Receber o diagnóstico de escoliose pode gerar muitas dúvidas. Será que a coluna vai continuar a deformar-se? O exercício é seguro? É possível viver sem dores?
A resposta, na maioria dos casos, é positiva. Embora o exercício não corrija uma escoliose estrutural já estabelecida, pode desempenhar um papel fundamental no controlo dos sintomas, na melhoria da função e na manutenção da independência ao longo da vida.
Para quem vive com escoliose, existem dois grandes objetivos:
- manter a coluna funcional e com o mínimo de dor possível;
- preservar ou aumentar a força muscular para enfrentar o envelhecimento com maior segurança e autonomia.
O que é a escoliose?
A escoliose é uma deformidade tridimensional da coluna vertebral, caracterizada por uma curvatura lateral superior a 10 graus, frequentemente acompanhada por rotação das vértebras.
Algumas pessoas apresentam apenas uma curva, enquanto outras desenvolvem duas curvas principais, conhecidas como escoliose em “S”.
Estas curvas podem localizar-se:
- na coluna torácica;
- na coluna lombar;
- ou envolver ambas as regiões.
Cada caso é único e deve ser avaliado individualmente.
Primeiro objetivo: reduzir a dor e melhorar a função
Nem todas as pessoas com escoliose têm dor. No entanto, quando existe dor, esta pode estar relacionada com:
- sobrecarga muscular;
- rigidez articular;
- alterações posturais;
- fadiga muscular;
- diminuição da estabilidade da coluna.
Um programa de exercício adequado pode ajudar a:
- melhorar a mobilidade;
- aumentar a estabilidade da coluna;
- fortalecer os músculos do tronco;
- melhorar o equilíbrio;
- reduzir a sobrecarga em determinadas estruturas.
O objetivo não é apenas aliviar a dor, mas também permitir que a pessoa mantenha uma vida ativa.
O papel da força muscular
Os músculos funcionam como um sistema de suporte da coluna.
Quando estão fortes e bem coordenados, conseguem distribuir melhor as cargas e reduzir o esforço sobre articulações, discos e ligamentos.
Na escoliose, este papel torna-se ainda mais importante.
O fortalecimento deve incluir:
- músculos do tronco;
- glúteos;
- pernas;
- costas;
- cintura escapular.
Uma abordagem global produz melhores resultados do que trabalhar apenas a zona da coluna.
Exercícios específicos podem fazer a diferença
Dependendo do tipo e da localização da escoliose, o programa poderá incluir:
- exercícios de estabilização do tronco;
- fortalecimento dos músculos profundos;
- treino respiratório;
- mobilidade da coluna;
- exercícios de equilíbrio;
- treino funcional.
Em alguns casos, métodos específicos para escoliose, como os exercícios baseados no método Schroth, podem ser integrados no plano de tratamento, sempre sob orientação de profissionais qualificados.
Segundo objetivo: preparar o corpo para envelhecer
À medida que envelhecemos, ocorre uma perda natural de massa muscular, conhecida como sarcopenia.
Esta perda pode ser mais problemática em pessoas com escoliose, uma vez que diminui a capacidade de estabilizar a coluna.
Por isso, ganhar e manter massa muscular não é apenas uma questão estética.
É uma estratégia para:
- preservar a autonomia;
- reduzir o risco de quedas;
- melhorar o equilíbrio;
- proteger as articulações;
- facilitar as atividades do dia a dia.
Quanto melhor for a condição muscular antes da idade avançada, maior será a reserva funcional para enfrentar o envelhecimento.
O treino de força é seguro?
Na maioria dos casos, sim.
Quando o programa é adaptado à pessoa, o treino de força pode ser uma das melhores ferramentas para quem tem escoliose.
O mais importante é:
- respeitar as limitações individuais;
- utilizar boa técnica;
- progredir gradualmente;
- evitar cargas inadequadas;
- adaptar os exercícios ao padrão da curvatura.
Cada plano deve ser individualizado.
O exercício também beneficia o cérebro
Além dos benefícios para a coluna, o exercício físico regular:
- melhora o humor;
- reduz a ansiedade;
- aumenta a confiança;
- melhora o sono;
- ajuda a preservar a função cognitiva;
- reduz o risco de várias doenças crónicas.
Estes benefícios tornam-se particularmente importantes quando convivemos com uma condição crónica como a escoliose.
A consistência é mais importante do que a intensidade
Muitas pessoas procuram soluções rápidas.
No entanto, na escoliose, os melhores resultados surgem com a prática regular de exercício ao longo do tempo.
Pequenas melhorias acumuladas durante meses e anos podem traduzir-se numa grande diferença na qualidade de vida.
Nunca é tarde para começar
Mesmo quem vive com escoliose há muitos anos pode beneficiar de um programa de exercício adequado.
Melhorar a força, a mobilidade e o equilíbrio pode reduzir limitações e aumentar a confiança para realizar as atividades do dia a dia.
O corpo mantém uma notável capacidade de adaptação em qualquer idade.
Conclusão
Ter escoliose não significa viver com dor ou perder qualidade de vida.
Embora a curvatura da coluna nem sempre possa ser corrigida, é possível atuar sobre aquilo que realmente faz a diferença: a força muscular, a mobilidade, a estabilidade e a capacidade funcional.
Os dois grandes objetivos são claros: reduzir a dor e preservar a função no presente, enquanto se constrói um corpo mais forte para enfrentar o envelhecimento com maior autonomia.
O exercício físico adaptado é um investimento que beneficia não apenas a coluna, mas todo o organismo.
Posso ajudar?
Se tem escoliose e pretende reduzir a dor, melhorar a postura, aumentar a força ou criar um programa de exercício seguro e personalizado, posso ajudá-lo.
Com mais de 30 anos de experiência como Personal Trainer e especialização em osteopatia, reabilitação da coluna vertebral e exercício para prevenção, elaboro planos individualizados, adaptados ao tipo de escoliose, à idade e aos objetivos de cada pessoa, sempre baseados na melhor evidência científica.
Referências
- SOSORT – International Society on Scoliosis Orthopaedic and Rehabilitation Treatment. Guidelines for Conservative Treatment of Scoliosis.
https://www.sosort.org - Schreiber S, et al. The Effect of Schroth Exercises Added to Standard Care on the Quality of Life and Muscle Endurance in Adolescents with Idiopathic Scoliosis. PLoS One.
https://journals.plos.org/plosone/ - American Academy of Orthopaedic Surgeons (AAOS). Scoliosis.
https://orthoinfo.aaos.org - World Health Organization (WHO). Guidelines on Physical Activity and Sedentary Behaviour.
https://www.who.int/publications/i/item/9789240015128 - Cochrane Library. Exercises for adolescent idiopathic scoliosis.
https://www.cochranelibrary.com