Um novo estudo publicado na revista Alzheimer’s & Dementia encontrou uma possível relação entre a genética das plaquetas e o efeito da aspirina no risco de desenvolver demência. A investigação sugere que algumas pessoas poderão responder de forma diferente à aspirina na prevenção primária da demência, dependendo de determinadas características genéticas.
Os resultados são particularmente interessantes porque a aspirina não demonstrou reduzir o risco de demência quando analisada de forma global em adultos mais velhos. Nesta nova análise, os investigadores procuraram perceber se determinadas características genéticas poderiam identificar grupos específicos nos quais o efeito do medicamento fosse diferente.
O estudo utilizou dados genéticos de participantes do ensaio ASPREE, um grande estudo clínico que avaliou os efeitos da aspirina em adultos mais velhos. Os investigadores analisaram milhares de pontuações genéticas para procurar possíveis diferenças na resposta à aspirina relativamente ao risco de demência e ao risco de hemorragia.
O que é a prevenção primária da demência?
A prevenção primária procura evitar ou atrasar o aparecimento de uma doença antes de esta se manifestar. No caso da demência, esta área de investigação tem procurado identificar fatores modificáveis e intervenções que possam reduzir o risco de desenvolver alterações cognitivas no futuro.
Até ao momento, não existe um medicamento aprovado especificamente para a prevenção primária da demência em pessoas que não apresentam a doença. A investigação tem-se concentrado sobretudo no controlo de fatores de risco cardiovasculares e metabólicos, na atividade física, na alimentação, no sono e noutros comportamentos relacionados com o envelhecimento saudável.
A aspirina despertou interesse nesta área devido aos seus efeitos sobre as plaquetas e a coagulação sanguínea. No entanto, os resultados anteriores do ensaio ASPREE não mostraram um benefício global da aspirina na prevenção da demência.
O que este novo estudo procurou descobrir?
Os investigadores partiram de uma possibilidade: mesmo que a aspirina não tenha um efeito significativo na população em geral, poderá existir um subgrupo de pessoas geneticamente predispostas a beneficiar do medicamento.
Para investigar esta hipótese, foram analisadas 5182 pontuações de risco poligénico, que são medidas que combinam o efeito de numerosas variantes genéticas associadas a determinadas características ou doenças. Depois dos procedimentos de controlo de qualidade, 1848 pontuações foram incluídas na análise.
Os investigadores procuraram especificamente interações entre estas características genéticas e o tratamento com aspirina relativamente ao aparecimento de demência. Também avaliaram o risco de hemorragia, uma vez que este é um dos principais efeitos adversos associados à utilização de aspirina em pessoas mais velhas.
A importância das plaquetas
Um dos resultados mais relevantes foi a identificação de uma associação entre pontuações genéticas relacionadas com a contagem de plaquetas e a resposta à aspirina.
As plaquetas são células presentes no sangue que desempenham um papel fundamental na coagulação. Quando ocorre uma lesão num vaso sanguíneo, as plaquetas ajudam a formar um coágulo e a controlar a hemorragia.
Estas células também têm sido estudadas no contexto das doenças cardiovasculares e neurológicas. Alterações na atividade plaquetária podem influenciar processos relacionados com a circulação sanguínea e, potencialmente, com mecanismos envolvidos no desenvolvimento de algumas doenças cerebrais.
O estudo encontrou um enriquecimento significativo de sinais relacionados com características plaquetárias entre as interações genéticas observadas. Três pontuações genéticas relacionadas com a contagem de plaquetas ultrapassaram os critérios estatísticos definidos pelos investigadores.
Uma redução importante do risco num grupo específico
Entre os participantes que apresentavam valores mais elevados numa das principais pontuações genéticas estudadas, a utilização de aspirina esteve associada a uma redução substancial do risco de demência quando comparada com o placebo.
Na quinta parte dos participantes com a pontuação genética mais elevada, a análise encontrou um hazard ratio de 0,28 para a demência entre as pessoas que receberam aspirina em comparação com as que receberam placebo. Isto corresponde a uma associação com aproximadamente 72% menos risco relativo de desenvolver demência durante o período analisado.
É importante interpretar este resultado com cuidado. Não significa que a aspirina reduza o risco de demência em 72% para todas as pessoas. O efeito foi observado num grupo definido por uma determinada característica genética e resultou de uma análise posterior dos dados de um ensaio clínico.
Além disso, não foi identificado um benefício semelhante nos restantes grupos genéticos analisados. Esta diferença é precisamente uma das razões pelas quais os investigadores consideram que a genética poderá, no futuro, ajudar a compreender por que motivo determinadas pessoas respondem de maneira diferente a uma intervenção.
Mas também aumentou o risco de hemorragia
O estudo apresenta uma informação igualmente importante: o possível benefício relacionado com a demência não apareceu isoladamente.
No grupo com a pontuação genética mais elevada, a aspirina também esteve associada a um aumento do risco de hemorragia grave. A análise encontrou um hazard ratio de 2,13 para hemorragia major, ou seja, aproximadamente o dobro do risco observado no grupo que recebeu placebo.
Este resultado é essencial para interpretar a investigação. Uma eventual redução do risco de demência não pode ser analisada separadamente dos efeitos adversos do medicamento. Qualquer estratégia preventiva teria de considerar simultaneamente os potenciais benefícios e os riscos.
A aspirina deve ser usada para prevenir a demência?
Com base neste estudo, não se deve concluir que a aspirina deva ser iniciada para prevenir a demência.
Os próprios investigadores classificam os resultados como geradores de hipóteses. Isto significa que a investigação encontrou um sinal potencialmente importante, mas ainda é necessário confirmar se a associação se mantém noutras populações e em estudos especificamente desenhados para testar esta questão.
O estudo é também uma análise pós-hoc dos dados genéticos do ensaio ASPREE. Apesar de utilizar dados provenientes de um ensaio clínico aleatorizado, a pergunta genética analisada não correspondeu ao objetivo original do ensaio. Por isso, os resultados precisam de ser reproduzidos antes de poderem fundamentar uma alteração das recomendações clínicas.
O futuro da prevenção personalizada
Uma das questões mais interessantes levantadas por esta investigação é a possibilidade de a prevenção da demência se tornar mais personalizada.
Em vez de assumir que determinado medicamento produz exatamente o mesmo efeito em todas as pessoas, a medicina de precisão procura identificar características biológicas que possam explicar diferenças na resposta aos tratamentos.
Neste caso, os investigadores encontraram um possível marcador relacionado com a genética da contagem de plaquetas. Se os resultados forem confirmados, esta informação poderá contribuir para compreender melhor a relação entre plaquetas, circulação sanguínea, envelhecimento cerebral e demência.
No entanto, ainda seria necessário determinar de que forma essa informação genética poderia ser utilizada na prática clínica e se os benefícios ultrapassariam os riscos. Também seria necessário estabelecer métodos fiáveis para identificar as pessoas que poderiam eventualmente beneficiar.
O que podemos retirar deste estudo?
Esta investigação não demonstra que a aspirina seja um tratamento para a demência nem estabelece uma recomendação para a sua utilização na prevenção da doença. O que mostra é que poderá existir uma diferença na resposta à aspirina associada a determinadas características genéticas relacionadas com as plaquetas.
O resultado é relevante porque o mesmo medicamento pode ter efeitos diferentes em grupos de pessoas biologicamente distintos. A identificação dessas diferenças poderá abrir novas possibilidades para a investigação da prevenção personalizada da demência.
Por enquanto, são necessários novos estudos para confirmar estes resultados. Até existir essa confirmação, a utilização de aspirina deve continuar a ser decidida individualmente, tendo em conta as indicações clínicas e o risco de hemorragia.