A gravidez é um período de profundas alterações no organismo. O sistema cardiovascular adapta-se, o metabolismo muda, o peso aumenta progressivamente e o corpo precisa de responder a novas exigências mecânicas e fisiológicas.
Durante muitos anos, existiu alguma preocupação relativamente à prática de exercício físico durante a gravidez. Hoje, a discussão é bastante diferente. A questão deixou de ser simplesmente se uma mulher grávida deve ou não fazer exercício e passou a ser: que tipo de exercício, com que intensidade, durante quanto tempo e com que acompanhamento?
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 analisou precisamente esta questão. Os investigadores avaliaram os efeitos do exercício supervisionado durante a gravidez sobre a diabetes gestacional e vários outros resultados relacionados com a saúde materna e neonatal.
Os resultados são particularmente interessantes porque apontam para benefícios em vários indicadores importantes, embora devam ser interpretados dentro das limitações dos estudos analisados.
O que foi estudado?
A revisão incluiu 19 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 6.213 mulheres grávidas. Os estudos compararam programas de exercício supervisionado com os cuidados habituais.
O principal resultado analisado foi a ocorrência de diabetes mellitus gestacional. Os investigadores avaliaram também outros resultados, incluindo hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia, ganho excessivo de peso durante a gravidez, macrossomia, parto por cesariana, parto pré-termo e baixo peso ao nascer.
Esta é uma característica importante da revisão. Não se concentrou apenas numa alteração de peso ou numa variável de condição física, mas procurou perceber se o exercício supervisionado poderia estar relacionado com vários resultados clínicos relevantes da gravidez.
Exercício e diabetes gestacional
Um dos resultados mais interessantes foi a associação entre exercício supervisionado e menor risco de diabetes gestacional.
Na análise conjunta dos estudos, o risco relativo de diabetes gestacional foi de 0,74, com um intervalo de confiança de 95% entre 0,57 e 0,96.
De forma simplificada, isto correspondeu a uma redução relativa do risco de aproximadamente 26% nos grupos submetidos a exercício supervisionado.
É importante, no entanto, compreender a diferença entre redução relativa do risco e redução absoluta. Uma redução relativa de 26% não significa que 26 em cada 100 mulheres vão evitar diabetes gestacional. O efeito absoluto depende do risco inicial de cada população.
Ainda assim, o resultado é relevante porque mostra que a atividade física pode fazer parte de uma estratégia de prevenção e controlo metabólico durante a gravidez.
Porque é que o exercício pode influenciar o metabolismo?
O músculo esquelético é um dos principais tecidos responsáveis pela utilização da glicose.
Quando realizamos exercício, especialmente quando envolvemos grandes grupos musculares, aumentamos a utilização de energia pelo músculo. A atividade física também pode melhorar a capacidade do organismo para utilizar a glicose e responder à insulina.
Durante a gravidez existem alterações fisiológicas na sensibilidade à insulina. Estas alterações fazem parte do processo normal da gestação, mas em algumas mulheres podem contribuir para o desenvolvimento de diabetes gestacional.
O exercício proporciona uma forma de aumentar a atividade muscular e pode contribuir para melhorar o controlo metabólico.
É uma das razões pelas quais considero que o treino durante a gravidez deve ser encarado não apenas como uma questão estética ou de manutenção da condição física.
Pode também fazer parte de uma estratégia global de saúde.
Menor risco de hipertensão gestacional
A revisão encontrou também uma associação entre exercício supervisionado e menor risco de hipertensão gestacional.
O risco relativo observado foi de 0,55, com um intervalo de confiança de 95% entre 0,40 e 0,77.
Este resultado corresponde a uma redução relativa do risco de aproximadamente 45%.
A hipertensão durante a gravidez merece atenção porque pode estar associada a complicações maternas e obstétricas. Por isso, qualquer intervenção que possa contribuir para reduzir este risco merece ser estudada com atenção.
Mais uma vez, isto não significa que o exercício substitua a avaliação médica ou o acompanhamento obstétrico. Significa que a atividade física pode integrar uma abordagem mais ampla à saúde da mulher durante a gravidez.
E a pré-eclâmpsia?
A pré-eclâmpsia é uma condição específica da gravidez que envolve alterações da pressão arterial e pode apresentar consequências importantes para a mãe e para o bebé.
A revisão analisou este resultado entre os vários desfechos considerados. No entanto, a conclusão geral da meta-análise centrou-se sobretudo nos resultados para os quais encontrou evidência mais consistente, como diabetes gestacional, hipertensão gestacional, ganho excessivo de peso e macrossomia.
É importante fazer esta distinção. Uma revisão pode analisar vários resultados sem encontrar evidência suficientemente robusta para afirmar que todos são modificados pelo exercício.
Exercício e ganho de peso durante a gravidez
Outro resultado estudado foi o ganho excessivo de peso gestacional.
Os grupos submetidos a exercício supervisionado apresentaram um risco relativo de 0,75 para ganho excessivo de peso, com intervalo de confiança de 95% entre 0,61 e 0,92.
O exercício pode aumentar o gasto energético e ajudar a manter a capacidade funcional durante uma fase em que o peso corporal aumenta naturalmente.
Mas é fundamental não confundir ganho de peso normal durante a gravidez com ganho excessivo de peso.
O objetivo não deve ser impedir o aumento de peso que faz parte de uma gravidez saudável. O objetivo é acompanhar a evolução da gravidez e manter hábitos que contribuam para a saúde materna e fetal.
Uma questão particularmente interessante: a macrossomia
A revisão encontrou também menor risco de macrossomia nos grupos que realizaram exercício supervisionado.
O risco relativo foi de 0,61, com intervalo de confiança de 95% entre 0,46 e 0,81.
A macrossomia fetal pode estar relacionada com vários fatores, incluindo condições metabólicas maternas. Por isso, é plausível que alterações no metabolismo da glicose e no ganho de peso materno possam contribuir para alguns dos efeitos observados.
No entanto, uma meta-análise não permite afirmar que exista uma única explicação para todos os resultados. A gravidez é um processo extremamente complexo, influenciado por fatores genéticos, metabólicos, comportamentais e clínicos.
Combinar exercício aeróbio e treino de força
Um dos aspetos mais interessantes desta revisão para quem trabalha diretamente com exercício é a análise dos diferentes tipos de treino.
Os resultados dos subgrupos sugeriram efeitos mais favoráveis quando os programas combinavam exercício aeróbio e treino de resistência.
Esta combinação faz bastante sentido do ponto de vista fisiológico.
O exercício aeróbio permite trabalhar a capacidade cardiorrespiratória e envolve grandes grupos musculares durante períodos relativamente prolongados.
O treino de força proporciona estímulos específicos para os músculos e permite trabalhar movimentos fundamentais, capacidade funcional e manutenção da força.
Não é necessário escolher obrigatoriamente entre um e outro.
Em muitos casos, a melhor solução pode ser combinar diferentes estímulos, desde que o programa seja adequado à condição da mulher e à evolução da gravidez.
150 minutos por semana: devemos usar este número como uma regra?
A análise de subgrupos encontrou resultados mais favoráveis em programas que atingiam pelo menos 150 minutos de exercício por semana.
Este número é interessante, mas deve ser interpretado com cuidado.
150 minutos por semana não devem ser entendidos como uma fronteira biológica rígida entre exercício eficaz e exercício ineficaz.
Uma mulher que atualmente não faz exercício pode beneficiar de uma quantidade muito inferior enquanto começa a adaptar-se. Outra mulher, fisicamente ativa antes da gravidez, pode tolerar volumes superiores.
A progressão deve ser individualizada.
O ponto fundamental não é transformar 150 minutos numa obrigação. É evitar que um número retirado de uma investigação seja aplicado de forma mecânica a todas as pessoas.
Começar mais cedo parece ser relevante
Outro resultado interessante foi observado nas análises de subgrupos relacionadas com o momento de início do programa.
Os efeitos pareceram mais favoráveis quando o exercício era iniciado no início da gravidez ou quando a intervenção tinha duração superior a 20 semanas.
Este resultado levanta uma questão importante: talvez não seja necessário esperar por alterações metabólicas ou ganho de peso significativo para começar a pensar no exercício.
A atividade física pode ser encarada como parte da preparação para a gravidez e como um comportamento que acompanha toda a gestação.
Naturalmente, existem situações clínicas em que determinadas formas de exercício podem ser contraindicadas ou necessitar de adaptação. A avaliação obstétrica continua a ser fundamental.
A adesão é provavelmente tão importante como o plano
Os investigadores observaram também resultados mais favoráveis nos programas em que a adesão ao exercício era elevada, nomeadamente quando pelo menos 80% das sessões previstas eram realizadas.
Esta informação é extremamente interessante para quem trabalha com pessoas.
Um programa teoricamente perfeito que ninguém consegue cumprir tem pouco valor prático.
Um programa ligeiramente menos ambicioso, mas que a pessoa consegue realizar de forma consistente durante meses, pode representar uma estratégia muito mais útil.
É por isso que, no treino, gosto de pensar não apenas no que a pessoa consegue fazer hoje, mas também no que consegue repetir na próxima semana, no próximo mês e durante os meses seguintes.
Supervisionar não significa controlar tudo
O estudo analisou exercício supervisionado, mas isso não significa que todas as sessões tenham de ser acompanhadas presencialmente por um profissional.
Supervisão pode significar diferentes formas de acompanhamento, dependendo do programa.
O papel de um profissional de exercício pode incluir a escolha dos exercícios, adaptação das cargas, controlo da progressão, avaliação da execução, ajuste do volume e identificação de situações em que é necessário encaminhar a pessoa para avaliação clínica.
Durante a gravidez, esta capacidade de adaptação torna-se especialmente importante porque o corpo muda continuamente.
O treino durante a gravidez não deve ser um treino “normal” com a barriga maior
Uma gravidez não é simplesmente uma versão modificada de uma situação anterior.
Existem alterações progressivas no centro de massa, na estabilidade, na capacidade respiratória, na tolerância ao esforço e no conforto durante determinados movimentos.
Por isso, um programa deve evoluir.
Um exercício que era confortável no primeiro trimestre pode deixar de ser adequado mais tarde. Um movimento que era fácil pode exigir uma alteração da amplitude, da carga, da posição corporal ou do número de repetições.
É precisamente aqui que a individualização ganha importância.
O que este estudo não significa
Apesar dos resultados favoráveis, existem várias conclusões que não devemos retirar desta investigação.
O estudo não demonstra que todas as mulheres grávidas devam realizar exatamente o mesmo programa de exercício.
Também não significa que o exercício elimine o risco de diabetes gestacional, hipertensão ou outras complicações.
Os resultados são apresentados como efeitos relativos e devem ser interpretados tendo em conta o risco inicial de cada população.
Além disso, embora a evidência global tenha sido classificada como de certeza moderada, existiram diferenças importantes entre os programas analisados, incluindo duração, tipo de exercício, adesão e momento de início.
Por isso, a investigação fornece informação para orientar a prática, mas não substitui a avaliação individual.
O que retiro para a prática?
Para mim, uma das principais mensagens deste estudo é que o exercício durante a gravidez deve ser visto como parte da saúde e não apenas como uma forma de manter a forma física.
Quando adequado, combinar exercício aeróbio com treino de força pode permitir trabalhar diferentes componentes da condição física.
Também me parece importante começar cedo, manter uma boa adesão e ajustar progressivamente o programa.
Mas existe uma ideia ainda mais importante: o melhor programa é aquele que respeita a pessoa e a evolução da gravidez.
Não devemos começar por perguntar apenas quantos minutos a pessoa deve treinar.
Devemos perguntar: que exercício fazia antes da gravidez? Como está a tolerar o esforço? Existem limitações ou sintomas? Como está a evolução da gravidez? Que exercícios consegue realizar confortavelmente? E como podemos adaptar o treino ao longo das semanas?
Conclusão
A evidência disponível nesta revisão sistemática e meta-análise reforça a importância do exercício supervisionado durante a gravidez.
Em 19 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 6.213 mulheres, o exercício esteve associado a menor risco de diabetes gestacional, hipertensão gestacional, ganho excessivo de peso e macrossomia.
As análises de subgrupos sugeriram resultados mais favoráveis quando o exercício era iniciado mais cedo, quando a adesão era elevada, quando os programas combinavam exercício aeróbio e treino de resistência e quando o volume semanal atingia pelo menos 150 minutos.
Estes resultados não significam que exista um programa universal para todas as grávidas.
Significam, isso sim, que o exercício pode desempenhar um papel importante numa gravidez saudável quando é adequadamente selecionado, acompanhado e adaptado.
Para mim, esta é uma das grandes vantagens de trabalhar com exercício: não precisamos de procurar um treino perfeito. Precisamos de perceber a pessoa, compreender o contexto e ajustar o estímulo àquilo que o corpo consegue fazer naquele momento.
Posso ajudar
Posso ajudar a adaptar o treino durante a gravidez, ajustando exercícios, cargas, volume e progressão às capacidades individuais e ao acompanhamento clínico realizado.