Quando pensamos nos efeitos da poluição do ar, normalmente associamo-la a doenças respiratórias, cardiovasculares ou ao aumento do risco de algumas doenças neurológicas. No entanto, existe uma área que tem despertado cada vez mais interesse na comunidade científica: a fertilidade.
Nos últimos anos, vários estudos sugeriram que a exposição prolongada à poluição atmosférica pode estar associada a uma diminuição da fertilidade, tanto em homens como em mulheres.
Embora ainda existam muitas questões por esclarecer, a evidência atual aponta para uma relação que merece atenção.
Como pode a poluição afetar a fertilidade?
A poluição do ar contém uma mistura complexa de substâncias, incluindo:
- Partículas finas (PM2.5).
- Partículas ultrafinas.
- Dióxido de azoto (NO₂).
- Ozono (O₃).
- Compostos orgânicos voláteis.
- Metais pesados.
Estas substâncias podem entrar nos pulmões, passar para a corrente sanguínea e desencadear processos como:
- Inflamação crónica de baixo grau.
- Stress oxidativo.
- Alterações hormonais.
- Danos no ADN.
- Alterações da função celular.
Todos estes mecanismos podem, potencialmente, influenciar a capacidade reprodutiva.
O impacto na fertilidade masculina
A fertilidade masculina parece ser particularmente sensível aos fatores ambientais.
Diversos estudos encontraram associações entre maior exposição à poluição e:
- Menor concentração de espermatozoides.
- Redução da motilidade espermática.
- Alterações da morfologia.
- Aumento dos danos no ADN dos espermatozoides.
- Menor qualidade global do sémen.
Uma das hipóteses é que o stress oxidativo provocado pelos poluentes aumente a produção de radicais livres, afetando células que são especialmente vulneráveis, como os espermatozoides.
Importa lembrar que a produção de espermatozoides demora aproximadamente 70 a 90 dias. Isto significa que alterações ambientais podem demorar vários meses a refletir-se numa análise do sémen.
E nas mulheres?
A investigação também sugere possíveis efeitos na fertilidade feminina.
Entre as associações observadas encontram-se:
- Menor reserva ovárica.
- Alterações hormonais.
- Maior dificuldade em engravidar.
- Redução das taxas de sucesso em tratamentos de fertilidade.
- Maior risco de algumas complicações na gravidez.
Alguns estudos verificaram que mulheres expostas a níveis mais elevados de PM2.5 apresentavam menores probabilidades de engravidar durante determinados períodos de observação.
Contudo, tal como acontece com a doença de Parkinson, associação não significa causalidade.
O que dizem os estudos?
Uma revisão publicada recentemente concluiu que existe evidência crescente de que a poluição atmosférica pode afetar a fertilidade humana.
Os investigadores observaram que:
- PM2.5 está consistentemente associada a pior qualidade seminal.
- O dióxido de azoto (NO₂) parece influenciar parâmetros reprodutivos.
- A exposição prolongada pode ter efeitos cumulativos.
- Casais residentes em áreas mais poluídas podem apresentar um tempo maior até à conceção.
Ainda assim, é importante reconhecer que a fertilidade depende de muitos fatores:
- Idade.
- Genética.
- Peso corporal.
- Alimentação.
- Sono.
- Exercício.
- Consumo de álcool.
- Tabagismo.
- Stress.
- Condições médicas pré-existentes.
A poluição é provavelmente apenas uma peça deste complexo puzzle.
É possível reduzir a exposição?
Embora seja impossível eliminar completamente a exposição à poluição, algumas estratégias podem ajudar:
Escolha locais menos poluídos para caminhar
Sempre que possível:
- Evite avenidas com tráfego intenso.
- Prefira parques e espaços verdes.
- Treine em horários com menor circulação automóvel.
Melhore a qualidade do ar interior
- Utilize purificadores de ar, se apropriado.
- Ventile a casa em horários adequados.
- Evite fumar dentro de casa.
Adote um estilo de vida saudável
Alguns hábitos podem ajudar a proteger a saúde reprodutiva:
- Dormir 7 a 9 horas.
- Praticar exercício regularmente.
- Consumir uma alimentação rica em frutas e vegetais.
- Manter um peso saudável.
- Evitar o tabaco.
O exercício continua a ser importante?
Sim.
Embora praticar exercício ao ar livre em ambientes muito poluídos possa aumentar a exposição a poluentes, os benefícios da atividade física continuam a superar os riscos na maioria das situações.
A solução passa geralmente por:
- Escolher horários adequados.
- Procurar espaços verdes.
- Evitar dias de má qualidade do ar, quando possível.
Conclusão
A evidência científica atual sugere que a poluição do ar pode estar associada a uma diminuição da fertilidade masculina e feminina. Os mecanismos envolvidos parecem incluir inflamação, stress oxidativo e alterações hormonais.
No entanto, a fertilidade é influenciada por múltiplos fatores, e a poluição representa apenas um deles. Adotar um estilo de vida saudável e reduzir a exposição a ambientes muito poluídos continua a ser uma estratégia sensata para quem pretende preservar a saúde reprodutiva.
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Sou Marcelo Barros, Personal Trainer desde 1995, especialista em treino para pessoas com dor, recuperação funcional e envelhecimento saudável.
Referências
- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39883008/
- https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10979791/
- https://academic.oup.com/humupd/article/29/5/551/7167252
- https://ehjournal.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12940-023-00999-8
- https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/ambient-(outdoor)-air-quality-and-health