Amplitude completa ou parcial no treino de força? Novo estudo analisa as respostas hormonais

Amplitude completa ou parcial no treino de força? Novo estudo analisa as respostas hormonais September 22, 2026Leave a comment

A amplitude de movimento é uma das variáveis mais discutidas no treino de força. Devemos realizar os exercícios com a maior amplitude possível ou existem situações em que uma amplitude parcial pode ser útil?

Um novo estudo publicado no European Journal of Applied Physiology analisou esta questão de uma forma diferente. Em vez de avaliar apenas força ou hipertrofia após várias semanas de treino, os investigadores observaram as respostas metabólicas e hormonais imediatamente depois de uma sessão de treino com amplitude completa ou parcial.

Os resultados mostram que a amplitude parcial provocou algumas respostas hormonais diferentes da amplitude completa. No entanto, é fundamental perceber que se trata de um estudo agudo, realizado em apenas 10 homens jovens sem experiência prévia regular de treino de força. Portanto, não podemos concluir que a amplitude parcial seja superior para ganhar massa muscular ou força a longo prazo.

O que é a amplitude de movimento?

A amplitude de movimento, frequentemente designada por ROM (range of motion), corresponde à distância angular ou mecânica percorrida por uma articulação durante um exercício.

Por exemplo, num agachamento podemos utilizar uma amplitude relativamente grande, descendo até uma posição em que as coxas ficam aproximadamente paralelas ao chão. Podemos também realizar um agachamento parcial, em que a descida é interrompida mais cedo.

No supino acontece algo semelhante. Uma repetição com amplitude completa aproxima a barra do peito antes de voltar à posição inicial. Numa repetição parcial, a barra percorre apenas parte dessa distância.

A amplitude altera a posição das articulações, o comprimento dos músculos envolvidos, a produção de força e a carga que conseguimos utilizar.

O que analisou o novo estudo?

O estudo incluiu 10 homens jovens, com uma idade média de 24 anos, que eram fisicamente activos mas não tinham experiência regular de treino de força.

Cada participante realizou três condições experimentais, separadas por uma semana:

  • treino com amplitude completa;
  • treino com amplitude parcial;
  • repouso, sem treino.

Em ambas as condições de treino foram realizados agachamento e supino numa máquina Smith.

Os participantes realizaram três séries de cada exercício utilizando a sua carga de 10 repetições máximas.

Na amplitude completa, o agachamento foi realizado até as coxas ficarem aproximadamente paralelas ao chão e, no supino, a barra desceu até tocar ligeiramente no peito.

Na amplitude parcial, a distância percorrida pela barra foi aproximadamente metade da amplitude utilizada na condição completa.

Porque é que os investigadores estudaram as hormonas?

O treino de força provoca alterações agudas em várias hormonas e marcadores metabólicos. Entre os mais estudados encontram-se a hormona do crescimento, a testosterona e o cortisol.

Estas respostas podem fornecer informação sobre a resposta fisiológica ao exercício.

No entanto, existe uma distinção fundamental entre uma resposta hormonal aguda e uma adaptação muscular a longo prazo.

Uma subida temporária de testosterona ou hormona do crescimento depois do treino não significa automaticamente que determinada forma de treino produza mais hipertrofia semanas ou meses depois.

Esta distinção é particularmente importante na interpretação deste estudo.

Amplitude completa provocou maior lactato

Um dos resultados mais claros foi observado no lactato sanguíneo.

O lactato aumentou significativamente imediatamente depois do treino tanto com amplitude completa como com amplitude parcial.

No entanto, a concentração foi superior após o treino com amplitude completa: aproximadamente 11,97 mmol/L, comparativamente com 9,37 mmol/L na amplitude parcial.

Esta diferença mostra que os dois protocolos não produziram exactamente o mesmo estímulo metabólico.

A amplitude completa implicou uma maior distância percorrida pela carga em cada repetição. Consequentemente, o trabalho mecânico realizado também pode ter sido diferente.

É importante, portanto, não comparar simplesmente o número de repetições. A amplitude utilizada modifica a quantidade de trabalho realizado e a exigência fisiológica do exercício.

E a testosterona?

A testosterona total aumentou imediatamente depois do exercício tanto na amplitude completa como na amplitude parcial.

Contudo, existiu uma diferença interessante na recuperação.

Quinze minutos depois do exercício, os valores de testosterona tinham regressado aproximadamente aos níveis basais após a condição de amplitude completa. Na condição de amplitude parcial, os valores permaneciam significativamente elevados relativamente ao momento inicial.

À primeira vista, poderia parecer que isto significa que a amplitude parcial é melhor para aumentar a testosterona.

Seria, porém, uma conclusão demasiado simplista.

O estudo avaliou apenas a resposta hormonal durante os minutos imediatamente posteriores a uma sessão. Não avaliou hipertrofia, ganho de força ou alterações hormonais crónicas ao longo de semanas ou meses.

O que aconteceu com a hormona do crescimento?

A hormona do crescimento também aumentou depois do exercício.

Quinze minutos após o treino, os valores estavam acima dos níveis basais tanto na amplitude completa como na parcial.

No entanto, a diferença entre as duas condições não foi estatisticamente significativa.

Assim, o estudo não demonstra uma vantagem clara da amplitude parcial relativamente à amplitude completa na resposta da hormona do crescimento.

E o cortisol?

O cortisol apresentou um padrão diferente.

Quinze minutos depois do treino, o cortisol estava significativamente elevado relativamente aos valores basais apenas depois do treino com amplitude completa.

Os valores também foram superiores aos observados na condição de repouso.

O cortisol é uma hormona envolvida na resposta ao stress e no metabolismo. Uma elevação transitória depois de uma sessão de treino não deve ser automaticamente interpretada como algo negativo.

O exercício físico é um estímulo fisiológico e provoca diversas respostas de stress que fazem parte do processo de adaptação.

Então a amplitude parcial é melhor?

Não é isso que este estudo demonstra.

O estudo mostra que a amplitude parcial e a amplitude completa provocaram respostas hormonais agudas diferentes em homens jovens não treinados.

Não mostra que a amplitude parcial produza mais músculo.

Também não demonstra que produza mais força.

Não demonstra que deva substituir a amplitude completa no treino convencional.

Na realidade, os próprios autores enquadram os resultados no contexto de investigação anterior. Estudos de intervenção de maior duração apresentam resultados diferentes consoante o exercício, a amplitude utilizada e o objectivo. Algumas revisões e meta-análises têm encontrado vantagens da amplitude completa para a hipertrofia, sobretudo nos membros inferiores.

Amplitude parcial pode ter utilidade no treino

Apesar disso, a amplitude parcial pode ter aplicações interessantes.

Ao reduzir a distância percorrida pela carga, podemos frequentemente utilizar cargas superiores. Além disso, determinadas amplitudes permitem trabalhar especificamente uma parte do movimento onde pretendemos aumentar a força.

Um atleta pode, por exemplo, utilizar movimentos parciais para trabalhar uma zona específica do exercício, ultrapassar determinados pontos de dificuldade ou desenvolver força num ângulo articular concreto.

As repetições parciais também podem ser utilizadas quando uma amplitude completa não é possível devido a limitações específicas de mobilidade, desconforto ou determinadas fases de uma progressão de treino.

Mas isso não significa que devam ser automaticamente consideradas superiores.

O comprimento muscular também importa

Nem todas as repetições parciais são iguais.

Uma repetição parcial realizada numa posição em que o músculo está relativamente alongado é fisiologicamente diferente de uma repetição parcial realizada perto da posição de máxima contracção.

Por isso, quando falamos de amplitude parcial, é importante especificar em que parte do movimento a amplitude é reduzida.

Esta questão é especialmente relevante actualmente, porque vários estudos têm investigado o papel do comprimento muscular durante o treino e a sua relação com hipertrofia.

Não devemos, portanto, colocar todas as formas de amplitude parcial na mesma categoria.

O que significa para a hipertrofia?

Para quem procura aumentar massa muscular, este estudo deve ser interpretado com alguma prudência.

Os participantes fizeram apenas uma sessão experimental e os investigadores mediram respostas hormonais durante um período muito curto.

Para avaliar hipertrofia seria necessário acompanhar os participantes durante várias semanas ou meses e medir alterações na massa muscular.

Além disso, seria importante controlar o volume de treino, a carga, a frequência semanal, a alimentação e outros factores que influenciam as adaptações musculares.

Portanto, não podemos utilizar este estudo isoladamente para afirmar que fazer agachamentos ou supino apenas com metade da amplitude é uma estratégia superior para ganhar músculo.

E para o treino depois dos 40 anos?

Existe aqui uma limitação particularmente importante para o leitor adulto.

Os participantes tinham aproximadamente 24 anos e eram homens jovens sem experiência regular de treino de força.

Os resultados não podem ser directamente extrapolados para mulheres, pessoas com mais de 40 anos, atletas experientes ou adultos mais velhos.

As respostas ao treino podem depender da idade, experiência de treino, capacidade de recuperação, condição física, mobilidade e historial de lesões.

Para a maioria das pessoas, a amplitude deve ser escolhida tendo em consideração o objectivo do exercício, a técnica, o controlo do movimento e a tolerância individual.

Amplitude completa continua a ser uma ferramenta importante

O facto de a amplitude parcial produzir determinadas respostas hormonais não diminui a importância da amplitude completa.

A amplitude completa permite trabalhar uma maior distância de movimento e pode aumentar o trabalho mecânico realizado numa série.

Além disso, a especificidade é fundamental. Se pretendemos melhorar a força ou a capacidade funcional através de uma determinada amplitude, treinar através de uma amplitude suficientemente grande pode ser importante para desenvolver força ao longo desse movimento.

Por isso, em vez de perguntar se a amplitude completa ou parcial é universalmente melhor, é mais útil perguntar: qual é a amplitude mais adequada para este exercício, esta pessoa e este objectivo?

Conclusão

Um estudo publicado em setembro de 2026 analisou pela primeira vez de forma específica as respostas hormonais agudas ao treino com amplitude completa e parcial em homens jovens sem experiência regular de treino de força.

Ambos os métodos aumentaram a testosterona imediatamente após o exercício. A amplitude parcial manteve a testosterona elevada 15 minutos depois, enquanto a amplitude completa provocou maior aumento do lactato e uma elevação do cortisol nesse momento. A hormona do crescimento aumentou após ambos os protocolos, sem diferença significativa entre eles.

Apesar dos resultados interessantes, este estudo não demonstra que as repetições parciais sejam superiores para ganhar massa muscular ou força. Trata-se de uma investigação aguda, com apenas 10 participantes e realizada em homens jovens não treinados.

A principal mensagem é que a amplitude de movimento modifica o estímulo produzido pelo exercício. As repetições parciais podem ter um lugar específico num programa de treino, mas a escolha da amplitude deve depender do exercício, do objectivo, da experiência e das características individuais.

Posso ajudar

Posso ajudar a escolher a amplitude adequada para cada exercício, ajustando técnica, carga, volume e progressão aos seus objetivos, experiência, mobilidade e eventuais limitações.

Referências