Um novo ensaio clínico randomizado sugere que comer tomate diariamente pode reduzir a quantidade de gordura acumulada no fígado em pessoas com doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica. O mais interessante é que o benefício apareceu sem perda significativa de peso.
O tomate é um dos alimentos mais característicos da alimentação mediterrânica.
Está presente em saladas, sopas, molhos, acompanhamentos e inúmeras receitas tradicionais.
É também uma fonte importante de licopeno, um carotenoide associado a propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias.
Mas será que comer tomate todos os dias pode ter efeitos mensuráveis no fígado?
Um novo estudo publicado em 30 de julho de 2026, na revista científica Nutrients, encontrou uma resposta surpreendente.
No ensaio POMOSANO, 79 adultos com MASLD foram distribuídos aleatoriamente para consumir tomate diariamente ou seguir uma alimentação sem tomate durante seis semanas.
O grupo que consumiu tomate apresentou uma redução significativamente maior de um marcador de esteatose hepática, ou gordura acumulada no fígado.
E há um detalhe particularmente interessante:
essa redução aconteceu sem uma diferença significativa no peso corporal. (PubMed Central (PMC))
O que é a MASLD?
A sigla MASLD significa doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica.
É uma doença caracterizada pela acumulação excessiva de gordura no fígado em pessoas que apresentam fatores de risco metabólicos.
Pode estar associada a:
- excesso de peso;
- obesidade abdominal;
- resistência à insulina;
- diabetes tipo 2;
- alterações do colesterol;
- hipertensão;
- síndrome metabólica.
Durante muito tempo, esta doença foi conhecida como NAFLD — doença hepática gordurosa não alcoólica.
A nova designação, MASLD, procura refletir melhor a relação entre a acumulação de gordura no fígado e os fatores de risco metabólicos.
A doença pode permanecer silenciosa durante muitos anos.
No entanto, em algumas pessoas, a acumulação de gordura pode evoluir para inflamação hepática, fibrose, cirrose e, em casos mais avançados, cancro do fígado.
Por isso, estratégias capazes de reduzir a gordura hepática são importantes.
O que fizeram os investigadores?
O estudo POMOSANO foi um ensaio clínico randomizado, uma característica importante porque permite comparar diretamente uma intervenção com um grupo de controlo.
Participaram 79 adultos com MASLD, com índice de massa corporal igual ou inferior a 30 kg/m².
Os participantes foram divididos em dois grupos:
Grupo do tomate: 42 pessoas.
Grupo de controlo: 37 pessoas.
Durante seis semanas, o grupo de intervenção consumiu diariamente:
200 g de tomate cru + 50 g de molho de tomate.
O grupo de controlo seguiu uma alimentação sem tomate durante o mesmo período.
Os participantes foram instruídos a manter o seu estilo de vida habitual. (PubMed Central (PMC))
A quantidade utilizada no estudo é relativamente concreta.
Não estamos a falar de uma pequena quantidade de tomate ocasionalmente.
Eram cerca de 250 g de produtos de tomate por dia.
O tomate reduziu a gordura no fígado?
Os investigadores avaliaram a esteatose hepática através do Controlled Attenuation Parameter (CAP), obtido por FibroScan.
O CAP é uma medida utilizada para estimar a quantidade de gordura acumulada no fígado.
Os dois grupos apresentaram alguma redução do CAP.
Mas a redução foi maior entre as pessoas que consumiram tomate.
No grupo de controlo, a alteração mediana foi de aproximadamente −18 dB/m.
No grupo do tomate, foi de aproximadamente −35 dB/m.
A diferença entre os grupos foi estatisticamente significativa.
Além disso, depois de os investigadores ajustarem a análise para idade, sexo e IMC, o efeito da intervenção continuou significativo. A interação entre tratamento e tempo apresentou p = 0,003. (PubMed Central (PMC))
É este resultado que torna o estudo particularmente interessante.
O mais surpreendente: sem emagrecer
Quando alguém ouve falar em redução da gordura no fígado, pode imediatamente pensar:
“Provavelmente perderam peso.”
Mas não foi isso que aconteceu.
Não foram encontradas diferenças significativas entre os grupos relativamente ao:
- peso corporal;
- IMC;
- perímetro da cintura;
- gordura corporal;
- gordura visceral estimada;
- composição corporal.
Ou seja, a redução da esteatose hepática observada no grupo que consumiu tomate não parece ter sido explicada simplesmente por uma maior perda de peso. (PubMed Central (PMC))
Esta é provavelmente a característica mais interessante do estudo.
Como poderia o tomate influenciar o fígado?
Os investigadores apontam para vários componentes presentes no tomate.
Um dos mais conhecidos é o licopeno.
O licopeno é um carotenoide responsável pela cor vermelha do tomate e apresenta atividade antioxidante.
Mas o tomate contém muito mais do que licopeno.
Também fornece:
- beta-caroteno;
- vitamina C;
- polifenóis;
- outros carotenoides;
- diferentes compostos bioativos.
A hipótese é que estes compostos possam influenciar mecanismos relacionados com o stress oxidativo, inflamação e metabolismo das gorduras no fígado.
Experiências anteriores sugerem que compostos derivados do tomate podem interferir em processos envolvidos na acumulação de gordura hepática.
Mas é importante fazer uma distinção:
o estudo não demonstrou que o licopeno isoladamente foi responsável pelo resultado.
Os participantes consumiram alimentos de tomate completos — tomate cru e molho — e não suplementos de licopeno.
Portanto, não podemos dizer que o benefício observado seja exclusivamente causado pelo licopeno.
Tomate cru ou molho de tomate?
Outro detalhe interessante do estudo é que os participantes não consumiram apenas tomate cru.
Receberam:
200 g de tomate cru
e
50 g de molho de tomate
todos os dias.
Esta combinação pode ser relevante porque a preparação do tomate pode alterar a disponibilidade de determinados compostos.
O licopeno, por exemplo, pode apresentar maior biodisponibilidade quando o tomate é processado e aquecido.
Além disso, a presença de gordura na refeição pode influenciar a absorção de carotenoides.
Isto não significa que o molho de tomate seja necessariamente superior ao tomate cru.
Significa apenas que diferentes formas de preparação podem fornecer diferentes perfis de biodisponibilidade dos compostos presentes no tomate.
O tomate faz emagrecer?
Não é isso que o estudo demonstrou.
Na realidade, esta é uma das mensagens que devemos evitar retirar do trabalho.
Os participantes não apresentaram uma perda de peso significativamente diferente entre os grupos.
Portanto, não devemos dizer:
“Comer tomate diariamente faz emagrecer.”
O resultado é outro:
“O consumo diário de tomate esteve associado a uma maior redução de um marcador de esteatose hepática, independentemente de alterações significativas no peso corporal.”
São afirmações muito diferentes.
E outros marcadores do fígado?
Aqui encontramos uma limitação importante.
Apesar da redução significativa do CAP, não foram observadas diferenças significativas entre os grupos na rigidez hepática ou no índice FIB-4.
Também não houve diferenças significativas na maioria dos marcadores bioquímicos e metabólicos analisados. (PubMed Central (PMC))
Isto significa que o estudo demonstrou sobretudo uma alteração na esteatose hepática estimada pelo CAP.
Não demonstrou que seis semanas de consumo de tomate revertam fibrose, cirrose ou lesão hepática avançada.
É fundamental não extrapolar os resultados.
Menos gordura no fígado significa fígado saudável?
Em princípio, reduzir a acumulação de gordura hepática é uma alteração favorável.
Mas a MASLD é uma doença complexa.
Existem diferentes fases e graus de gravidade.
Uma pessoa pode ter esteatose relativamente ligeira.
Outra pode apresentar inflamação significativa e fibrose.
Por isso, não podemos avaliar a saúde do fígado através de uma única medida.
O CAP fornece informação importante sobre a esteatose, mas não substitui uma avaliação clínica completa.
O estudo também teve apenas seis semanas de duração.
Ainda não sabemos se a redução observada se mantém durante seis meses, um ano ou vários anos.
Será que seis semanas são suficientes?
É uma pergunta legítima.
Seis semanas é um período relativamente curto para uma doença crónica.
Por outro lado, encontrar uma alteração mensurável nesse intervalo torna o resultado interessante.
Mostra que uma intervenção alimentar simples pode produzir alterações detectáveis num marcador de gordura hepática em poucas semanas.
Mas precisamos de estudos maiores e mais longos para perceber se esse efeito é consistente e clinicamente relevante.
Os próprios autores defendem a realização de estudos futuros com amostras maiores, acompanhamento mais prolongado e investigação dos mecanismos envolvidos. (PubMed Central (PMC))
O tomate pode fazer parte da prevenção da gordura no fígado?
Provavelmente pode.
Mas não devemos olhar para o tomate isoladamente.
A alimentação mediterrânica já é caracterizada por um consumo elevado de vegetais, fruta, leguminosas, azeite, cereais integrais e outros alimentos minimamente processados.
O tomate é apenas uma peça desse padrão alimentar.
E é precisamente por isso que este estudo é interessante.
Em vez de procurar sempre uma dieta completamente nova, a investigação começa também a perguntar:
“Quais são os alimentos individuais que podem contribuir para os benefícios de um padrão alimentar saudável?”
O tomate poderá ser um desses alimentos.
E o que acontece ao açúcar e aos alimentos ultraprocessados?
Não faria sentido adicionar 250 g de tomate à alimentação e manter uma dieta globalmente desfavorável esperando que o tomate neutralize os restantes problemas.
A alimentação continua a ser determinante.
Na MASLD, a qualidade global da dieta, peso corporal quando existe excesso de peso, atividade física e controlo dos fatores de risco metabólico são muito importantes.
Um prato com tomate, vegetais, leguminosas, peixe ou outra fonte adequada de proteína e azeite é muito diferente de uma alimentação baseada em bebidas açucaradas, doces, cereais refinados e alimentos ultraprocessados.
O tomate pode ser uma peça útil. Não é uma solução isolada.
É necessário comer 250 g de tomate por dia?
Não podemos afirmar isso.
A quantidade de 200 g de tomate cru + 50 g de molho foi a utilizada no estudo.
Isso não significa que 250 g seja a dose ideal para todas as pessoas.
Também não sabemos se 100 g produziria metade do efeito, se 300 g produziria um efeito maior ou se existe um ponto a partir do qual não existe benefício adicional.
O estudo não foi desenhado para responder a uma questão de dose-resposta.
Por isso, devemos evitar transformar a quantidade utilizada no ensaio numa recomendação médica universal.
O tomate pode substituir o tratamento?
Não.
Se uma pessoa tem MASLD diagnosticada, o consumo de tomate pode perfeitamente fazer parte de uma alimentação saudável, mas não deve substituir avaliação médica, controlo dos fatores de risco ou outras intervenções recomendadas.
A doença hepática metabólica pode estar associada a diabetes, obesidade, hipertensão, colesterol elevado e outros problemas.
O tratamento deve ser individualizado.
O que podemos retirar deste estudo?
A principal mensagem é bastante simples:
um alimento pode ter efeitos metabólicos potencialmente interessantes mesmo sem provocar perda de peso.
No POMOSANO, pessoas com MASLD que consumiram diariamente tomate cru e molho de tomate durante seis semanas apresentaram uma redução maior da esteatose hepática medida pelo CAP.
E essa diferença ocorreu sem alterações significativas no peso corporal ou na composição corporal. (PubMed Central (PMC))
É uma descoberta interessante porque mostra que os efeitos da alimentação podem ser mais complexos do que simplesmente:
comer melhor → perder peso → melhorar a saúde.
Pode existir também:
comer melhor → alterar diretamente determinados processos metabólicos → melhorar marcadores de saúde.
Ainda precisamos de confirmar esta hipótese.
Afinal, comer tomate todos os dias pode reduzir a gordura no fígado?
Pode ser uma estratégia promissora, mas ainda não podemos dizer que o tomate trata a MASLD.
O estudo POMOSANO é relativamente pequeno, teve apenas 79 participantes e durou seis semanas.
Ainda assim, é um ensaio clínico randomizado e encontrou uma diferença significativa entre os grupos.
O resultado merece atenção porque a redução da esteatose hepática aconteceu sem perda significativa de peso.
O próximo passo será perceber se estes resultados se mantêm em estudos maiores, durante períodos mais longos, e se a redução da gordura hepática se traduz em benefícios clínicos mais importantes.
Enquanto isso, existe uma conclusão muito simples que podemos retirar:
incluir tomate regularmente numa alimentação mediterrânica parece uma escolha nutricional interessante e de baixo custo.
Não é uma cura.
Não substitui o tratamento.
Mas pode ser mais uma razão para colocar este alimento frequentemente no prato.
E, neste caso, não é necessário emagrecer para que o fígado possa beneficiar.
Posso ajudar
Posso ajudar a organizar uma alimentação mediterrânica adequada para melhorar composição corporal, saúde metabólica e qualidade da alimentação, respeitando objetivos e necessidades individuais.
Nota importante
Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica ou nutricional. Pessoas com MASLD, diabetes, obesidade ou doença hepática diagnosticada devem manter acompanhamento profissional e não substituir tratamentos prescritos por alterações alimentares isoladas.
Referências e links
Nutrients — estudo POMOSANO, publicado em 30 de julho de 2026
É o ensaio clínico randomizado original que avaliou 79 adultos com MASLD durante seis semanas. O grupo de intervenção consumiu 200 g de tomate cru e 50 g de molho de tomate diariamente. Estudo POMOSANO — consumo de tomate e esteatose hepática (MDPI)
PubMed — POMOSANO Study
Registo bibliográfico do artigo científico publicado na revista Nutrients, incluindo autores, resumo, metodologia e principais resultados. PubMed — efeito do consumo de tomate na esteatose hepática (PubMed)
ClinicalTrials.gov — NCT06389851
Registo do ensaio clínico POMOSANO, incluindo informação sobre o desenho do estudo e intervenção alimentar utilizada. ClinicalTrials.gov — ensaio POMOSANO
Nutrients — artigo completo em acesso aberto
A publicação detalha os resultados relativos ao CAP, peso corporal, composição corporal, rigidez hepática, FIB-4 e marcadores metabólicos. Artigo completo do estudo POMOSANO (PubMed Central (PMC))