Beber chá ou café muito quente pode aumentar o risco de cancro do esófago?

Beber chá ou café muito quente pode aumentar o risco de cancro do esófago? September 14, 2026Leave a comment

Beber chá ou café muito quente pode aumentar o risco de cancro do esófago? Um novo estudo publicado em setembro de 2026 encontrou uma associação entre o consumo de bebidas muito quentes e um tipo específico de cancro do esófago.

A investigação, publicada em 9 de setembro de 2026 no International Journal of Cancer, analisou dados de quase 1 milhão de adultos no Reino Unido e procurou perceber se a temperatura e a quantidade de bebidas quentes consumidas estavam relacionadas com o risco de desenvolver cancro do esófago. (The Guardian)

Os resultados são interessantes porque sugerem que o problema pode não estar propriamente no café ou no chá, mas na temperatura elevada da bebida.

O que descobriu o novo estudo?

Os investigadores analisaram dados de 977.282 participantes, provenientes de duas grandes populações britânicas: o Million Women Study e o UK Biobank.

Durante o período de acompanhamento, foram identificados casos de diferentes tipos de cancro do esófago.

O resultado mais importante foi observado no carcinoma espinocelular do esófago, também conhecido pela sigla SCC ou ESCC.

As pessoas que referiam beber as suas bebidas a temperaturas muito elevadas apresentaram um risco significativamente superior deste tipo de cancro quando comparadas com aquelas que preferiam as bebidas mais mornas. (The Guardian)

Nos participantes que diziam preferir bebidas “muito quentes”, o risco de carcinoma espinocelular do esófago foi aproximadamente três vezes superior ao observado entre aqueles que preferiam bebidas mornas.

É uma diferença relevante.

Mas existe uma questão fundamental: isto não significa que beber uma chávena de café quente vá provocar cancro.

O estudo encontrou uma associação entre hábitos de consumo e risco ao longo do tempo.

O problema pode estar na temperatura, não no café ou no chá

Esta é provavelmente a mensagem mais importante da investigação.

Os resultados não mostraram que beber café ou chá, por si só, aumentasse o risco de carcinoma espinocelular do esófago.

A associação estava relacionada principalmente com a temperatura da bebida.

Isto é importante porque café e chá podem fazer parte de uma alimentação saudável.

O problema potencial surge quando a bebida é consumida numa temperatura suficientemente elevada para provocar agressão térmica repetida no revestimento do esófago. (Cancer Research UK – Cancer News)

Portanto, não parece ser necessário concluir que devemos deixar de beber café ou chá.

Uma medida muito mais simples poderá ser deixar a bebida arrefecer antes de a beber.

O que acontece quando bebemos uma bebida demasiado quente?

O esófago é um tubo muscular que transporta os alimentos e líquidos desde a boca até ao estômago.

Quando ingerimos uma bebida extremamente quente, o calor entra em contacto diretamente com as células que revestem o esófago.

Uma hipótese é que exposições repetidas a temperaturas muito elevadas possam provocar pequenas lesões, inflamação e alterações celulares.

Ao longo de muitos anos, estas agressões repetidas poderão contribuir para um ambiente favorável ao desenvolvimento de alterações cancerígenas.

Este mecanismo ainda está a ser estudado, mas existem evidências anteriores que apontam para uma relação entre bebidas muito quentes e carcinoma espinocelular do esófago. (Cancer Research UK – Cancer News)

O que significa “muito quente”?

Esta é uma das dificuldades deste tipo de investigação.

Os participantes não tiveram as temperaturas das bebidas medidas diretamente durante todos os anos do estudo.

Os investigadores basearam-se na temperatura que as pessoas diziam preferir: fria ou morna, quente ou muito quente.

Por isso, não podemos afirmar que existe uma temperatura exata a partir da qual cada chá ou café se torna perigoso.

A Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro, IARC, classificou anteriormente o consumo de bebidas muito quentes, acima dos 65 ºC, como “provavelmente carcinogénico para os seres humanos”. (Cancer Research UK – Cancer News)

No entanto, é importante perceber que esta classificação diz respeito ao consumo habitual de bebidas muito quentes, e não significa que qualquer bebida acima de 65 ºC vá provocar cancro.

E se bebermos muitas bebidas quentes por dia?

A temperatura não foi o único fator analisado.

A quantidade de bebidas consumidas também pareceu ter importância.

Os participantes que consumiam seis ou mais bebidas quentes por dia apresentaram um risco cerca de 71% superior de carcinoma espinocelular do esófago relativamente aos participantes que consumiam menos bebidas. (The Guardian)

Este resultado é particularmente interessante porque sugere que podem existir dois fatores envolvidos:

temperatura + frequência de exposição.

Mesmo assim, devemos evitar interpretar estes números como uma relação simples de causa e efeito.

Uma pessoa que bebe seis cafés ou chás diariamente pode apresentar outros hábitos ou características diferentes de uma pessoa que bebe apenas uma bebida por dia.

É precisamente por isso que os estudos observacionais precisam de ser interpretados com cautela.

Existem dois principais tipos de cancro do esófago

O cancro do esófago não é uma doença única.

Os dois principais tipos são:

  • carcinoma espinocelular do esófago;
  • adenocarcinoma do esófago.

O novo estudo encontrou uma associação entre bebidas quentes e o primeiro tipo.

Não encontrou a mesma associação para o adenocarcinoma do esófago. (The Guardian)

Esta distinção é muito importante.

Quando se diz simplesmente que “bebidas quentes aumentam o risco de cancro do esófago”, pode parecer que todos os cancros do esófago são afetados da mesma forma.

Os dados atuais não permitem afirmar isso.

Porque é que este estudo é importante?

Já existiam estudos realizados noutras regiões do mundo que tinham associado o consumo de bebidas muito quentes ao carcinoma espinocelular do esófago.

Um exemplo frequentemente estudado é o consumo de mate muito quente em algumas populações da América do Sul.

O que torna esta nova investigação particularmente interessante é o facto de demonstrar uma associação semelhante numa população ocidental de grande dimensão, onde o consumo de chá e café é muito comum.

Segundo os investigadores, trata-se do maior estudo deste género realizado até agora. (The Guardian)

Devemos deixar de beber café ou chá?

Não é essa a conclusão do estudo.

A evidência não sugere que seja necessário abandonar o café ou o chá.

Aliás, o próprio Cancer Research UK salienta que a associação observada está relacionada com a temperatura da bebida, e não especificamente com o facto de ser chá ou café. (Cancer Research UK – Cancer News)

Uma alteração comportamental muito simples pode ser suficiente:

esperar alguns minutos antes de beber.

Em vez de beber imediatamente uma bebida acabada de preparar, podemos permitir que arrefeça até uma temperatura confortável.

Também é importante não confundir uma bebida quente com uma bebida extremamente quente.

Uma chávena que podemos beber confortavelmente é muito diferente de uma bebida que queima a boca ou obriga a esperar entre pequenos goles.

E acrescentar leite?

Adicionar leite pode diminuir a temperatura da bebida, dependendo da quantidade e da temperatura do leite.

Mas o principal objetivo não deve ser encontrar um ingrediente “protetor”.

O mais simples é controlar a temperatura final da bebida.

Se o chá ou café está demasiado quente para beber confortavelmente, provavelmente vale a pena esperar.

Outros fatores de risco continuam a ser mais importantes

É importante colocar esta descoberta no contexto global do cancro do esófago.

O tabagismo e o consumo de álcool são fatores de risco importantes para carcinoma espinocelular do esófago.

Outros fatores também podem contribuir para diferentes tipos de cancro do esófago, incluindo excesso de peso, refluxo gastroesofágico e determinadas alterações do esófago.

Por isso, não devemos transformar a temperatura do café na principal preocupação relacionada com este cancro.

Na população britânica, o risco absoluto de desenvolver carcinoma espinocelular do esófago continua relativamente baixo. O Cancer Research UK estima um risco de aproximadamente 1% ao longo da vida para este tipo específico de cancro. (Cancer Research UK – Cancer News)

Uma duplicação ou triplicação de um risco pequeno não significa que a maioria das pessoas que bebe café quente vá desenvolver cancro.

O que podemos fazer para reduzir o risco?

Não existe uma estratégia que elimine completamente o risco de cancro.

Mas algumas medidas têm evidência muito mais sólida do que outras.

Não fumar é uma das decisões mais importantes.

Evitar o consumo excessivo de álcool também é relevante.

Manter um peso corporal saudável, praticar atividade física regularmente e ter uma alimentação equilibrada fazem parte de uma estratégia global de prevenção de doenças crónicas e de alguns tipos de cancro.

E, perante os resultados deste novo estudo, podemos acrescentar uma medida extremamente simples:

evitar beber regularmente líquidos a temperaturas muito elevadas.

Não exige uma mudança radical na alimentação.

Pode simplesmente significar esperar alguns minutos.

Um hábito simples que pode fazer sentido

Imagine alguém que bebe três cafés ou chás diariamente.

Não precisa necessariamente de eliminar essas bebidas.

Pode preparar a bebida normalmente, esperar alguns minutos e beber quando estiver confortável.

É uma alteração pequena.

E esta pode ser uma das mensagens mais interessantes da investigação: algumas estratégias de prevenção não exigem grandes mudanças na nossa rotina.

Podem resultar de pequenas alterações repetidas durante muitos anos.

O estudo prova que bebidas muito quentes causam cancro?

Não.

Esta distinção é essencial.

O estudo é observacional. Os investigadores analisaram hábitos de consumo e posteriormente observaram a ocorrência de cancro.

Este tipo de investigação consegue identificar associações, mas não consegue demonstrar definitivamente que a temperatura das bebidas seja a causa direta dos casos observados.

Além disso, a temperatura foi baseada na preferência relatada pelos participantes e não em medições contínuas da temperatura real de cada bebida.

Os próprios investigadores reconhecem esta limitação. (Cancer Research UK – Cancer News)

Ainda assim, quando um novo estudo de grande dimensão encontra resultados semelhantes aos de investigações anteriores e existe uma explicação biológica plausível para o efeito, a informação torna-se relevante.

A mensagem prática

O estudo mais recente, publicado em 9 de setembro de 2026, reforça uma ideia que já vinha sendo investigada: beber regularmente bebidas extremamente quentes pode estar associado a maior risco de carcinoma espinocelular do esófago. (Cancer Research UK – Cancer News)

Mas a mensagem não deve ser:

“Café provoca cancro.”

Nem:

“É preciso deixar de beber chá.”

A mensagem mais correta é:

“A temperatura da bebida pode ser mais importante do que a própria bebida.”

Se gosta de café ou chá, pode continuar a consumi-los, mas evite beber quando estão extremamente quentes.

Deixar arrefecer durante alguns minutos é uma estratégia simples, barata e fácil de incorporar no dia a dia.

E, quando pensamos em prevenção do cancro, vale a pena olhar para o conjunto dos comportamentos: não fumar, moderar o álcool, manter um peso saudável, praticar exercício e ter uma alimentação equilibrada continuam a ser componentes muito mais abrangentes de uma estratégia de saúde a longo prazo.

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