A surdez pode alterar o cérebro e melhorar a visão periférica?

A surdez pode alterar o cérebro e melhorar a visão periférica? September 14, 2026Leave a comment

A perda de audição pode fazer o cérebro reorganizar a forma como utiliza a visão? Um novo estudo publicado em setembro de 2026 sugere que sim.

Investigadores das Universidades de York e Sheffield analisaram o cérebro de adultos com surdez profunda desde fases precoces da vida e descobriram alterações na forma como determinadas estruturas cerebrais representam o campo visual.

O estudo, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), foi disponibilizado online em 4 de setembro de 2026 e publicado no volume 123, número 36, em 8 de setembro de 2026. (White Rose Research Online)

Os resultados sugerem que a experiência sensorial ao longo da vida pode reorganizar os mapas visuais do cérebro, dando maior representação às regiões periféricas do campo visual.

Esta descoberta reforça um dos conceitos mais fascinantes da neurociência: o cérebro não é uma estrutura completamente fixa. Adapta-se às exigências a que é submetido.

O cérebro consegue reorganizar-se?

Durante muito tempo, acreditou-se que as estruturas cerebrais adultas eram relativamente estáveis.

Hoje sabemos que isso não é verdade.

O sistema nervoso apresenta capacidade de neuroplasticidade, ou seja, capacidade para modificar algumas das suas estruturas e funções em resposta à experiência, aprendizagem, treino ou alterações sensoriais.

Quando uma pessoa perde uma fonte importante de informação sensorial, o cérebro pode reorganizar a forma como utiliza os recursos disponíveis.

É precisamente este fenómeno que o novo estudo procurou investigar.

Os investigadores queriam saber se a ausência de informação auditiva desde uma fase precoce da vida poderia estar associada a alterações nas regiões cerebrais responsáveis pelo processamento visual.

E encontraram diferenças importantes.

O estudo comparou adultos surdos e ouvintes

Participaram na investigação 32 adultos.

O grupo principal era constituído por 16 adultos com surdez profunda desde cedo na vida, enquanto o grupo de comparação incluía 16 adultos ouvintes da mesma faixa etária. (White Rose Research Online)

Os investigadores utilizaram ressonância magnética funcional (fMRI) para estudar a representação do campo visual em duas estruturas importantes:

  • o córtex visual primário, uma das primeiras regiões do cérebro a processar informação visual;
  • o núcleo geniculado lateral, localizado no tálamo e envolvido na transmissão de informação visual entre os olhos e o córtex.

Em vez de simplesmente avaliar se os participantes viam melhor ou pior, os investigadores procuraram perceber como o cérebro organizava espacialmente a informação visual.

Esta diferença é fundamental.

O estudo não se limitou a testar uma capacidade comportamental.

Procurou observar diretamente a organização funcional do sistema visual.

A grande diferença apareceu na visão periférica

Os adultos com surdez profunda desde cedo apresentavam uma maior representação da visão periférica extrema tanto no córtex visual primário como no núcleo geniculado lateral. (White Rose Research Online)

Isto significa que uma maior proporção dos recursos utilizados para representar o campo visual parecia estar dedicada às regiões mais afastadas do centro da visão.

Imagine que está a olhar diretamente para uma pessoa.

A região central da visão permite observar aquilo que está diretamente à sua frente.

Mas, simultaneamente, existe uma enorme quantidade de informação visual que chega das zonas laterais.

É a chamada visão periférica.

Para uma pessoa ouvinte, parte da informação proveniente da periferia pode ser complementada por sons.

Um movimento que acontece ao lado pode ser acompanhado por um ruído.

Uma pessoa que se aproxima por trás pode ser detetada através da audição.

Para alguém que não dispõe dessa informação auditiva, a visão periférica pode assumir uma importância maior.

O cérebro parece adaptar-se a essa realidade.

Não houve simplesmente um “cérebro visual maior”

Um dos aspetos mais interessantes do estudo é que os investigadores não encontraram uma expansão global das estruturas visuais.

O tamanho total do córtex visual primário e do núcleo geniculado lateral não diferia significativamente entre os grupos.

O que mudou foi a distribuição dos recursos dentro desses mapas.

Os participantes surdos apresentavam uma maior representação da periferia visual, acompanhada por uma menor representação da região central. (White Rose Research Online)

É como se o mapa não tivesse aumentado de tamanho.

Em vez disso, tivesse sido redistribuído.

Esta distinção é muito importante para compreender a neuroplasticidade.

O cérebro não precisa necessariamente de criar mais tecido para aumentar uma determinada capacidade.

Pode reorganizar a forma como utiliza os recursos que já possui.

Porque é que a visão periférica pode ser tão importante?

A visão periférica desempenha um papel fundamental na deteção de movimento e na orientação no espaço.

Mesmo quando estamos concentrados numa tarefa central, o sistema visual continua a monitorizar acontecimentos que ocorrem fora do ponto onde estamos a olhar diretamente.

Isto é particularmente importante para detetar movimentos rápidos ou inesperados.

Para uma pessoa surda, esta capacidade pode assumir uma importância adicional.

Sem a mesma informação proveniente da audição, acontecimentos fora do campo central da visão precisam de ser detetados principalmente através de informação visual.

O estudo sugere que essa necessidade pode contribuir para a reorganização das primeiras etapas do processamento visual. (growkudos.com)

A experiência pode literalmente moldar o cérebro

Esta é talvez a principal mensagem deste trabalho.

O cérebro não responde apenas a doenças ou lesões.

Também responde à experiência diária.

Ao longo de muitos anos, aquilo que fazemos repetidamente pode influenciar a forma como determinadas redes neuronais são utilizadas.

Neste caso, a ausência de audição desde uma fase precoce da vida cria uma exigência adicional sobre a visão periférica.

O sistema nervoso parece adaptar-se a essa exigência.

Esta ideia encaixa num princípio mais amplo da neuroplasticidade:

o cérebro adapta-se às necessidades que lhe são colocadas.

Não significa que possamos transformar qualquer capacidade cerebral simplesmente através de treino.

Mas significa que a experiência sensorial e motora pode influenciar a organização funcional do sistema nervoso.

E a linguagem gestual?

Outro resultado interessante foi a relação entre a reorganização observada e a experiência com língua gestual.

Os investigadores encontraram indicações de que a redistribuição dos recursos visuais periféricos poderia ser ainda mais evidente em participantes com maior experiência de linguagem gestual. (growkudos.com)

Isto é particularmente interessante porque a língua gestual depende fortemente da informação visual.

A pessoa precisa de acompanhar movimentos das mãos, expressões faciais e informação espacial.

Consequentemente, a utilização regular de informação visual complexa pode representar mais uma experiência capaz de influenciar o sistema visual.

É importante, contudo, não interpretar esta associação como prova de que aprender língua gestual provoca diretamente estas alterações cerebrais.

O estudo é pequeno e não foi desenhado para demonstrar causalidade.

Isto significa que as pessoas surdas têm “supervisão”?

Não.

É importante evitar interpretações exageradas.

O estudo não demonstra que pessoas surdas tenham uma visão superior em todos os aspetos.

O que demonstra é uma diferença na representação cerebral do campo visual, particularmente nas regiões periféricas.

Existem estudos comportamentais anteriores que sugerem vantagens específicas na deteção de estímulos periféricos em pessoas surdas desde cedo, mas isso não significa que todos os aspetos da visão sejam melhores.

A adaptação é específica às exigências do sistema sensorial.

É mais correto falar em especialização ou reorganização do que numa melhoria global da visão.

E se a perda auditiva acontecer na idade adulta?

Aqui também é necessário ter cuidado.

Os participantes deste estudo tinham surdez profunda desde fases precoces da vida.

Por isso, não podemos simplesmente concluir que uma pessoa que perde audição aos 50 ou 60 anos desenvolverá exatamente a mesma reorganização cerebral.

O cérebro apresenta neuroplasticidade ao longo da vida, mas o período em que uma alteração sensorial ocorre pode ser determinante.

As primeiras fases do desenvolvimento são particularmente importantes para a organização das redes sensoriais.

Por isso, os resultados deste estudo aplicam-se sobretudo à surdez profunda desde cedo, e não automaticamente a qualquer pessoa com perda auditiva.

O que isto nos ensina sobre treino?

Esta investigação também levanta questões interessantes sobre exercício e treino motor.

Se o cérebro adapta a utilização dos recursos sensoriais às exigências do ambiente, então determinadas formas de treino podem ser pensadas não apenas para fortalecer músculos, mas também para estimular sistemas sensoriais e motores.

Por exemplo, exercícios que exigem:

  • atenção visual periférica;
  • reação a estímulos inesperados;
  • coordenação olho-mão;
  • orientação espacial;
  • equilíbrio;
  • mudanças rápidas de direção;
  • acompanhamento visual de objetos;
  • integração entre visão e movimento;

podem criar desafios diferentes para o sistema nervoso.

Isto não significa que estes exercícios produzam necessariamente as mesmas alterações observadas em pessoas com surdez.

Seria uma extrapolação que o estudo não permite.

Mas a investigação fornece uma demonstração interessante de que as exigências sensoriais podem estar associadas à forma como o cérebro organiza a informação.

A visão periférica também é importante no envelhecimento

À medida que envelhecemos, manter boas capacidades sensoriais torna-se particularmente importante.

A visão, o equilíbrio, a audição, a proprioceção e a capacidade de reagir rapidamente a estímulos ambientais participam na nossa interação com o espaço.

Uma pessoa pode ter boa força muscular e, ainda assim, apresentar dificuldades relacionadas com perceção espacial, equilíbrio ou reação.

Por isso, uma abordagem completa ao envelhecimento saudável não deve considerar apenas músculos e capacidade cardiovascular.

O cérebro e os sistemas sensoriais também fazem parte do movimento.

Exercício não é apenas força e resistência

Quando pensamos em exercício depois dos 40, é comum concentrarmo-nos em força, massa muscular, mobilidade e capacidade cardiovascular.

Todas são importantes.

Mas o movimento humano depende também da capacidade de perceber o ambiente, interpretar informação e produzir uma resposta motora adequada.

A visão periférica é uma peça desse sistema.

Imagine atravessar uma rua, praticar um desporto, caminhar num ambiente movimentado ou simplesmente evitar uma pessoa que aparece lateralmente.

Não estamos apenas a utilizar músculos.

Estamos constantemente a recolher e interpretar informação sensorial.

A investigação sobre neuroplasticidade reforça a importância de considerar essa dimensão.

O que este estudo não prova

Apesar de os resultados serem fascinantes, é importante manter uma interpretação científica.

O estudo envolveu apenas 32 participantes, 16 em cada grupo.

Além disso, é um estudo comparativo e não um ensaio experimental.

Não podemos concluir que treinar visão periférica produzirá necessariamente a mesma reorganização cerebral.

Também não podemos afirmar que qualquer pessoa surda desenvolverá exatamente o mesmo padrão.

Os resultados demonstram uma associação entre uma história de surdez profunda desde cedo e uma organização diferente das representações visuais no cérebro.

São necessários estudos maiores para perceber melhor a dimensão destas diferenças, os mecanismos envolvidos e a influência de fatores como idade, grau de surdez, utilização de aparelhos auditivos, língua gestual e experiência visual.

A principal conclusão

O estudo publicado no PNAS em setembro de 2026 mostra que a experiência sensorial ao longo da vida pode estar associada a alterações muito específicas na organização do sistema visual. (Pure York)

Adultos com surdez profunda desde cedo apresentaram maior representação da visão periférica extrema no córtex visual primário e no núcleo geniculado lateral, acompanhada por menor representação da região central, sem aumento global do tamanho destas estruturas. (White Rose Research Online)

Mais do que mostrar que a surdez pode estar associada a uma determinada capacidade visual, o trabalho demonstra algo mais abrangente:

o cérebro adapta-se às exigências da vida.

Quando uma fonte de informação desaparece, outras formas de perceção podem ganhar maior importância.

E essa adaptação pode deixar marcas observáveis na própria organização funcional do cérebro.

Para quem trabalha com exercício, movimento e envelhecimento, esta investigação reforça uma ideia particularmente interessante: treinar o corpo não significa apenas treinar músculos. Movimento, visão, equilíbrio, atenção e processamento sensorial trabalham em conjunto.

Compreender essa integração pode ajudar-nos a pensar de forma mais completa sobre exercício, desempenho e envelhecimento saudável.

Posso ajudar

Posso integrar exercícios de força, mobilidade, equilíbrio, coordenação e estímulos visuais para desenvolver movimento, controlo motor e autonomia, adaptados à sua condição e objetivos.