Correr pode provocar uma sensação de euforia? O que diz o novo estudo sobre o runner’s high

Correr pode provocar uma sensação de euforia? O que diz o novo estudo sobre o runner’s high September 14, 2026Leave a comment

Um novo estudo de 2026 mostra que a corrida prolongada aumenta substâncias produzidas pelo próprio organismo, associadas a alterações no humor, ansiedade e perceção da dor.

Já alguma vez terminou uma corrida e sentiu que, apesar do cansaço físico, estava mais tranquilo, bem-disposto ou mentalmente mais leve?

Este fenómeno é frequentemente designado por runner’s high, ou euforia associada à corrida.

Durante décadas, uma das explicações mais conhecidas para esta sensação esteve relacionada com as endorfinas. No entanto, a investigação científica dos últimos anos tem mostrado que existe outro sistema biológico que pode desempenhar um papel importante: o sistema endocanabinoide.

Um novo estudo publicado no BMC Medicine em 1 de setembro de 2026 analisou precisamente o que acontece a estas moléculas durante corridas de longa distância. (link.springer.com)

Os investigadores estudaram corredores durante uma maratona e, num segundo estudo, atletas que participaram em ultramaratonas de 100, 160 e 230 quilómetros.

Os resultados mostram alterações progressivas em moléculas endocanabinoides durante e depois da corrida, acompanhadas por alterações no humor, ansiedade e perceção da dor. (link.springer.com)

O que é o runner’s high?

O runner’s high é utilizado para descrever um conjunto de sensações que algumas pessoas experimentam durante ou depois de exercício de resistência.

Pode incluir:

  • sensação de euforia;
  • menor ansiedade;
  • sensação de tranquilidade;
  • redução da perceção da dor;
  • sensação de bem-estar;
  • maior energia;
  • sensação de flow ou envolvimento intenso na atividade.

Não significa que todos os corredores tenham esta experiência.

Também não existe uma definição única e objetiva do fenómeno.

É uma experiência subjetiva que pode variar bastante entre pessoas.

A investigação científica procura perceber quais os mecanismos fisiológicos que podem estar por detrás destas alterações.

E é aqui que entram os endocanabinoides.

O que são endocanabinoides?

Os endocanabinoides são moléculas produzidas naturalmente pelo organismo.

O prefixo “endo” significa precisamente isso: produzidos pelo próprio corpo.

São diferentes dos canabinoides presentes na planta da canábis, embora possam interagir com alguns dos mesmos recetores.

Entre os principais componentes estudados estão:

  • anandamida, ou AEA;
  • 2-araquidonoilglicerol, ou 2-AG;
  • outros lípidos relacionados, como a PEA.

A AEA e o 2-AG podem atuar principalmente através dos recetores canabinoides CB1 e CB2. A PEA tem mecanismos diferentes e atua sobretudo através de outros alvos, incluindo o PPAR-α. (link.springer.com)

Estas moléculas participam em processos relacionados com:

  • humor;
  • perceção da dor;
  • stress;
  • metabolismo;
  • função imunitária;
  • resposta ao exercício.

O sistema endocanabinoide é, portanto, muito mais abrangente do que a ideia popular associada à canábis.

O que fizeram os investigadores?

O estudo foi dividido em duas partes.

Estudo 1: maratona

Foram analisados 19 corredores experientes.

Cada participante realizou duas condições:

  1. uma maratona;
  2. uma sessão de caminhada com duração equivalente.

Durante a maratona foram recolhidas amostras de sangue em diferentes momentos, aproximadamente a cada 14 quilómetros.

Os investigadores fizeram medições no início, aos 14 km, aos 28 km, no final da maratona e depois de 45 minutos de recuperação. (link.springer.com)

Isto permitiu perceber não apenas se os endocanabinoides aumentavam, mas também quando aumentavam.

Essa dimensão temporal é particularmente interessante.

E o segundo estudo?

Na segunda investigação participaram 36 ultramaratonistas.

Os atletas participaram em provas de:

  • 100 km;
  • 160 km;
  • 230 km.

Foram recolhidas amostras de sangue antes e depois das respetivas provas. (link.springer.com)

Assim, os investigadores conseguiram comparar uma corrida de maratona com esforços de resistência extrema que podem durar muitas horas.

É uma das características que torna este trabalho interessante.

Grande parte da investigação anterior sobre endocanabinoides e exercício tinha estudado períodos de exercício relativamente curtos, frequentemente inferiores a uma hora.

Este estudo procurou perceber o que acontece durante esforços muito mais prolongados.

A anandamida aumentou progressivamente

Um dos principais resultados foi observado na anandamida (AEA).

Durante a maratona, os níveis de AEA aumentaram progressivamente ao longo da corrida.

E o mais interessante é que continuavam elevados depois de 45 minutos de recuperação. (link.springer.com)

Nos ultramaratonistas também foram observados níveis elevados de AEA depois das provas de 100, 160 e 230 km.

Isto sugere que a resposta do sistema endocanabinoide não é simplesmente um fenómeno instantâneo que aparece durante alguns minutos.

Pode manter-se durante algum tempo depois do exercício.

E o 2-AG?

O comportamento do 2-AG foi diferente.

Durante a maratona, os níveis aumentaram sobretudo nas fases mais avançadas da corrida e durante o início da recuperação.

Nas ultramaratonas, o aumento também foi observado depois da prova, sugerindo uma resposta mais tardia associada à recuperação. (link.springer.com)

Isto é importante porque mostra que o sistema endocanabinoide não responde como um simples interruptor.

Diferentes moléculas podem apresentar diferentes padrões temporais.

O organismo parece ajustar estas respostas ao momento e às características do esforço.

A corrida alterou o humor e a ansiedade

Os investigadores também avaliaram várias dimensões psicológicas.

Na maratona, correr esteve associado a:

  • maior euforia;
  • menor ansiedade;

quando comparado com a caminhada de duração equivalente. (link.springer.com)

Este resultado é particularmente interessante porque as alterações psicológicas ocorreram paralelamente às alterações nas concentrações de endocanabinoides.

Não significa que o estudo tenha demonstrado que a anandamida é a única responsável pela sensação de bem-estar.

Mas reforça a hipótese de que o sistema endocanabinoide participa no chamado runner’s high.

E a dor?

Aqui encontramos um resultado igualmente interessante.

Durante a maratona, a perceção da dor aumentou depois dos 28 quilómetros. (link.springer.com)

Isto pode parecer contraditório.

Se os endocanabinoides estão associados à redução da perceção da dor, porque é que a dor aumentou?

Porque o exercício prolongado envolve uma enorme quantidade de estímulos fisiológicos.

Ao longo de uma maratona acumulam-se:

  • fadiga muscular;
  • stress mecânico;
  • alterações metabólicas;
  • desidratação potencial;
  • desconforto muscular;
  • lesões por sobrecarga;
  • stress psicológico.

O sistema endocanabinoide pode contribuir para modular a dor, mas isso não significa que consiga eliminar a sensação dolorosa provocada por horas de esforço.

Aliás, no final de uma ultramaratona, os participantes apresentaram aumento da dor apesar das alterações endocanabinoides. (link.springer.com)

Então correr reduz a dor?

É necessário fazer uma distinção.

O exercício pode modular a perceção da dor, mas isso não significa que seja um analgésico universal.

Uma pessoa pode sentir uma redução da ansiedade ou uma sensação de bem-estar durante uma corrida e, simultaneamente, apresentar maior dor muscular ou articular devido ao esforço.

O sistema nervoso está constantemente a integrar informação proveniente dos músculos, articulações, cérebro, sistema cardiovascular e ambiente.

Por isso, a relação entre exercício e dor é muito mais complexa do que simplesmente “correr liberta endorfinas e deixa de doer”.

O runner’s high é provocado pelas endorfinas?

Durante muito tempo esta foi uma das principais explicações.

As endorfinas são opioides produzidos pelo organismo e estão associadas à modulação da dor.

No entanto, existe um problema.

As endorfinas são moléculas grandes e hidrofílicas e não atravessam facilmente a barreira hematoencefálica em quantidade suficiente para explicar sozinhas os efeitos cerebrais associados ao runner’s high.

O estudo atual enquadra-se numa linha de investigação que aponta para um papel importante dos endocanabinoides. (link.springer.com)

Investigação anterior dos mesmos autores utilizou um ensaio randomizado, duplamente cego e controlado por placebo com 63 participantes, comparando corrida/caminhada e naltrexona, um antagonista dos recetores opioides.

Os resultados sugeriram que a euforia associada ao exercício não dependia exclusivamente do sistema opioide. (link.springer.com)

Isso não significa que as endorfinas não tenham qualquer função.

Significa que provavelmente não explicam sozinhas toda a experiência.

É por isso que algumas pessoas ficam relaxadas depois de correr?

É possível.

Os resultados deste estudo são compatíveis com a ideia de que alterações no sistema endocanabinoide podem contribuir para:

  • menor ansiedade;
  • maior sensação de bem-estar;
  • alterações na perceção da dor;
  • efeitos positivos no humor durante e depois do exercício.

A AEA aumentou durante a corrida e permaneceu elevada depois da recuperação. Ao mesmo tempo, os corredores apresentaram maior euforia e menor ansiedade do que quando caminharam. (link.springer.com)

No entanto, é importante não transformar uma associação fisiológica numa relação causal definitiva.

Os investigadores mediram endocanabinoides no sangue.

Isso não significa que tenham medido diretamente o que estava a acontecer nos recetores cerebrais.

Os próprios autores referem que as concentrações periféricas são uma reflexão indireta dos processos que ocorrem no sistema nervoso. (link.springer.com)

É preciso correr uma maratona para obter estes efeitos?

Não.

Esta é talvez a conclusão prática mais importante.

O estudo analisou corridas prolongadas porque queria estudar a dinâmica dos endocanabinoides durante esforços de longa duração.

Mas isso não significa que seja necessário correr 42 quilómetros para beneficiar do exercício.

Investigações anteriores citadas pelos autores indicam que alterações nos endocanabinoides podem ocorrer também durante exercícios de menor duração.

O próprio conceito de runner’s high está frequentemente associado a exercícios de resistência de intensidade moderada.

Portanto, não devemos interpretar o estudo como uma recomendação para correr maratonas.

Para a saúde geral, atividade física regular e sustentável é muito mais importante do que procurar esforços extremos.

Caminhar também aumentou a anandamida

Outro resultado interessante foi que a caminhada não foi completamente neutra.

Os investigadores observaram aumentos mais modestos de alguns endocanabinoides durante a caminhada. (link.springer.com)

Isto é importante.

Pode significar que não existe uma fronteira simples entre “exercício que ativa o sistema endocanabinoide” e “exercício que não ativa”.

A intensidade, duração e condição física da pessoa podem modificar a resposta.

Para alguém que não corre, uma caminhada rápida pode representar um estímulo fisiológico relevante.

Para um atleta treinado, a mesma caminhada pode representar uma carga muito menor.

O exercício pode melhorar o estado emocional

Este estudo acrescenta mais uma peça à evidência que relaciona exercício físico e saúde mental.

A atividade física regular está associada a vários benefícios psicológicos.

O exercício pode contribuir para:

  • redução do stress;
  • melhoria do humor;
  • melhor qualidade do sono;
  • redução da ansiedade em algumas pessoas;
  • aumento da sensação de bem-estar;
  • melhoria da autoestima e da perceção de capacidade física.

Os mecanismos são provavelmente múltiplos.

Não dependem apenas dos endocanabinoides.

Também podem envolver:

  • endorfinas;
  • dopamina;
  • serotonina;
  • noradrenalina;
  • BDNF;
  • cortisol;
  • sistema opioide;
  • adaptações cardiovasculares;
  • alterações metabólicas.

Os próprios autores sugerem que estudos futuros devem analisar vários destes sistemas simultaneamente. (link.springer.com)

Mais exercício não significa necessariamente mais bem-estar

É importante não retirar deste estudo a conclusão de que quanto mais longa for a corrida, maior será o benefício psicológico.

O estudo mostra alterações importantes em atletas de endurance, mas também mostra que as ultramaratonas aumentaram a dor e não produziram um aumento significativo de euforia após a prova. (link.springer.com)

O exercício extremo tem custos fisiológicos.

Uma maratona ou ultramaratona representa um enorme stress para:

  • músculos;
  • tendões;
  • articulações;
  • sistema cardiovascular;
  • sistema imunitário;
  • metabolismo;
  • equilíbrio hídrico e eletrolítico.

Para a maioria das pessoas, não existe necessidade de procurar este nível de esforço para obter benefícios de saúde.

O que podemos aprender para o treino depois dos 40?

Para pessoas que pretendem manter saúde, autonomia e capacidade física ao longo do envelhecimento, a mensagem pode ser bastante simples.

Não é necessário perseguir uma maratona.

É mais importante construir uma rotina sustentável.

Uma combinação de:

treino cardiovascular + força + mobilidade + recuperação

pode ser muito mais relevante para a saúde a longo prazo.

Caminhar, correr, pedalar, nadar ou realizar outra atividade aeróbia pode contribuir para a saúde cardiovascular.

O treino de força ajuda a preservar massa muscular e capacidade funcional.

E o descanso permite que o organismo se adapte ao estímulo.

O objetivo não deve ser apenas sentir o runner’s high.

Deve ser conseguir manter um corpo capaz de se movimentar bem durante décadas.

E o sistema endocanabinoide?

Talvez este seja um dos aspetos mais fascinantes deste estudo.

O sistema endocanabinoide parece funcionar como um sistema regulador que participa em vários processos fisiológicos.

O exercício pode alterar temporariamente os níveis de determinadas moléculas deste sistema.

A investigação atual sugere que estas alterações podem participar na forma como o organismo responde ao esforço físico e na forma como percebemos o estado emocional e a dor.

Mas ainda existem muitas perguntas.

Os investigadores reconhecem limitações importantes, incluindo o pequeno tamanho das amostras, diferenças entre os dois estudos, número limitado de lípidos avaliados e ausência de acompanhamento prolongado. (link.springer.com)

Por isso, os resultados são muito interessantes, mas não encerram a questão.

Conclusão

Um estudo publicado no BMC Medicine em 1 de setembro de 2026 encontrou alterações marcadas e dependentes do tempo no sistema endocanabinoide durante corridas de longa distância. (link.springer.com)

Na maratona, a anandamida aumentou progressivamente e permaneceu elevada depois de 45 minutos de recuperação.

O 2-AG apresentou uma resposta diferente, aumentando sobretudo nas fases finais da maratona e durante a recuperação, além de apresentar aumentos depois das ultramaratonas. (link.springer.com)

Ao mesmo tempo, a corrida esteve associada a maior euforia e menor ansiedade do que a caminhada, enquanto a dor aumentou com a duração do esforço.

Estes resultados ajudam a explicar porque algumas pessoas sentem uma sensação de bem-estar e tranquilidade depois de correr.

Mas não significam que seja necessário correr uma maratona para obter benefícios.

A mensagem mais interessante talvez seja outra:

o exercício não altera apenas músculos, coração e pulmões. Também modifica sistemas neuroquímicos envolvidos no humor, ansiedade e perceção da dor.

E uma parte dessa resposta pode estar relacionada com moléculas produzidas pelo próprio organismo — os endocanabinoides.

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Referências

Siebers M, Huvermann D, Siebers C, et al. (2026). Endocannabinoid dynamics across marathon and ultramarathon running: evidence from two field studies. BMC Medicine.

Artigo científico completo — BMC Medicine / Springer Nature

Publicação científica — 1 de setembro de 2026

Referência bibliográfica — PubMed

Revisão sistemática sobre exercício e sistema endocanabinoide

Revisão sistemática e meta-análise — Cannabis and Cannabinoid Research