Correr devagar também pode fazer bem ao cérebro. Um novo estudo publicado em 2026 na revista Imaging Neuroscience sugere que apenas 10 minutos de corrida muito lenta podem melhorar o humor e alguns aspetos da função executiva, acompanhados por alterações na atividade do córtex pré-frontal.
A descoberta é interessante porque mostra que os benefícios cognitivos e emocionais do exercício podem surgir mesmo quando a intensidade do esforço é muito baixa. Para algumas pessoas, isto pode tornar a atividade física mais acessível, sobretudo quando correr depressa ou realizar exercícios intensos não é confortável ou adequado.
O que descobriu este novo estudo sobre corrida lenta?
Investigadores da Universidade de Tsukuba, no Japão, estudaram 24 adultos saudáveis para perceber se uma sessão curta de corrida muito lenta poderia produzir alterações imediatas no humor e na função executiva.
Os participantes realizaram 10 minutos de corrida numa passadeira, a uma intensidade correspondente a aproximadamente 35% do seu consumo máximo de oxigénio de pico. Trata-se de uma intensidade muito ligeira, próxima de um ritmo confortável e bastante inferior ao que normalmente associamos a uma sessão convencional de corrida.
Em outra sessão, os participantes permaneceram em repouso. A ordem das sessões foi aleatorizada, permitindo comparar as alterações provocadas pela corrida com as observadas durante o repouso.
Dez minutos de corrida melhoraram o humor
Depois da sessão de corrida muito lenta, os participantes apresentaram uma melhoria significativa no estado de humor avaliado pelos investigadores.
Este resultado reforça uma ideia cada vez mais relevante na ciência do exercício: não é necessariamente preciso realizar um treino longo ou particularmente intenso para obter alterações agudas no estado psicológico.
Uma sessão curta de movimento pode funcionar como uma espécie de “pausa ativa”, permitindo interromper períodos prolongados de inatividade e produzir alterações imediatas no estado de alerta e bem-estar.
No entanto, é importante distinguir um efeito agudo de uma adaptação de longo prazo. Este estudo avaliou o que aconteceu depois de uma única sessão de 10 minutos. Não demonstra que correr 10 minutos todos os dias irá necessariamente produzir melhorias permanentes no humor.
Também houve melhoria da função executiva
Os investigadores avaliaram a função executiva através do teste de Stroop, uma tarefa utilizada para estudar processos cognitivos como controlo inibitório e capacidade de ignorar informação irrelevante.
Depois da corrida muito lenta, os participantes apresentaram uma redução no tempo de interferência do teste de Stroop, indicando uma melhoria aguda neste indicador de função executiva quando comparado com a condição de repouso.
A função executiva é importante para muitas atividades do quotidiano. Inclui processos como concentração, controlo da atenção, tomada de decisão, flexibilidade cognitiva e capacidade de inibir respostas automáticas.
Assim, o interesse deste trabalho não está apenas na relação entre exercício e humor. Os resultados sugerem que uma pequena quantidade de movimento também pode influenciar temporariamente mecanismos cerebrais envolvidos no controlo cognitivo.
O que aconteceu no córtex pré-frontal?
Para perceber melhor os mecanismos envolvidos, os investigadores utilizaram espectroscopia funcional de infravermelho próximo, conhecida como fNIRS. Esta técnica permite avaliar alterações na oxigenação cerebral e estimar mudanças na atividade de determinadas regiões do cérebro.
Após a corrida, foi observada maior ativação em regiões do córtex pré-frontal relacionadas com a função executiva e a regulação do humor, particularmente no córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo e no córtex frontopolar esquerdo.
O córtex pré-frontal desempenha um papel importante em diversos processos cognitivos superiores. Por isso, a combinação entre melhoria no teste de Stroop e aumento da atividade pré-frontal é uma das partes mais interessantes deste estudo.
Contudo, isto não significa que a corrida “aumente a inteligência” ou que uma sessão de 10 minutos produza uma transformação permanente no cérebro. O estudo demonstra alterações agudas numa tarefa específica e em determinadas regiões cerebrais.
Será que o movimento da cabeça é importante?
Um dos aspetos mais curiosos da investigação foi a análise do movimento vertical da cabeça durante a corrida.
A corrida, mesmo muito lenta, envolve uma característica mecânica que a diferencia da caminhada: existe uma maior oscilação vertical do corpo. Os investigadores verificaram que uma maior aceleração vertical da cabeça esteve associada a uma maior melhoria no humor.
Esta associação levanta a possibilidade de que o próprio padrão rítmico da locomoção possa contribuir para alguns dos efeitos psicológicos associados à corrida.
É uma hipótese interessante, mas não deve ser interpretada como uma relação causal já demonstrada. São necessários estudos adicionais para perceber exatamente como o movimento corporal, o ritmo, a intensidade do exercício e a atividade cerebral interagem.
Corrida muito lenta pode ser uma opção para pessoas pouco treinadas
Uma das aplicações potencialmente interessantes destes resultados é a utilização de exercício muito ligeiro por pessoas que têm pouca condição física ou que não se sentem confortáveis com treino convencional.
Para algumas pessoas, começar diretamente com corrida rápida, treinos intervalados ou exercícios de elevada intensidade pode representar uma barreira. Uma corrida extremamente lenta, realizada durante poucos minutos e num ritmo confortável, pode ser uma alternativa mais simples para iniciar o movimento.
Na prática, não é necessário transformar estes resultados numa nova regra de treino. O estudo apenas mostra que uma intensidade muito baixa foi suficiente para produzir alterações agudas mensuráveis nos participantes estudados.
O que este estudo não demonstra
É importante manter alguma cautela. A investigação teve uma amostra pequena, composta por apenas 24 participantes saudáveis, e avaliou principalmente efeitos imediatos de uma única sessão de exercício.
Por isso, os resultados não permitem afirmar que 10 minutos de corrida lenta previnem demência, tratam depressão, melhoram permanentemente a memória ou produzem benefícios cardiovasculares equivalentes aos de programas de exercício estruturado.
Também não significa que correr seja necessariamente superior a caminhar ou a outras formas de exercício ligeiro. A investigação procurou especificamente estudar os efeitos de uma forma muito particular de corrida e os seus possíveis mecanismos cerebrais.
Uma mensagem importante para quem quer fazer mais exercício
A principal mensagem prática talvez seja mais simples: não é preciso esperar pelo treino perfeito para começar a mexer-se.
Dez minutos podem parecer pouco quando comparados com uma sessão tradicional de treino, mas este estudo mostra que uma sessão tão curta pode produzir alterações agudas no humor e na função executiva.
Para quem já treina regularmente, uma corrida muito lenta pode funcionar como atividade complementar ou recuperação ativa. Para quem está a começar, pode representar uma forma simples de introduzir mais movimento no dia.
O mais importante é adaptar a intensidade à condição física individual. Pessoas com doenças cardiovasculares, limitações musculoesqueléticas ou outros problemas de saúde devem discutir previamente a prática de exercício com um profissional de saúde quando necessário.
Conclusão
O estudo publicado na Imaging Neuroscience acrescenta uma peça interessante à investigação sobre exercício e cérebro. Apenas 10 minutos de corrida muito lenta, realizada a uma intensidade de cerca de 35% do VO2peak, foram suficientes para melhorar o humor e o desempenho numa medida de função executiva em adultos saudáveis.
Ao mesmo tempo, os investigadores observaram maior ativação de regiões pré-frontais envolvidas no controlo cognitivo e na regulação do humor. A associação entre o movimento vertical da cabeça e a melhoria do humor também abre uma hipótese interessante sobre a importância dos componentes mecânicos da corrida.
São resultados promissores, mas devem ser interpretados como evidência de efeitos agudos e não como prova de benefícios de longo prazo. Ainda assim, reforçam uma ideia prática importante: o exercício não precisa de ser intenso, longo ou extenuante para ter efeitos mensuráveis sobre o cérebro e o estado de espírito.
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Referências
- Damrongthai C, Kuwamizu R, Yamazaki Y, et al. Slow running benefits: Boosts in mood and facilitation of prefrontal cortex function even at very light intensity. Imaging Neuroscience. 2026;4:IMAG.a.1297.
- DOI: 10.1162/IMAG.a.1297
- PubMed – Slow running benefits
- PubMed Central – texto integral do estudo
- University of Tsukuba – Research News