Cerveja aumenta o “bom” colesterol. E a cerveja sem álcool?

Cerveja aumenta o “bom” colesterol. E a cerveja sem álcool? August 21, 2026Leave a comment

A relação entre cerveja, álcool e colesterol é mais complexa do que parece. Um estudo recente voltou a encontrar uma associação entre o consumo de álcool e níveis mais elevados de colesterol HDL, tradicionalmente conhecido como “bom colesterol”.

Mas surge uma pergunta interessante: se parte deste efeito estiver relacionada com o álcool, será que a cerveja sem álcool oferece os mesmos benefícios?

A resposta atual é: não sabemos, e provavelmente não devemos esperar exatamente o mesmo efeito.

O que mostrou o estudo recente?

Um estudo publicado recentemente analisou 18.614 adultos, procurando perceber a relação entre o consumo de álcool e diferentes características do perfil lipídico.

Os investigadores encontraram uma associação entre maior consumo de álcool e níveis mais elevados de HDL.

Por cada aumento de 1 g de álcool por dia, o HDL aumentou, em média, cerca de 0,005 mmol/L, aproximadamente 0,19 mg/dL.

O estudo também encontrou diferenças relacionadas com a frequência do consumo, sugerindo que o padrão de ingestão pode ser relevante.

À primeira vista, isto parece uma boa notícia para quem bebe cerveja.

Mas é necessário ter cuidado.

HDL mais elevado não significa automaticamente coração mais saudável

Durante muitos anos, aprendemos uma regra simples:

LDL = mau colesterol
HDL = bom colesterol

Embora esta distinção continue a ser útil para explicar alguns conceitos, a investigação cardiovascular tornou-se muito mais sofisticada.

Ter HDL elevado não significa necessariamente estar protegido contra enfarte ou AVC.

O HDL participa no transporte reverso do colesterol e possui várias funções metabólicas e anti-inflamatórias. Por isso, a quantidade de HDL no sangue é apenas uma parte da história.

Consequentemente, não podemos concluir que aumentar o HDL através do consumo de álcool seja uma estratégia para melhorar a saúde cardiovascular.

E muito menos recomendar que alguém comece a beber cerveja para aumentar o HDL.

E a cerveja sem álcool?

Aqui começa uma questão particularmente interessante.

A cerveja sem álcool não é simplesmente “água com sabor a cerveja”.

Dependendo do processo de produção, pode manter vários dos compostos presentes na cerveja tradicional, nomeadamente polifenóis provenientes do malte e do lúpulo.

Estes compostos têm propriedades antioxidantes e podem influenciar diferentes mecanismos relacionados com a saúde cardiovascular.

Por isso, alguns investigadores têm estudado se a cerveja sem álcool poderá proporcionar determinados efeitos potencialmente benéficos sem a exposição ao álcool.

Mas existe uma diferença fundamental.

O efeito no HDL pode não ser o mesmo

Se o aumento do HDL observado no estudo estiver relacionado, pelo menos parcialmente, com o álcool, então seria perfeitamente possível que uma cerveja sem álcool não produzisse o mesmo aumento do HDL.

E é precisamente isso que alguns estudos começam a sugerir.

Um estudo recente que avaliou o consumo diário de cerveja sem álcool durante quatro semanas em homens saudáveis não encontrou alterações significativas no HDL.

Ou seja:

cerveja com álcool → pode aumentar o HDL
cerveja sem álcool → não está demonstrado que aumente o HDL da mesma forma

Isto não significa que a cerveja sem álcool seja “pior”.

Significa apenas que estamos provavelmente perante mecanismos diferentes.

Então, para que podem servir os componentes da cerveja sem álcool?

A cerveja sem álcool pode fornecer alguns dos compostos bioativos encontrados na cerveja, particularmente polifenóis.

Alguns estudos experimentais sugerem possíveis efeitos sobre:

  • stress oxidativo;
  • inflamação;
  • função vascular;
  • metabolismo lipídico;
  • microbiota intestinal.

No entanto, estes resultados ainda não permitem afirmar que beber cerveja sem álcool previna doenças cardiovasculares.

É importante distinguir entre encontrar alterações favoráveis em determinados marcadores e demonstrar uma redução efetiva de enfartes, AVC ou mortalidade.

Uma diferença importante: álcool versus cerveja

Este tema mostra-nos algo interessante.

Quando encontramos um possível efeito associado à cerveja, temos de perguntar:

é provocado pelo álcool ou pelos restantes componentes da bebida?

A cerveja tradicional contém ambos.

A cerveja sem álcool permite estudar melhor esta questão porque mantém muitos dos componentes da bebida, mas reduz drasticamente a exposição ao álcool.

Assim, comparar as duas pode ajudar os investigadores a perceber quais são os efeitos realmente atribuíveis ao álcool e quais poderão resultar de outros componentes da cerveja.

Devemos beber cerveja para aumentar o HDL?

Não.

Mesmo que a cerveja com álcool aumente o HDL, isso não significa que seja uma estratégia recomendável para melhorar a saúde cardiovascular.

O álcool apresenta riscos que não desaparecem simplesmente porque determinado marcador sanguíneo melhora.

Por outro lado, para quem aprecia o sabor da cerveja e pretende evitar ou reduzir o álcool, a cerveja sem álcool pode ser uma alternativa interessante.

Mas também aqui convém evitar exageros: não devemos transformar a cerveja sem álcool num “alimento cardioprotetor” sem evidência suficiente para isso.

E qual escolher?

Se a pergunta for exclusivamente:

“Qual é melhor para a saúde: cerveja com álcool ou cerveja sem álcool?”

A resposta não deve basear-se apenas no HDL.

A cerveja sem álcool permite desfrutar de uma bebida semelhante sem os efeitos e riscos associados à ingestão de álcool, embora a composição nutricional varie bastante entre marcas.

Por isso, se o objetivo é reduzir a exposição ao álcool, a versão sem álcool pode ser uma alternativa lógica.

A verdadeira mensagem

O estudo recente é interessante porque mostra novamente uma associação entre consumo de álcool e aumento do HDL.

Mas isso não significa que “cerveja faz bem ao coração”.

E a cerveja sem álcool abre uma questão ainda mais interessante: serão os possíveis efeitos da cerveja provenientes do álcool ou dos seus compostos não alcoólicos?

A ciência ainda está a tentar responder.

Por enquanto, uma coisa parece clara:

não precisamos de beber álcool para tentar aumentar o HDL.

E quando pensamos em saúde cardiovascular, é muito mais importante olhar para o conjunto — LDL, pressão arterial, glicemia, triglicéridos, atividade física, alimentação, peso, tabaco, sono e risco cardiovascular global — do que tentar aumentar um único número numa análise.

 

Referências

  1. The impact of drinking patterns on the relationship between alcohol use and serum lipid profiles – PubMed
    https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42520947/ 
  2. Effects of non-alcoholic beer consumption on cardiovascular risk factors – PubMed
    https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40431365/
  3. Non-alcoholic beer and cardiovascular health: review of the evidence – PubMed Central
    https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9824297/