Quando ouvimos falar de um produto natural que pode “reforçar o sistema imunitário”, é fácil pensar que mais activação imunitária será sempre melhor.
Mas o sistema imunitário é bastante mais complexo do que isso.
Uma resposta imunitária pode ser útil numa determinada situação e prejudicial noutra. E quando falamos de cancro, esta questão torna-se ainda mais importante, porque alguns tratamentos procuram precisamente modificar o funcionamento do sistema imunitário para que este reconheça e ataque as células tumorais.
Um estudo publicado em 2026 na Frontiers in Immunology chamou a atenção para este problema ao investigar a combinação entre polissacáridos de astrágalo e imunoterapia anti-PD-1 num modelo experimental de melanoma.
O resultado foi inesperado: neste modelo animal, o astrágalo pareceu reduzir a eficácia da imunoterapia anti-PD-1.
É um resultado interessante, mas precisa de ser interpretado com muito cuidado. O estudo foi realizado em ratinhos e não demonstra que tomar astrágalo tenha o mesmo efeito em pessoas submetidas a imunoterapia.
O que é o astrágalo?
O Astragalus membranaceus é uma planta utilizada tradicionalmente na medicina chinesa e da qual podem ser obtidos diferentes compostos, incluindo polissacáridos de astrágalo.
Estes compostos têm sido investigados devido aos seus possíveis efeitos sobre o sistema imunitário e sobre diferentes processos relacionados com inflamação e cancro.
É precisamente aqui que aparece uma questão que considero muito importante quando falamos de suplementos:
“Se uma substância estimula ou modifica o sistema imunitário, isso significa automaticamente que é benéfica?”
A resposta é não.
O efeito de uma substância depende do contexto biológico, da dose, da doença, dos restantes tratamentos e, sobretudo, daquilo que estamos a tentar modificar.
O que é a imunoterapia anti-PD-1?
Alguns tumores conseguem evitar ou diminuir a resposta do sistema imunitário através de mecanismos que funcionam como “travões” sobre as células de defesa.
Uma dessas vias envolve a proteína PD-1, presente em determinadas células imunitárias, especialmente nos linfócitos T.
Os chamados inibidores de checkpoint imunitário, incluindo os tratamentos anti-PD-1, procuram bloquear esse travão e permitir que a resposta imunitária contra o tumor seja mais eficaz.
No melanoma avançado, este tipo de imunoterapia modificou profundamente o tratamento da doença. No entanto, nem todos os doentes respondem da mesma forma e pode existir resistência ao tratamento.
É por isso que compreender o microambiente tumoral e os mecanismos que aumentam ou diminuem a eficácia da imunoterapia é uma área importante de investigação.
O que aconteceu no estudo?
Os investigadores utilizaram um modelo de melanoma em ratinhos e compararam diferentes grupos de tratamento.
Como esperado, o tratamento anti-PD-1 isolado reduziu o crescimento tumoral neste modelo.
No entanto, quando os polissacáridos de astrágalo foram associados ao anti-PD-1, os tumores apresentaram maior volume do que no grupo que recebeu apenas a imunoterapia.
Os investigadores observaram também alterações no microambiente do tumor.
A combinação com astrágalo reduziu a infiltração de determinadas células imunitárias, incluindo linfócitos T CD4+, linfócitos T CD8+ e células dendríticas, que tinham aumentado com o tratamento anti-PD-1 isolado.
Ou seja, neste modelo experimental, a presença dos polissacáridos de astrágalo pareceu interferir com algumas das alterações imunitárias associadas à resposta ao anti-PD-1.
JAK-STAT1, CIITA e NF-κB
O estudo procurou também perceber os mecanismos envolvidos.
Uma das vias identificadas foi a JAK-STAT1, uma importante via de sinalização celular que participa na comunicação entre determinadas moléculas inflamatórias e as células.
Os investigadores observaram que os polissacáridos de astrágalo inibiram a sinalização JAK-STAT1 e diminuíram a expressão de CIITA, um regulador fundamental da expressão das moléculas MHC de classe II.
Estas moléculas estão relacionadas com a apresentação de antigénios e com a comunicação entre células do sistema imunitário.
Foi também observada uma redução da sinalização através dos receptores Toll-like (TLR) e da actividade associada à via NF-κB.
Não é necessário decorar estas siglas para perceber a mensagem principal: o sistema imunitário funciona através de uma enorme rede de sinais. Alterar uma dessas vias pode modificar a resposta global de formas que nem sempre são previsíveis.
Um suplemento natural não é necessariamente neutro
É aqui que este estudo levanta uma questão muito mais abrangente.
Existe uma tendência para considerar que um produto natural é automaticamente seguro porque “vem de uma planta”.
Mas natural não significa biologicamente inactivo.
Uma substância que interfere com o metabolismo, inflamação, coagulação ou sistema imunitário pode potencialmente interagir com medicamentos ou tratamentos específicos.
Isto não significa que o astrágalo seja necessariamente prejudicial para a população em geral. Significa que não devemos extrapolar resultados de suplementos para contextos clínicos específicos sem estudar as interacções.
Neste caso, a preocupação levantada pelo estudo é especialmente relevante para pessoas submetidas a imunoterapia contra o cancro.
É importante não exagerar o resultado
Há uma frase que considero essencial neste artigo:
Este estudo não demonstra que o astrágalo prejudique a imunoterapia em seres humanos.
Os investigadores trabalharam com um modelo de melanoma em ratinhos, utilizaram polissacáridos de astrágalo em condições experimentais e estudaram mecanismos celulares específicos.
Os resultados são suficientemente interessantes para justificar investigação adicional, mas ainda não permitem transformar este resultado pré-clínico numa recomendação clínica geral.
É exactamente aqui que devemos distinguir entre hipótese científica e conclusão clínica.
E onde entra o exercício?
O exercício também modifica o sistema imunitário.
A actividade física influencia inflamação, metabolismo, circulação, função muscular e diferentes componentes da resposta imunitária.
Mas isso não significa que devamos procurar simplesmente “estimular mais” o sistema imunitário através de exercício intenso.
O objectivo do treino é criar uma adaptação adequada ao organismo.
É uma lógica semelhante à que aplico ao treino em geral: mais estímulo não significa automaticamente melhor resultado.
Uma sessão de exercício precisa de ser interpretada dentro do contexto da pessoa, do seu nível de treino, da recuperação, do sono, da alimentação, da idade e dos objectivos.
Quando existe uma doença ou um tratamento médico específico, esta individualização torna-se ainda mais importante.
O que este estudo nos ensina?
Para mim, a principal mensagem não é “não tome astrágalo”. Seria uma conclusão que o estudo não permite fazer.
A mensagem é outra: quando existe um tratamento médico complexo, não devemos assumir que todos os suplementos são biologicamente neutros ou que combinar várias estratégias é necessariamente melhor.
A imunologia é extremamente complexa. Uma substância pode ter efeitos considerados benéficos num determinado contexto e, simultaneamente, interferir com outro mecanismo terapêutico.
Por isso, uma pessoa que esteja a realizar imunoterapia ou outro tratamento oncológico deve discutir a utilização de suplementos com a equipa médica que acompanha o tratamento.
Conclusão
O estudo publicado em 2026 na Frontiers in Immunology apresenta um resultado inesperado: num modelo experimental de melanoma em ratinhos, os polissacáridos de astrágalo reduziram a eficácia do tratamento anti-PD-1 e alteraram várias vias relacionadas com a resposta imunitária.
O trabalho ajuda-nos a compreender melhor a complexidade da imunoterapia e mostra porque razão a expressão “reforçar o sistema imunitário” é demasiado simplista.
O sistema imunitário não funciona como um interruptor que devemos simplesmente ligar ao máximo.
Funciona como uma rede extremamente complexa, na qual o equilíbrio, o contexto e a interacção entre diferentes sinais podem ser determinantes.
E talvez esta seja a principal lição que podemos retirar: antes de acrescentarmos mais uma substância, mais um suplemento ou mais um estímulo, precisamos de perceber o que estamos realmente a tentar modificar.
Posso ajudar
Posso ajudar a adaptar o exercício ao estado físico, objectivos e capacidade de recuperação, respeitando limitações e tratamentos médicos sem substituir o acompanhamento clínico.
Referências
- Wang R, et al. Astragalus polysaccharide antagonized anti PD-1 efficacy in melanoma through inhibiting JAK-STAT1/CIITA and TLR/NF-κB signaling. Frontiers in Immunology. 2026.
- DOI: 10.3389/fimmu.2026.1947786
- Duan T, et al. Toll-like receptor signaling and its role in cell-mediated immunity. Frontiers in Immunology. 2022.
- Riemann D, et al. The European Insomnia Guideline: an update on the diagnosis and treatment of insomnia. 2023.