Fez uma cirurgia há vários anos e continua com dores? Ou tem uma cicatriz antiga e pergunta-se se ela pode estar a influenciar a forma como o seu corpo se movimenta?
Na maioria das pessoas, uma cicatriz cicatriza sem causar problemas. No entanto, em alguns casos, pode tornar-se dolorosa, menos móvel ou mais sensível, contribuindo para alterações do movimento e desconforto persistente.
Mas será que uma cicatriz antiga pode realmente estar relacionada com a dor?
A resposta é: sim, em algumas situações, embora nem todas as cicatrizes sejam problemáticas.
O que acontece quando uma cicatriz se forma?
Após uma lesão ou cirurgia, o organismo produz tecido cicatricial para reparar a zona afetada.
Este tecido é diferente do tecido original:
- Tem uma organização distinta das fibras de colagénio.
- Pode apresentar menor elasticidade.
- Pode aderir aos tecidos vizinhos.
- Pode alterar a sensibilidade local.
Na maioria dos casos, estas alterações não provocam qualquer sintoma.
Quando uma cicatriz pode causar problemas?
Uma cicatriz pode tornar-se clinicamente relevante quando apresenta:
- Dor à palpação.
- Hipersensibilidade.
- Dormência persistente.
- Sensação de queimadura ou formigueiro.
- Aderências que limitam o movimento dos tecidos.
- Dificuldade em movimentar uma articulação próxima.
Nestes casos, a cicatriz pode influenciar a função da região onde se encontra.
As aderências podem limitar o movimento?
Em algumas pessoas, sim.
As aderências podem reduzir o deslizamento normal entre pele, fáscia, músculos e outros tecidos.
Dependendo da localização, isso pode dificultar determinados movimentos e aumentar a tensão sobre estruturas vizinhas.
Por exemplo:
- Uma cicatriz após uma cirurgia ao joelho pode limitar a flexão ou a extensão completas.
- Uma cicatriz abdominal pode causar desconforto durante movimentos de rotação ou extensão do tronco.
- Uma cicatriz no ombro pode interferir com a mobilidade do braço.
E a dor pode aparecer anos depois?
É possível, mas não é a situação mais frequente.
Uma cicatriz pode tornar-se sensível devido a alterações nervosas, formação de neuromas, aderências ou mudanças na forma como os tecidos suportam carga.
No entanto, quando surge dor muitos anos após uma cirurgia, é importante excluir outras causas antes de assumir que a cicatriz é a responsável.
O que diz a ciência?
A investigação demonstra que algumas cicatrizes podem alterar a mobilidade dos tecidos e a sensibilidade local.
Também existe evidência de que técnicas de mobilização de cicatrizes e exercício terapêutico podem melhorar a mobilidade, reduzir a dor e aumentar a função em determinados casos.
Por outro lado, não existem provas robustas de que uma cicatriz antiga provoque, por si só, dores em regiões distantes do corpo, como explicar isoladamente dores lombares, cervicais ou noutras articulações.
Cada caso deve ser avaliado individualmente.
Como é feita a avaliação?
Uma avaliação pode incluir:
- Observação da cicatriz.
- Mobilidade da pele e dos tecidos.
- Sensibilidade ao toque.
- Amplitude de movimento.
- Força muscular.
- Avaliação biomecânica.
- Análise do padrão de movimento.
O objetivo é perceber se a cicatriz está realmente a contribuir para os sintomas ou se existem outros fatores envolvidos.
Como pode ser tratada?
Quando a cicatriz apresenta limitações, o tratamento pode incluir:
- Mobilização da cicatriz.
- Técnicas manuais para melhorar a mobilidade dos tecidos.
- Exercícios de mobilidade.
- Fortalecimento muscular.
- Exercício terapêutico progressivo.
- Educação sobre dor e movimento.
A abordagem deve ser sempre adaptada à pessoa e ao tipo de cicatriz.
O papel do P-DTR
Na abordagem do P-DTR (Proprioceptive Deep Tendon Reflex), alguns profissionais consideram que alterações dos recetores sensoriais presentes na pele e nos tecidos cicatriciais podem influenciar o controlo neuromuscular.
Embora esta hipótese faça parte da prática clínica de alguns terapeutas, ainda são necessários estudos independentes de elevada qualidade para confirmar a sua eficácia e os seus mecanismos.
Referências científicas (links clicáveis)
Wilgus TA. Wound Healing: Cellular Mechanisms and Pathological Outcomes. Advances in Wound Care
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2903966/
Stecco C, Schleip R. Fascia and Scar Tissue: Structure and Function
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5237490/
Lee DG, Lee LJ. Scar Management and Rehabilitation Following Surgery
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28617568/
International Clinical Recommendations on Scar Management
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30422718/
American Physical Therapy Association (APTA) – Clinical Guidance on Scar Management and Rehabilitation
https://www.choosept.com/guide/physical-therapy-guide-scars-adhesions
Posso ajudar?
Se tem uma cicatriz antiga que continua dolorosa, limita os seus movimentos ou suspeita que possa estar a contribuir para o seu problema, uma avaliação individual pode ajudar a perceber se existe realmente uma relação entre a cicatriz e os seus sintomas.
Sou Marcelo Barros, Personal Trainer desde 1995, antigo Personal Trainer oficial da Men’s Health (2003–2015), especialista em joelho e coluna, com formação em Osteopatia e em P-DTR (Proprioceptive Deep Tendon Reflex).
Realizo avaliações presenciais no Lemon Fit, no Parque das Nações (Lisboa), e acompanhamento online por videochamada.
O objetivo é identificar os fatores que estão a influenciar a sua dor ou limitação funcional e desenvolver um plano de recuperação baseado na melhor evidência científica disponível, adaptado às suas necessidades.