Um estudo publicado em 12 de setembro de 2026 analisou se a utilização prolongada de medicamentos que atuam no sistema renina-angiotensina poderia alterar as adaptações cardiovasculares provocadas pelo exercício. Os resultados são particularmente interessantes para pessoas com hipertensão arterial que fazem tratamento com inibidores da ECA ou antagonistas dos recetores da angiotensina II.
Durante 16 semanas, 62 adultos sedentários com síndrome metabólica realizaram um programa supervisionado de treino intervalado de alta intensidade, conhecido como HIIT. Parte dos participantes tomava medicamentos anti-hipertensores e outra parte não fazia tratamento farmacológico.
Após o programa, os dois grupos apresentaram melhorias na pressão arterial, condição cardiorrespiratória e saúde cardiometabólica. Os investigadores não encontraram evidência de que o tratamento crónico com inibidores do sistema renina-angiotensina impedisse as adaptações provocadas pelo exercício.
Porque é importante estudar exercício e medicamentos para a hipertensão?
A hipertensão arterial é uma das condições cardiovasculares mais frequentes e o exercício físico é uma das estratégias não farmacológicas utilizadas para ajudar a controlar a pressão arterial.
Ao mesmo tempo, muitas pessoas que começam a fazer exercício já estão a tomar medicamentos anti-hipertensores. Isto levanta uma questão importante: será que determinados medicamentos alteram a resposta do organismo ao treino?
Esta questão é especialmente relevante porque alguns medicamentos interferem diretamente nos mecanismos fisiológicos envolvidos na regulação da pressão arterial.
Os inibidores da enzima de conversão da angiotensina, conhecidos como IECA, e os antagonistas dos recetores da angiotensina II, conhecidos como ARA II, atuam sobre o sistema renina-angiotensina-aldosterona.
Este sistema participa no controlo da pressão arterial, volume sanguíneo e funcionamento cardiovascular.
O novo estudo procurou perceber se a sua inibição prolongada poderia modificar as adaptações cardiovasculares provocadas por um programa estruturado de HIIT.
Como foi realizado o estudo?
Participaram 62 adultos sedentários com síndrome metabólica.
Os participantes foram divididos em dois grupos de acordo com a utilização de medicação anti-hipertensora. Um grupo era constituído por 27 pessoas que faziam tratamento crónico com inibidores da ECA ou antagonistas dos recetores da angiotensina II. O outro grupo, com 35 participantes, não estava a receber tratamento farmacológico.
Todos realizaram um programa supervisionado de treino intervalado de alta intensidade durante 16 semanas.
Os investigadores avaliaram diferentes parâmetros antes e depois do programa, incluindo pressão arterial em repouso, resposta da pressão arterial durante o exercício, condição cardiorrespiratória e componentes da síndrome metabólica.
O HIIT melhorou a condição física
Um dos resultados mais claros foi a melhoria da capacidade cardiorrespiratória.
O VO2max, uma das principais medidas utilizadas para avaliar a capacidade do organismo utilizar oxigénio durante o exercício, aumentou nos dois grupos.
No grupo que tomava medicação anti-hipertensora, o aumento médio foi de aproximadamente 3,9 ml/kg/min. No grupo sem tratamento farmacológico, o aumento foi de aproximadamente 5,0 ml/kg/min.
Apesar destas diferenças numéricas, os investigadores não encontraram uma interação estatisticamente significativa que demonstrasse que a medicação tivesse impedido a adaptação ao treino.
Ou seja, os participantes que estavam medicados também conseguiram melhorar a sua condição cardiorrespiratória através do treino.
A pressão arterial também melhorou
Outro resultado importante foi a redução da pressão arterial média em repouso.
No grupo que tomava inibidores da ECA ou antagonistas dos recetores da angiotensina II, a pressão arterial média diminuiu aproximadamente 4,2 mmHg.
No grupo sem medicação, a redução foi de aproximadamente 6,5 mmHg.
Apesar da diferença numérica, não houve uma diferença estatisticamente significativa entre os grupos que permitisse concluir que a medicação alterou de forma relevante o efeito do exercício sobre a pressão arterial.
Este resultado é particularmente interessante porque demonstra que a realização de exercício estruturado pode continuar associada a melhorias da pressão arterial mesmo quando a pessoa já está a utilizar determinados medicamentos anti-hipertensores.
E durante o exercício?
A investigação não avaliou apenas a pressão arterial em repouso.
Os investigadores também analisaram a resposta da pressão arterial durante o exercício, incluindo valores máximos e submáximos.
Depois das 16 semanas de treino, observaram-se melhorias na resposta da pressão arterial durante o esforço. Houve efeitos significativos do tempo na pressão arterial média máxima e na pressão arterial diastólica submáxima.
Mais uma vez, não foram encontradas diferenças significativas entre os participantes que tomavam medicação e aqueles que não tomavam.
Este resultado sugere que as adaptações provocadas pelo treino não ficaram limitadas à pressão arterial medida em repouso.
O que é o sistema renina-angiotensina?
O sistema renina-angiotensina-aldosterona é um dos principais sistemas fisiológicos envolvidos na regulação da pressão arterial.
Quando este sistema é ativado, pode contribuir para a constrição dos vasos sanguíneos e para mecanismos que aumentam a retenção de sódio e água. Consequentemente, pode contribuir para o aumento da pressão arterial.
Os inibidores da ECA e os antagonistas dos recetores da angiotensina II interferem neste sistema através de mecanismos diferentes.
Como o exercício também provoca alterações na regulação cardiovascular e no sistema renina-angiotensina, existia uma questão científica legítima sobre uma possível interação entre medicação e treino.
O novo estudo fornece dados que sugerem que, pelo menos durante 16 semanas de HIIT supervisionado, a utilização crónica destes medicamentos não impediu as principais adaptações cardiovasculares ao exercício.
HIIT e hipertensão
O treino intervalado de alta intensidade alterna períodos de esforço elevado com períodos de recuperação.
Este tipo de exercício pode melhorar significativamente a capacidade cardiorrespiratória quando é adequadamente prescrito e progressivamente adaptado.
No entanto, HIIT não significa simplesmente treinar o mais intensamente possível.
A intensidade deve ser individualizada e a escolha dos intervalos, duração, recuperação e frequência semanal deve depender da condição física da pessoa.
Em pessoas sedentárias, com hipertensão ou síndrome metabólica, começar diretamente com esforços máximos pode não ser a estratégia mais adequada.
O estudo também não significa que todas as pessoas hipertensas devam realizar HIIT. Os participantes foram avaliados e realizaram um programa supervisionado, dentro de um contexto de investigação clínica.
O exercício substitui a medicação?
Este estudo não permite concluir isso.
Os participantes que estavam medicados continuaram a utilizar a sua medicação. O objetivo não foi comparar exercício com medicamentos nem avaliar se seria possível suspender o tratamento farmacológico.
A investigação procurou responder a uma questão diferente: saber se o tratamento crónico com inibidores da ECA ou antagonistas dos recetores da angiotensina II interfere com as adaptações provocadas pelo exercício.
Os resultados sugerem que não houve uma atenuação significativa das melhorias cardiovasculares observadas ao longo das 16 semanas.
Por isso, exercício e tratamento farmacológico devem ser encarados como intervenções que podem coexistir, quando clinicamente indicadas, e não como estratégias necessariamente concorrentes.
Uma pessoa medicada pode treinar normalmente?
O estudo fornece dados favoráveis à compatibilidade entre tratamento com determinados medicamentos anti-hipertensores e exercício estruturado.
Contudo, a resposta individual pode variar.
Medicamentos diferentes podem provocar efeitos diferentes sobre a pressão arterial, frequência cardíaca, tolerância ao esforço e resposta durante o exercício. A dose, horário da toma, condição física e existência de outras doenças também podem ser relevantes.
Por isso, uma pessoa que inicia ou aumenta significativamente a intensidade do exercício enquanto toma medicação para a pressão arterial deve fazê-lo de forma progressiva e, quando necessário, com acompanhamento clínico.
O que significa para quem tem síndrome metabólica?
A síndrome metabólica caracteriza-se pela combinação de diferentes fatores de risco cardiometabólico, que podem incluir pressão arterial elevada, alterações da glicemia, alterações dos triglicéridos, colesterol HDL reduzido e aumento da gordura abdominal.
Melhorar a condição cardiorrespiratória e aumentar a atividade física pode contribuir para melhorar vários destes componentes.
No estudo, tanto o grupo medicado como o grupo sem tratamento farmacológico apresentaram melhorias no chamado MetS Z-score, uma medida utilizada para representar globalmente a gravidade dos componentes da síndrome metabólica.
A alteração foi estatisticamente significativa ao longo do tempo nos dois grupos.
Uma das mensagens mais importantes: consistência
O estudo teve uma duração de 16 semanas. Isto significa que as melhorias observadas não resultaram de uma única sessão de exercício, mas de um programa realizado de forma consistente ao longo de vários meses.
Esta é uma questão frequentemente esquecida quando se fala de exercício e pressão arterial.
Uma sessão de exercício pode provocar alterações agudas da pressão arterial, incluindo uma redução temporária após o exercício. Mas os benefícios mais importantes para a saúde cardiovascular dependem da repetição regular do estímulo.
O objetivo deve ser construir uma rotina de atividade física que possa ser mantida durante meses e anos.
O que este estudo ainda não responde?
Apesar dos resultados interessantes, existem algumas limitações.
O número de participantes foi relativamente reduzido, com apenas 62 pessoas. Além disso, todos apresentavam síndrome metabólica e eram sedentários no início do estudo.
Por isso, os resultados não devem ser automaticamente extrapolados para atletas, pessoas muito treinadas, indivíduos sem síndrome metabólica ou pessoas com diferentes tipos de doença cardiovascular.
Os próprios autores salientam que o estudo pode ter tido poder estatístico limitado para detetar diferenças pequenas ou moderadas entre os grupos.
Também não é possível concluir, a partir deste trabalho, que todos os medicamentos anti-hipertensores tenham exatamente o mesmo efeito sobre a resposta ao exercício.
Exercício e pressão arterial: uma combinação importante
O novo estudo acrescenta evidência à ideia de que o exercício pode desempenhar um papel importante na gestão da saúde cardiovascular mesmo quando existe tratamento farmacológico.
Para muitas pessoas, a abordagem mais realista não é escolher entre medicação ou exercício.
Pode ser necessário combinar tratamento médico, atividade física regular, alimentação adequada, sono suficiente, controlo do peso, redução do sedentarismo e outros fatores de estilo de vida.
O exercício deve ser prescrito de acordo com o estado de saúde e os objetivos individuais.
Conclusão
Um estudo publicado em 12 de setembro de 2026 analisou 62 adultos sedentários com síndrome metabólica durante 16 semanas de treino intervalado de alta intensidade.
Tanto os participantes que utilizavam inibidores da ECA ou antagonistas dos recetores da angiotensina II como aqueles que não tomavam medicação apresentaram melhorias na condição cardiorrespiratória, saúde cardiometabólica e pressão arterial.
A pressão arterial média em repouso diminuiu em ambos os grupos e também foram observadas melhorias na resposta da pressão arterial durante o exercício.
Os resultados sugerem que o tratamento crónico com estes medicamentos não parece impedir as adaptações cardiovasculares provocadas pelo HIIT ao longo de 16 semanas.
Contudo, o estudo não demonstra que o exercício possa substituir a medicação, nem significa que todas as pessoas hipertensas devam realizar HIIT. A intensidade e o tipo de exercício devem ser adaptados individualmente.
A mensagem prática é simples: estar medicado para a hipertensão não significa que o exercício deixe de ser útil. Pelo contrário, neste estudo, o exercício estruturado continuou associado a melhorias cardiovasculares relevantes.
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Referências
- Artigo científico: Effect of chronic angiotensin system inhibitor treatment on cardiovascular adaptations to exercise training in adults with metabolic syndrome.
- Revista: Journal of Human Hypertension, Nature Portfolio.
- Data de publicação: 12 de setembro de 2026.
- DOI: 10.1038/s41371-026-01226-6.
- Estudo original: Nature – Journal of Human Hypertension.
- DOI do estudo: 10.1038/s41371-026-01226-6.