Dormir pouco pode estar associado a menor esperança de vida

Dormir pouco pode estar associado a menor esperança de vida September 22, 2026Leave a comment

O sono é frequentemente tratado como uma questão de conforto, recuperação ou desempenho. No entanto, a investigação científica tem vindo a mostrar que dormir adequadamente está relacionado com múltiplos aspetos da saúde, incluindo a saúde cardiovascular, metabólica, cognitiva e a mortalidade.

Um estudo publicado na revista SLEEP Advances analisou uma questão particularmente interessante: existe uma relação entre dormir pouco e a esperança de vida das populações? Para responder a esta questão, os investigadores estudaram dados de milhares de condados dos Estados Unidos entre 2019 e 2025.

Os resultados encontraram uma associação consistente entre maior prevalência de sono insuficiente e menor esperança de vida. A relação manteve-se mesmo depois de os investigadores terem considerado vários fatores relacionados com a mortalidade, embora o estudo não permita afirmar que dormir pouco seja, por si só, uma causa direta de menor longevidade.

O que significa dormir pouco?

Neste estudo, foi considerado sono insuficiente dormir menos de 7 horas por noite de forma habitual. Esta definição é importante porque não significa necessariamente que todas as pessoas precisem exatamente das mesmas horas de sono.

As necessidades individuais podem variar, mas, para a população adulta, dormir regularmente menos de sete horas é frequentemente utilizado em investigação epidemiológica como indicador de sono insuficiente.

O problema torna-se particularmente relevante quando dormir pouco deixa de ser uma situação ocasional e passa a fazer parte da rotina durante meses ou anos.

Como foi realizado o estudo?

Os investigadores utilizaram informação proveniente do Behavioral Risk Factor Surveillance System (BRFSS), um sistema de vigilância de saúde dos Estados Unidos. Foram analisados dados relativos ao período entre 2019 e 2025.

A análise incluiu 3.141 condados norte-americanos, permitindo comparar diferentes regiões e populações.

Os investigadores analisaram a proporção da população que referia dormir menos de sete horas por dia e relacionaram essa informação com os dados de esperança de vida.

Além do sono, foram considerados vários fatores potencialmente relacionados com a longevidade, incluindo tabagismo, inatividade física, insegurança alimentar, desemprego, escolaridade, ligações sociais e acesso a seguro de saúde.

Foi ainda realizada uma análise adicional considerando obesidade e diabetes, duas condições que podem estar relacionadas tanto com o sono insuficiente como com a saúde e a mortalidade.

Quanto maior o sono insuficiente, menor a esperança de vida

Os resultados mostraram uma associação negativa entre sono insuficiente e esperança de vida na maioria dos estados analisados.

Em termos simples, os condados onde uma maior proporção da população dormia menos de sete horas tendiam também a apresentar menor esperança de vida.

Esta relação foi observada repetidamente ao longo dos anos estudados. Em 2025, todos os estados analisados, exceto três, apresentaram uma associação estatisticamente significativa entre a prevalência de sono insuficiente e a esperança de vida.

Também foram observadas associações semelhantes nos anos anteriores, entre 2019 e 2024.

O sono continuou associado à longevidade depois de considerar outros fatores

Uma das partes mais interessantes do trabalho foi a análise estatística que tentou separar a associação entre sono e esperança de vida de outros comportamentos e condições de saúde.

Quando foram considerados fatores como tabagismo, inatividade física, alimentação, desemprego, escolaridade e outros indicadores, o sono insuficiente continuou significativamente associado a menor esperança de vida.

O coeficiente associado ao sono insuficiente foi de -0,17, enquanto o tabagismo apresentou uma associação mais forte, de -0,31.

Num segundo modelo, que acrescentou obesidade e diabetes, a associação entre sono insuficiente e esperança de vida permaneceu estatisticamente significativa, embora tenha diminuído para -0,08.

Este resultado é importante porque sugere que a relação entre sono e longevidade não pode ser simplesmente explicada por obesidade ou diabetes.

Mas dormir pouco causa menor longevidade?

É aqui que é necessário interpretar o estudo com cuidado.

Os investigadores encontraram uma associação entre sono insuficiente e menor esperança de vida. Isso não significa que o estudo tenha demonstrado uma relação causal direta.

Trata-se de uma análise observacional baseada em dados populacionais. Pessoas que dormem pouco podem apresentar simultaneamente outras características que influenciam a saúde e a longevidade.

Por exemplo, sono insuficiente pode estar associado a maior stress, horários de trabalho desfavoráveis, problemas de saúde, alterações metabólicas, sedentarismo ou outros fatores comportamentais e sociais.

Existe também a possibilidade de causalidade bidirecional: determinadas doenças podem prejudicar o sono, enquanto alterações persistentes do sono podem contribuir para o agravamento de alguns problemas de saúde.

Por isso, o estudo reforça a importância do sono como potencial fator modificável, mas não permite concluir que aumentar simplesmente o número de horas de sono irá necessariamente aumentar a esperança de vida de uma determinada pessoa.

Porque é que o sono pode estar relacionado com a longevidade?

Existem várias hipóteses biológicas plausíveis.

Durante o sono ocorrem processos importantes relacionados com a regulação cardiovascular, metabolismo, função imunitária, consolidação da memória e recuperação fisiológica.

A restrição crónica do sono também pode estar associada a alterações na regulação do apetite, metabolismo da glicose, pressão arterial e atividade do sistema nervoso autónomo.

Além disso, dormir pouco pode influenciar o comportamento durante o dia. Uma pessoa privada de sono pode apresentar maior sonolência, menor motivação para atividade física, alterações alimentares e pior capacidade de concentração.

Contudo, estes mecanismos continuam a ser estudados e não devem ser utilizados para transformar uma associação epidemiológica numa relação causal já comprovada.

Qual é a mensagem prática?

O estudo acrescenta mais uma peça à evidência de que o sono deve ser considerado parte integrante de um estilo de vida saudável.

Para a maioria dos adultos, não faz sentido olhar apenas para exercício físico, alimentação, peso corporal ou outros marcadores de saúde e ignorar sistematicamente o sono.

Uma rotina que permita dormir regularmente o suficiente, manter horários relativamente consistentes e reduzir fatores que perturbem o sono pode fazer parte de uma estratégia global de saúde.

Também é importante distinguir quantidade de sono de qualidade do sono. Dormir oito horas na cama não significa necessariamente ter oito horas de sono reparador. Problemas como insónia, despertares frequentes, apneia obstrutiva do sono ou alterações importantes do ritmo circadiano podem comprometer a qualidade do descanso.

Sono, exercício e longevidade

O exercício físico e o sono não devem ser vistos como áreas independentes.

A prática regular de atividade física está associada a benefícios cardiovasculares, metabólicos e funcionais, enquanto o sono adequado desempenha um papel importante na recuperação e adaptação ao treino.

Para quem pretende manter capacidade física e autonomia ao longo do envelhecimento, a combinação entre exercício regular, alimentação adequada, recuperação e sono suficiente pode ser mais relevante do que procurar uma única intervenção capaz de explicar toda a longevidade.

O estudo publicado em SLEEP Advances reforça precisamente esta perspetiva: o sono é um comportamento modificável que merece ser considerado quando pensamos em saúde pública e envelhecimento saudável.

Conclusão

Uma análise de 2019 a 2025 envolvendo 3.141 condados dos Estados Unidos encontrou uma associação consistente entre maior prevalência de sono insuficiente, definido como menos de sete horas por noite, e menor esperança de vida.

A associação manteve-se depois de serem considerados vários fatores relacionados com a mortalidade, incluindo tabagismo, inatividade física, alimentação, obesidade e diabetes.

O estudo não demonstra que dormir pouco cause diretamente menor longevidade, mas acrescenta evidência epidemiológica importante para a ideia de que o sono deve ser tratado como um componente relevante da saúde a longo prazo.

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Referências

  • McAuliffe KE, Wary MR, Pleas GV, et al. Sleep insufficiency and life expectancy at the state-county level in the United States, 2019–2025. SLEEP Advances. 2025;6(4):zpaf090. DOI: 10.1093/sleepadvances/zpaf090. Consultar estudo original
  • McAuliffe KE, Wary MR, Pleas GV, et al. Sleep insufficiency and life expectancy at the state-county level in the United States, 2019–2025. PubMed. PMID: 41445723. Consultar PubMed
  • McAuliffe KE, Wary MR, Pleas GV, et al. Sleep insufficiency and life expectancy at the state-county level in the United States, 2019–2025. PubMed Central. Texto completo