É uma dúvida muito frequente: se comer mais proteína do que o meu corpo precisa, essa proteína transforma-se em gordura?
A resposta é mais complexa do que um simples “sim” ou “não”.
Em teoria, qualquer macronutriente — proteína, hidratos de carbono ou gordura — pode contribuir para o aumento da gordura corporal se houver um consumo crónico de calorias superior ao gasto energético.
No entanto, a proteína é o nutriente com menor tendência para ser armazenado como gordura.
O que acontece quando comemos proteína?
Depois de ser ingerida, a proteína é digerida em aminoácidos.
Esses aminoácidos são utilizados para inúmeras funções essenciais:
- construir e reparar músculo;
- produzir enzimas;
- fabricar hormonas;
- formar anticorpos;
- renovar pele, cabelo e órgãos;
- manter praticamente todos os tecidos do organismo.
Só quando estas necessidades estão satisfeitas e existe um excesso energético prolongado é que parte da energia proveniente da proteína pode contribuir para o armazenamento de gordura.
Transformar proteína em gordura dá trabalho ao organismo
Ao contrário da gordura alimentar, que pode ser armazenada de forma relativamente eficiente, a proteína necessita de vários passos metabólicos antes de poder contribuir para o armazenamento de gordura.
Primeiro é necessário remover o grupo azotado dos aminoácidos, processo conhecido por desaminação.
Depois, o restante pode ser utilizado para produzir energia, glicose ou, em determinadas circunstâncias, ser convertido em gordura.
Todo este processo consome energia.
O efeito térmico da proteína
A proteína apresenta o maior efeito térmico dos alimentos.
Isto significa que o organismo gasta uma parte significativa das calorias apenas para a digerir, absorver e metabolizar.
Em média:
- proteína: cerca de 20 a 30% das calorias ingeridas são gastas no processamento;
- hidratos de carbono: aproximadamente 5 a 10%;
- gordura: apenas 0 a 3%.
Por isso, uma parte importante das calorias provenientes da proteína nunca chega a estar disponível para armazenamento.
O que dizem os estudos?
Vários estudos controlados mostraram que dietas ricas em proteína tendem a:
- aumentar a saciedade;
- preservar a massa muscular durante a perda de peso;
- aumentar ligeiramente o gasto energético diário;
- reduzir a fome entre refeições.
Algumas investigações observaram mesmo que pessoas que consumiram grandes quantidades de proteína durante várias semanas ganharam pouca ou nenhuma gordura adicional quando o treino de força era mantido.
Isto não significa que seja impossível engordar com proteína, mas mostra que o organismo lida com ela de forma diferente dos outros macronutrientes.
Então é impossível engordar com proteína?
Não.
Se existir um excesso calórico importante durante muito tempo, o peso corporal aumentará.
A proteína não “escapa” às leis da termodinâmica.
No entanto, comparando calorias iguais provenientes de proteína ou de gordura, a proteína tende a favorecer menos o armazenamento de gordura devido ao seu elevado custo metabólico e ao seu efeito na saciedade.
Quem pode beneficiar de uma dieta rica em proteína?
Uma ingestão adequada de proteína pode ser particularmente útil para:
- pessoas que pretendem perder gordura;
- praticantes de treino de força;
- adultos com mais de 40 anos;
- idosos;
- atletas;
- pessoas em recuperação de lesões ou cirurgias.
Nestes casos, a proteína ajuda a preservar a massa muscular e pode facilitar o controlo do peso.
Qual é a quantidade ideal?
Para a maioria das pessoas fisicamente ativas, uma ingestão entre 1,2 e 1,6 g de proteína por quilograma de peso corporal por dia é suficiente.
Em determinadas situações, como treino intenso ou perda de gordura, valores até cerca de 2,2 g/kg/dia podem ser adequados.
Consumir muito acima destes valores dificilmente traz benefícios adicionais para a maioria das pessoas.
Conclusão
A proteína em excesso pode, em teoria, contribuir para o aumento da gordura corporal, mas este processo é menos eficiente do que acontece com a gordura alimentar.
Antes de poder ser armazenada, a proteína precisa de passar por vários processos metabólicos que consomem energia.
Além disso, aumenta a saciedade, eleva o gasto energético e ajuda a preservar a massa muscular.
Por isso, quando integrada numa alimentação equilibrada e associada ao exercício físico, a proteína é um dos nutrientes mais importantes para quem pretende melhorar a composição corporal e manter a saúde ao longo da vida.
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Nota: Este artigo tem caráter informativo e não substitui o aconselhamento individualizado por um médico ou nutricionista.
Referências científicas
- Bray GA, et al. The Effect of Dietary Protein Content on Weight Gain, Energy Expenditure, and Body Composition During Overeating. JAMA. 2012. https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/1104773
- Antonio J, et al. A High Protein Diet Has No Harmful Effects: A One-Year Crossover Study in Resistance-Trained Males. Journal of Nutrition and Metabolism. 2016. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5078648/
- Leidy HJ, et al. The Role of Protein in Weight Loss and Maintenance. American Journal of Clinical Nutrition. https://academic.oup.com/ajcn/article/101/6/1320S/4564492
- Westerterp KR. Diet Induced Thermogenesis. Nutrition & Metabolism. https://nutritionandmetabolism.biomedcentral.com/articles/10.1186/1743-7075-1-5