Durante décadas, o índice de massa corporal, conhecido como IMC, foi uma das principais medidas utilizadas para avaliar o excesso de peso. É simples, rápido e fácil de calcular. Mas existe um problema: o IMC não consegue dizer onde está localizada a gordura do corpo.
E essa localização pode ser muito importante.
Uma pessoa pode apresentar um IMC considerado normal e, ainda assim, ter uma quantidade significativa de gordura acumulada na região abdominal. Outra pode ter um IMC elevado devido a uma maior quantidade de massa muscular e apresentar relativamente pouca gordura abdominal.
É por isso que medidas como a circunferência da cintura, a relação cintura/altura e outros indicadores de adiposidade central têm recebido cada vez mais atenção na avaliação do risco cardiometabólico.
O que há de diferente na gordura abdominal?
Nem toda a gordura corporal parece ter o mesmo impacto metabólico.
A gordura acumulada na região abdominal inclui a chamada gordura visceral, localizada à volta dos órgãos internos. Esta gordura apresenta características metabólicas diferentes da gordura subcutânea, que se encontra principalmente por baixo da pele.
Uma quantidade elevada de gordura visceral está associada a alterações metabólicas como resistência à insulina, inflamação crónica de baixo grau, alterações dos lípidos sanguíneos e aumento da pressão arterial.
Estes fatores estão, por sua vez, relacionados com maior risco de doença cardiovascular.
Por isso, duas pessoas com exatamente o mesmo peso e o mesmo IMC podem apresentar riscos metabólicos bastante diferentes.
O problema do IMC
O IMC é calculado dividindo o peso, em quilogramas, pelo quadrado da altura, em metros.
Embora seja útil para estudos populacionais e para identificar categorias gerais de peso corporal, apresenta limitações importantes quando aplicado individualmente.
O IMC não distingue:
- gordura de músculo;
- gordura visceral de gordura subcutânea;
- distribuição da gordura corporal;
- alterações relacionadas com a idade.
Imagine duas pessoas com 80 kg e 1,75 m. Ambas terão exatamente o mesmo IMC.
Mas uma pode ter uma cintura relativamente pequena e uma quantidade elevada de massa muscular, enquanto outra pode apresentar mais gordura abdominal e pouca massa muscular.
Do ponto de vista metabólico, estas duas pessoas não são necessariamente equivalentes.
A cintura pode contar uma história diferente
A circunferência da cintura é uma medida simples que pode fornecer informação adicional.
Uma cintura elevada tende a refletir uma maior acumulação de gordura abdominal e está associada a maior risco de diabetes tipo 2 e doença cardiovascular.
A vantagem é que não é necessário equipamento sofisticado.
Uma fita métrica pode fornecer informação que o peso e o IMC não conseguem oferecer.
É precisamente por isso que várias organizações recomendam considerar a circunferência da cintura juntamente com o IMC, particularmente quando se avalia o risco cardiometabólico.
E a relação cintura/altura?
Outra medida que tem despertado bastante interesse é a relação cintura/altura.
O cálculo é simples:
circunferência da cintura ÷ altura
As duas medidas devem ser expressas na mesma unidade.
Por exemplo, uma pessoa com 90 cm de cintura e 180 cm de altura terá uma relação cintura/altura de 0,50.
Esta medida tenta avaliar a quantidade de gordura abdominal tendo em consideração o tamanho corporal.
Algumas investigações sugerem que a relação cintura/altura pode ser um marcador útil de risco cardiometabólico e, em determinados contextos, apresentar melhor capacidade discriminativa do que o IMC.
Mas a cintura substitui completamente o IMC?
Não necessariamente.
O mais correto é considerar que cada medida fornece informação diferente.
O IMC fornece uma estimativa geral da relação entre peso e altura.
A cintura fornece informação sobre a distribuição da gordura, particularmente sobre a adiposidade central.
Uma avaliação mais completa pode considerar peso, IMC, cintura, composição corporal, pressão arterial, glicemia, colesterol, triglicéridos, condição física e outros fatores de risco.
Nenhuma medida isolada consegue prever perfeitamente quem desenvolverá uma doença cardiovascular.
Gordura abdominal e doença cardiovascular
A associação entre obesidade abdominal e doença cardiovascular é particularmente importante.
A gordura visceral pode estar metabolicamente ativa e libertar moléculas que influenciam a inflamação e o metabolismo.
A acumulação de gordura abdominal está associada a maior probabilidade de desenvolver hipertensão, resistência à insulina, diabetes tipo 2 e alterações desfavoráveis dos lípidos sanguíneos.
Ao longo dos anos, estes fatores podem contribuir para o desenvolvimento de aterosclerose e aumentar o risco de enfarte do miocárdio e AVC.
Por isso, medir apenas o peso pode esconder parte importante da informação.
Uma pessoa com IMC normal pode ter risco?
Sim.
Este fenómeno é frequentemente descrito como obesidade de peso normal ou obesidade metabolicamente desfavorável em pessoas cujo IMC não se encontra necessariamente na categoria de obesidade.
Uma pessoa pode ter um peso aparentemente normal, mas apresentar elevada percentagem de gordura corporal e acumulação abdominal.
Isto não significa que todas as pessoas com IMC normal e cintura elevada tenham doença cardiovascular.
Significa que o IMC isolado pode não identificar todo o risco.
É precisamente por isso que uma avaliação da saúde metabólica deve ir além da balança.
E a massa muscular?
Este é outro motivo pelo qual o IMC pode ser enganador.
Uma pessoa que pratica treino de força regularmente pode ter um IMC elevado devido à quantidade de massa muscular.
Se utilizarmos apenas o IMC, poderemos classificá-la como tendo excesso de peso sem considerar a composição corporal.
Neste contexto, medidas como a circunferência da cintura, percentagem de gordura corporal e avaliação da condição física podem fornecer informação adicional.
Como medir corretamente a cintura?
Para acompanhar a evolução, é importante utilizar sempre um método semelhante.
A pessoa deve estar de pé, relaxada e respirar normalmente. A fita métrica deve ficar horizontal e não deve apertar excessivamente a pele.
Existem diferentes protocolos para definir exatamente o ponto de medição, pelo que o mais importante é utilizar consistentemente o mesmo método quando se pretende acompanhar a evolução.
Além disso, a circunferência da cintura pode variar ao longo do dia e com distensão abdominal, pelo que medições repetidas em condições semelhantes são mais úteis do que um único valor.
A cintura pode ser mais importante do que o peso?
Em determinadas situações, sim.
Uma pessoa pode perder gordura abdominal e ganhar músculo ao mesmo tempo. Nesse caso, o peso corporal pode mudar pouco, enquanto a cintura diminui significativamente.
Se olharmos apenas para a balança, poderemos concluir que praticamente nada aconteceu.
Mas metabolicamente e funcionalmente a transformação pode ser importante.
É uma das razões pelas quais, especialmente em pessoas que treinam força, o peso corporal não deve ser utilizado como único indicador de progresso.
O que fazer para reduzir a gordura abdominal?
Não existe uma estratégia capaz de eliminar gordura exclusivamente da barriga.
Os exercícios abdominais podem fortalecer os músculos do abdómen, mas não conseguem escolher de onde o organismo vai retirar gordura.
A redução da gordura abdominal resulta principalmente de uma combinação de alimentação adequada, atividade física, treino de força, exercício cardiovascular, sono suficiente e controlo do peso corporal quando existe excesso de gordura.
O treino de força é particularmente importante com o avançar da idade porque ajuda a preservar a massa muscular enquanto se procura reduzir a gordura corporal.
Caminhar mais e aumentar a atividade física diária também pode contribuir.
Afinal, a gordura abdominal prevê melhor as doenças cardíacas do que o IMC?
A resposta mais correta é: a gordura abdominal pode fornecer informação sobre o risco cardiovascular que o IMC não consegue captar e, em vários estudos, medidas de adiposidade central apresentam uma associação mais forte com determinados resultados cardiometabólicos.
Mas isso não significa que o IMC tenha deixado de ser útil ou que a cintura seja um “teste cardíaco”.
O risco cardiovascular é multifatorial.
Pressão arterial, colesterol LDL e ApoB, tabagismo, diabetes, idade, genética, atividade física, alimentação e outros fatores também desempenham papéis importantes.
A grande vantagem de olhar para a cintura é acrescentar uma informação que falta ao IMC: onde está localizada a gordura.
Por isso, em vez de perguntar apenas “quanto pesa?”, pode ser muito mais interessante perguntar:
“Quanto mede a sua cintura e como está distribuída a sua massa corporal?”
Para avaliar a saúde cardiovascular, uma fita métrica pode revelar informação que a balança simplesmente não consegue mostrar.
Referências
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