação e hábitos de vida numa estratégia prática e progressiva, adaptada à idade, condição física e objetivos, sem fundamentalismos.

Referências

Artigo científico completo — Low-plastic diet and urinary levels of plastic-associated phthalates and bisphenols: the randomized controlled PERTH Trial, Nature Medicine, 21 abril 2026

Nature Medicine — informação sobre o estudo PERTH e exposição a químicos associados aos plásticos