Gelado sem açúcar: a brazzeína pode ajudar a controlar a glicemia?

Gelado sem açúcar: a brazzeína pode ajudar a controlar a glicemia? October 17, 2026Leave a comment

Será possível comer gelado com menos açúcar sem provocar uma subida tão acentuada da glicose no sangue? Um ensaio clínico publicado na revista Clinical Nutrition ESPEN investigou uma alternativa interessante: a utilização de brazzeína, uma proteína naturalmente doce, para substituir a sacarose no gelado.

O estudo envolveu 101 adultos com doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), incluindo pessoas com diabetes tipo 2. Os investigadores compararam a resposta da glicose no sangue após o consumo de três formulações: gelado adoçado com açúcar, gelado adoçado com brazzeína e gelado com brazzeína e inulina.

Os resultados sugerem que substituir a sacarose por brazzeína pode reduzir significativamente a subida da glicemia após o consumo deste tipo de sobremesa. No entanto, há diferenças importantes entre demonstrar um efeito metabólico durante algumas horas e provar benefícios para a saúde a longo prazo.

O que é a brazzeína?

A brazzeína é uma proteína com sabor doce, identificada originalmente num fruto de origem africana. A sua capacidade adoçante é muito elevada, podendo ser centenas a milhares de vezes superior à da sacarose, dependendo das condições utilizadas na comparação.

Esta característica permite utilizar quantidades muito pequenas para obter um sabor doce. Ao contrário do açúcar comum, a brazzeína não fornece a mesma quantidade de hidratos de carbono, o que a torna interessante para o desenvolvimento de produtos alimentares com menor impacto glicémico.

Contudo, uma substância doce não deve ser automaticamente considerada saudável apenas por permitir reduzir o açúcar. É necessário avaliar a segurança, a composição do produto final, a tolerância individual e os efeitos do consumo habitual.

Como foi realizado o estudo?

Os investigadores realizaram um ensaio clínico aleatorizado, duplamente cego e cruzado. Participaram 101 adultos com MASLD, com uma idade média de aproximadamente 55 anos. Cerca de 76% eram mulheres e 44% tinham diabetes tipo 2.

Cada participante consumiu, em dias diferentes, três versões de gelado, cada uma com uma quantidade de 100 gramas:

  • Gelado adoçado com sacarose, contendo 14 gramas de açúcar.
  • Gelado sem sacarose, adoçado com brazzeína.
  • Gelado sem sacarose, adoçado com brazzeína e enriquecido com 4 gramas de inulina.

A glicose foi acompanhada através de sensores de monitorização contínua durante 150 minutos após o consumo. Esta abordagem permitiu observar a evolução da glicemia ao longo do tempo, em vez de depender exclusivamente de uma medição isolada.

O desenho cruzado também apresenta uma vantagem: cada participante experimentou as três formulações, permitindo comparar as respostas individuais e reduzir a influência de algumas diferenças entre pessoas.

O que aconteceu à glicemia após o gelado?

O principal resultado foi uma resposta glicémica pós-prandial inferior com as duas formulações adoçadas com brazzeína, quando comparadas com o gelado adoçado com sacarose.

Na análise dos resultados ao longo dos 150 minutos, a área incremental sob a curva da glicose foi aproximadamente 52% inferior com brazzeína isolada e 48% inferior com brazzeína associada à inulina, em comparação com a formulação com açúcar.

Esta medida permite avaliar a elevação da glicose ao longo do período de observação, tendo em conta a resposta acima do valor inicial. Por isso, complementa a análise dos picos de glicemia e ajuda a perceber a exposição global à subida da glicose após a refeição.

Os investigadores observaram diferenças entre as formulações durante uma parte significativa do período de acompanhamento. As duas versões com brazzeína apresentaram uma resposta mais favorável do que a versão com sacarose.

Importa, contudo, não interpretar estes resultados como uma redução equivalente do risco de diabetes, doença cardiovascular ou complicações hepáticas. O estudo avaliou uma resposta metabólica aguda, não a incidência de doenças nem a evolução clínica ao longo de meses ou anos.

A inulina acrescentou algum benefício?

A terceira formulação combinava brazzeína com 4 gramas de inulina, uma fibra alimentar fermentável que pode ser utilizada por determinadas bactérias intestinais. A inulina tem sido estudada pelo seu potencial papel na saúde intestinal e em diferentes parâmetros metabólicos.

Neste ensaio, a formulação com brazzeína e inulina também produziu uma resposta glicémica inferior à do gelado com sacarose. No entanto, não foi encontrada uma diferença estatisticamente significativa entre o gelado com brazzeína isolada e a versão com inulina.

Por isso, não podemos concluir que adicionar inulina tenha melhorado o controlo da glicemia neste contexto específico. A fibra pode ter outras propriedades nutricionais, mas os seus efeitos dependem da dose, do alimento em que está integrada e das características de cada pessoa.

O que significa para pessoas com diabetes tipo 2?

Uma das características relevantes da investigação é a inclusão de participantes com e sem diabetes tipo 2. As análises exploratórias identificaram diferenças nos padrões de resposta glicémica de acordo com a presença de diabetes, mas as duas formulações com brazzeína apresentaram respostas inferiores às do gelado com sacarose em ambos os grupos.

Este resultado torna a estratégia interessante para investigação futura, sobretudo porque o controlo da glicemia após as refeições pode ser importante na gestão da diabetes.

Mesmo assim, é necessário distinguir uma alternativa alimentar potencialmente útil de uma intervenção terapêutica. O estudo não demonstra que a brazzeína permita reduzir a medicação, prevenir complicações ou substituir as recomendações alimentares individualizadas.

Quem tem diabetes deve continuar a considerar a quantidade total de hidratos de carbono, a composição nutricional das refeições e a resposta individual à alimentação. A substituição do açúcar pode ser uma ferramenta adicional, mas não resolve, por si só, todos os fatores que influenciam o controlo metabólico.

Menos açúcar significa necessariamente um gelado saudável?

Não. Este é um dos pontos mais importantes na interpretação do estudo.

A resposta da glicose é apenas uma dimensão da qualidade nutricional de um alimento. Um gelado pode provocar uma subida menor da glicemia e continuar a apresentar uma quantidade considerável de gordura saturada, energia ou outros ingredientes que devem ser avaliados no contexto da alimentação global.

Também não sabemos, com base neste ensaio, se a substituição habitual da sacarose por brazzeína produz alterações sustentadas no peso corporal, na gordura acumulada no fígado, na inflamação, na microbiota intestinal ou na saúde cardiovascular.

Além disso, os resultados referem-se às formulações específicas utilizadas pelos investigadores. Não devem ser extrapolados automaticamente para todos os produtos comercializados com adoçantes, proteínas doces ou fibras adicionadas.

Quais são as limitações da investigação?

Apesar de ser um ensaio clínico aleatorizado e duplamente cego, o estudo apresenta limitações que importa reconhecer.

  • Duração curta: a glicemia foi acompanhada durante 150 minutos após cada consumo, não sendo avaliados os efeitos de uma utilização regular ao longo de meses ou anos.
  • Alimento específico: os resultados dizem respeito a três formulações de gelado e não demonstram que a brazzeína tenha os mesmos efeitos noutros alimentos ou bebidas.
  • População estudada: todos os participantes tinham MASLD, pelo que os resultados não podem ser generalizados sem reservas a toda a população.
  • Resultados metabólicos intermédios: a investigação avaliou a resposta da glicose, não a evolução da doença hepática ou a ocorrência de complicações clínicas.

Serão necessários estudos mais prolongados para perceber se esta substituição é segura e eficaz quando integrada regularmente na alimentação e se produz benefícios relevantes para a saúde.

Como podemos aplicar estes resultados no dia a dia?

Para já, a conclusão mais prudente é que a substituição da sacarose por brazzeína merece investigação como estratégia para reduzir a resposta glicémica de determinados alimentos doces.

Na prática, continua a fazer sentido reduzir o consumo frequente de bebidas açucaradas e de alimentos com quantidades elevadas de açúcares adicionados. Fruta inteira, iogurte natural sem açúcar adicionado e sobremesas preparadas com ingredientes simples podem ser alternativas a considerar, de acordo com as necessidades e preferências individuais.

A atividade física também tem um papel importante. Caminhar depois das refeições e praticar treino de força regularmente são estratégias que podem contribuir para uma melhor gestão da glicose, embora não substituam o acompanhamento médico quando existe diabetes ou doença hepática.

Na minha experiência, prefiro olhar para a alimentação como um conjunto de hábitos sustentáveis, em vez de atribuir a um único ingrediente a responsabilidade pela saúde metabólica. Uma substituição pode ser útil, mas a qualidade global da alimentação continua a ser determinante.

Conclusão

Um ensaio clínico com 101 adultos com MASLD concluiu que um gelado adoçado com brazzeína produziu uma resposta glicémica pós-prandial substancialmente inferior à de um gelado adoçado com sacarose. A associação com inulina também apresentou resultados favoráveis, mas não demonstrou uma vantagem adicional significativa em relação à brazzeína isolada.

Os resultados são promissores, mas ainda não demonstram que esta substituição melhore a saúde do fígado, previna a diabetes ou reduza o risco de complicações a longo prazo. A brazzeína poderá vir a ter utilidade no desenvolvimento de alimentos com menor impacto glicémico, mas são necessários estudos adicionais.

A mensagem essencial é simples: reduzir o açúcar pode ser uma estratégia útil, mas não transforma automaticamente uma sobremesa num alimento saudável. O contexto nutricional, a frequência de consumo e o padrão alimentar global continuam a ser fundamentais.

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Nota: este artigo tem caráter informativo e não substitui aconselhamento médico ou nutricional individualizado.

Referências

  1. Isakov VA, Pilipenko VI, Goncharov AA, Sasunova A. Effect of sucrose-free brazzein-sweetened ice cream on continuously monitored glycemic response in patients with metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease: A randomized controlled double-blind crossover trial. Clinical Nutrition ESPEN. 2026;75:105066. DOI: 10.1016/j.clnesp.2026.105066. Resumo do estudo.
  2. Registo do ensaio clínico: ClinicalTrials.gov, NCT06724913. Consultar registo.

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