A gordura da carne faz mal? O que a ciência realmente diz

A gordura da carne faz mal? O que a ciência realmente diz June 16, 2026Leave a comment

 

A gordura da carne é um dos temas mais controversos da nutrição. Durante décadas, fomos aconselhados a remover toda a gordura visível da carne e a escolher apenas cortes extremamente magros. No entanto, a investigação científica mais recente sugere que a realidade pode ser mais complexa.

Será que a gordura da carne é realmente prejudicial para a saúde? Ou será que o problema está noutros aspetos da alimentação moderna?

Neste artigo analisamos o que dizem os estudos mais recentes sobre a gordura da carne, o colesterol, a saúde cardiovascular e como integrar a carne numa alimentação equilibrada.

O que contém a gordura da carne?

A gordura da carne não é composta apenas por gordura saturada.

Dependendo do animal, da alimentação e do corte escolhido, a gordura da carne pode conter:

  • Gorduras saturadas
  • Gorduras monoinsaturadas
  • Pequenas quantidades de gorduras polinsaturadas
  • Vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K)
  • Compostos bioativos importantes para o metabolismo

Curiosamente, cerca de metade da gordura presente na carne de vaca é composta por gorduras monoinsaturadas, semelhantes às encontradas no azeite.

Porque é que a gordura saturada ganhou má reputação?

Nos anos 60 e 70 surgiu a hipótese de que a gordura saturada aumentava o colesterol LDL e, consequentemente, o risco de doença cardiovascular.

Durante muitos anos esta ideia levou à recomendação de reduzir drasticamente o consumo de manteiga, ovos, carne vermelha e outros alimentos ricos em gordura saturada.

Contudo, estudos mais recentes mostraram que a relação entre gordura saturada e doença cardiovascular é mais complexa do que inicialmente se pensava.

Hoje sabemos que diferentes alimentos ricos em gordura saturada podem ter efeitos diferentes no organismo.

O colesterol conta toda a história?

O colesterol LDL continua a ser um marcador importante de risco cardiovascular.

No entanto, atualmente os investigadores analisam também:

  • Tamanho das partículas LDL
  • Número total de partículas LDL
  • Inflamação sistémica
  • Resistência à insulina
  • Triglicerídeos
  • HDL
  • Saúde metabólica global

Por exemplo, duas pessoas podem apresentar o mesmo valor de colesterol LDL e ter riscos cardiovasculares muito diferentes.

Por isso, avaliar a saúde apenas através do colesterol total pode ser uma simplificação excessiva.

O que dizem os estudos mais recentes?

As revisões científicas mais recentes sugerem que não existe evidência forte de que o consumo moderado de carne não processada aumente significativamente o risco cardiovascular em indivíduos saudáveis.

A qualidade global da alimentação parece ser muito mais importante.

Uma pessoa que consome carne juntamente com vegetais, fruta, leguminosas, azeite e peixe apresenta normalmente um perfil de risco diferente de alguém cuja alimentação é rica em ultraprocessados.

O verdadeiro problema: carnes processadas

Quando se analisam os estudos epidemiológicos, observa-se frequentemente uma associação mais consistente entre doenças cardiovasculares e o consumo de carnes processadas.

Entre elas:

  • Salsichas
  • Enchidos
  • Bacon industrial
  • Fiambres
  • Carnes fumadas industrialmente

Estes produtos costumam conter:

  • Quantidades elevadas de sal
  • Conservantes
  • Nitritos
  • Outros aditivos

Por isso, é importante distinguir carne fresca de carne processada.

A gordura da carne ajuda na saciedade?

Sim.

A gordura tem um importante papel na sensação de saciedade.

Quando uma refeição contém proteína e alguma gordura natural, muitas pessoas sentem menos fome nas horas seguintes.

Isto pode facilitar o controlo do apetite e reduzir o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados entre refeições.

Devemos retirar toda a gordura visível?

Não necessariamente.

Se gosta de um bife com alguma gordura ou de uma costeleta ocasional, não existem evidências robustas que justifiquem eliminar completamente essa gordura em indivíduos saudáveis.

O mais importante continua a ser:

  • A quantidade total consumida
  • A frequência
  • A qualidade da alimentação global
  • O estilo de vida

Qual a melhor estratégia alimentar?

As evidências continuam a favorecer um padrão alimentar de estilo mediterrânico:

  • Azeite virgem extra
  • Peixe gordo 2 a 3 vezes por semana
  • Fruta diariamente
  • Leguminosas regularmente
  • Vegetais em abundância
  • Frutos secos
  • Carne em quantidades moderadas

Este padrão está associado a menor mortalidade e menor risco cardiovascular.

Conclusão

A gordura natural da carne não deve ser vista como um inimigo automático da saúde.

A investigação atual sugere que o contexto alimentar global é muito mais importante do que a presença de alguma gordura num corte de carne.

Para a maioria das pessoas saudáveis, o consumo moderado de carne não processada, incluindo alguma gordura natural, pode fazer parte de uma alimentação equilibrada.

Mais importante do que eliminar completamente a gordura da carne é evitar o excesso de ultraprocessados, manter atividade física regular e seguir um padrão alimentar rico em alimentos minimamente processados.

Referências científicas

Saturated Fats and Health: A Reassessment and Proposal for Food-Based Recommendations

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32562735/

The Effect of Replacing Saturated Fat With Mostly n-6 Polyunsaturated Fat on Coronary Heart Disease

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34455534/

Dietary Fats and Cardiovascular Disease: A Presidential Advisory

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29511019/

Nota importante

Este artigo tem fins exclusivamente informativos e educativos.

Eu não sou nutricionista nem médico. As informações apresentadas baseiam-se na literatura científica disponível à data da publicação e não substituem aconselhamento médico ou nutricional individualizado.

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