Um novo estudo sugere que homens e mulheres podem apresentar associações diferentes entre determinados vegetais e a saúde cardiometabólica. Entre os jovens analisados, o consumo de leguminosas destacou-se nos homens, enquanto os vegetais crucíferos, como brócolos e couve-flor, apresentaram uma associação particularmente interessante nas mulheres.
Será que aquilo que colocamos no prato pode ter efeitos diferentes dependendo do sexo?
A pergunta parece simples, mas a resposta pode ser mais complexa do que imaginamos.
Uma investigação publicada em agosto de 2026 na revista Nutrition, Metabolism and Cardiovascular Diseases analisou dados de 638 jovens adultos, com cerca de 22 anos, participantes do Raine Study, na Austrália. Os investigadores procuraram perceber se diferentes grupos de vegetais estavam associados a indicadores de risco cardiometabólico e encontraram diferenças entre homens e mulheres. (ScienceDirect)
Brócolos e outros vegetais crucíferos destacaram-se nas mulheres
Entre as mulheres, um maior consumo de vegetais crucíferos esteve associado a menor probabilidade de apresentar um conjunto de fatores relacionados com risco cardiometabólico.
Este grupo inclui alimentos como:
- Brócolos
- Couve-flor
- Couve
- Couves-de-Bruxelas
- Outros vegetais da família das crucíferas
Depois de ajustarem os resultados para fatores sociodemográficos, estilo de vida e alimentação, o consumo de crucíferas continuou associado a menor probabilidade de apresentar elevado risco cardiometabólico nas mulheres. (ScienceDirect)
Os brócolos, portanto, aparecem como um dos alimentos mais interessantes dentro deste grupo.
Mas é importante não transformar o resultado numa conclusão exagerada: o estudo não demonstrou que comer brócolos previne doenças nas mulheres.
Encontrou uma associação.
E nos homens? O feijão ganhou destaque
Nos homens, a associação mais forte apareceu com as leguminosas.
O grupo inclui:
- Feijão
- Lentilhas
- Ervilhas
- Soja
- Feijão-verde e outras leguminosas
Os homens que consumiam mais leguminosas apresentavam menor probabilidade de pertencer ao grupo com maior risco cardiometabólico.
Após os ajustes realizados pelos investigadores, a associação manteve-se estatisticamente significativa. (ScienceDirect)
Foi daqui que surgiu o título curioso que acompanhou a divulgação do estudo:
“Feijão para os homens, brócolos para as mulheres.”
A própria Edith Cowan University, responsável pela investigação, destacou esta diferença entre os sexos na comunicação dos resultados. (ECU)
Mas porque poderiam existir estas diferenças?
É uma das questões mais interessantes levantadas pelo trabalho.
Homens e mulheres apresentam diferenças fisiológicas, hormonais, metabólicas e na distribuição da gordura corporal. Também podem existir diferenças na forma como determinados nutrientes e compostos presentes nos alimentos são metabolizados.
Os vegetais crucíferos, por exemplo, fornecem fibras, vitaminas, minerais e compostos bioativos, incluindo glucosinolatos, que podem originar moléculas biologicamente ativas durante a digestão.
As leguminosas, por outro lado, são particularmente interessantes pela combinação de fibra, proteína vegetal, minerais e baixo índice glicémico, dependendo do alimento e da preparação.
No entanto, o estudo não conseguiu demonstrar que estas diferenças biológicas sejam a causa dos resultados encontrados.
Um detalhe muito importante: não foi um ensaio clínico
Aqui está uma das principais limitações da investigação.
O trabalho foi transversal.
Ou seja, os investigadores analisaram a alimentação e determinados indicadores de saúde num determinado momento.
Isto permite encontrar associações, mas não permite afirmar que:
“comer mais brócolos fez com que estas mulheres tivessem menor risco cardiometabólico”
ou
“comer feijão protegeu estes homens.”
Pode existir uma relação causal, mas também podem existir outros fatores envolvidos.
Por exemplo, uma pessoa que come regularmente leguminosas pode apresentar simultaneamente uma alimentação globalmente mais saudável, praticar mais atividade física ou consumir menos alimentos ultraprocessados.
Mesmo com os ajustes estatísticos realizados pelos investigadores, não é possível eliminar completamente todas estas possibilidades.
Os próprios autores defendem que são necessários estudos longitudinais e ensaios de intervenção para confirmar estas associações. (Medical Xpress)
O que significa “risco cardiometabólico”?
Neste estudo, os investigadores utilizaram vários indicadores relacionados com a saúde metabólica e cardiovascular, incluindo fatores como:
pressão arterial, perímetro da cintura, glicemia, triglicéridos e colesterol HDL. (New Atlas)
Quando vários destes parâmetros começam a apresentar alterações simultaneamente, pode existir um perfil cardiometabólico menos favorável.
É precisamente por isso que a alimentação tem tanto interesse na prevenção.
Não se trata apenas de controlar o peso.
A qualidade da alimentação pode influenciar simultaneamente a glicemia, pressão arterial, perfil lipídico, ingestão de fibra e saúde metabólica.
Então as mulheres devem comer brócolos e os homens feijão?
Não é essa a conclusão.
Os resultados não significam que as mulheres devam comer brócolos enquanto os homens devem abandonar os brócolos e comer apenas feijão.
Na realidade, ambos os alimentos podem fazer parte de uma alimentação saudável para homens e mulheres.
O mais interessante neste estudo é outra coisa:
poderá existir uma resposta diferente a determinados padrões alimentares entre homens e mulheres.
Esta possibilidade merece ser estudada porque grande parte das recomendações nutricionais é construída para a população em geral, sem necessariamente considerar diferenças biológicas entre os sexos.
O melhor cenário continua a ser variar
Uma alimentação saudável não precisa de escolher entre brócolos e feijão.
Pode incluir os dois.
Brócolos ao almoço.
Feijão numa sopa ou salada.
Lentilhas noutro dia.
Couve-flor, couve-de-Bruxelas ou outros vegetais crucíferos.
E uma grande variedade de frutas, vegetais, leguminosas, cereais integrais, frutos secos, peixe e outras fontes de proteína.
Aliás, os resultados deste estudo devem ser interpretados dentro de um princípio muito mais amplo:
quanto maior a variedade de alimentos nutricionalmente densos, mais fácil será obter diferentes fibras, vitaminas, minerais e compostos bioativos.
A mensagem mais interessante do estudo
Este trabalho não descobriu uma “dieta feminina” e uma “dieta masculina”.
Descobriu algo potencialmente mais interessante: a relação entre alimentação e saúde pode ser influenciada pelo sexo e pode não ser exatamente igual para toda a população.
Nos jovens analisados, as leguminosas estiveram particularmente associadas a um perfil cardiometabólico mais favorável nos homens, enquanto os vegetais crucíferos apresentaram essa associação nas mulheres. (ScienceDirect)
É uma hipótese que merece investigação.
Até lá, não precisamos de escolher.
Comer brócolos e feijão pode ser uma excelente combinação — independentemente de ser homem ou mulher.
Referências
Artigo científico original – Nutrition, Metabolism and Cardiovascular Diseases:
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0939475326001717
Nutrition, Metabolism and Cardiovascular Diseases – artigo em acesso aberto:
https://www.nmcd-journal.com/article/S0939-4753%2826%2900171-7/fulltext
Edith Cowan University – Beans for Blokes, Broccoli for Women:
https://www.ecu.edu.au/newsroom/articles/research/beans-for-blokes-broccoli-for-women-which-veggies-protect-young-hearts
Medical Xpress – Beans for blokes, broccoli for women:
https://medicalxpress.com/news/2026-07-beans-blokes-broccoli-women-veggies.html
DOI do estudo:
https://doi.org/10.1016/j.numecd.2026.104709