Exercício na insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada: o que mostra a nova meta-análise

Exercício na insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada: o que mostra a nova meta-análise September 27, 2026Leave a comment

A insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, conhecida pela sigla HFpEF, é uma condição cardiovascular cada vez mais relevante, sobretudo numa população que envelhece e apresenta maior prevalência de hipertensão, obesidade, diabetes e doença cardiovascular.

Apesar de a fração de ejeção do ventrículo esquerdo permanecer aparentemente preservada, muitas pessoas com HFpEF apresentam falta de ar, fadiga, menor tolerância ao esforço e redução da capacidade funcional. O exercício tornou-se, por isso, uma componente importante da abordagem não farmacológica desta doença.

Uma nova revisão sistemática e meta-análise em rede procurou comparar diferentes modalidades de exercício em pessoas com insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, avaliando principalmente a capacidade física, a função cardíaca e a qualidade de vida.

O que é a insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada?

Na insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, o coração mantém uma fração de ejeção do ventrículo esquerdo igual ou superior a 50%, mas isso não significa que o funcionamento cardiovascular seja normal.

O ventrículo pode apresentar maior rigidez e dificuldade em relaxar adequadamente durante a fase de enchimento. Consequentemente, o sistema cardiovascular pode ter dificuldade em aumentar suficientemente o débito cardíaco durante o exercício.

É precisamente durante o esforço que muitos sintomas se tornam evidentes. Uma pessoa pode sentir-se relativamente bem em repouso, mas apresentar falta de ar ou fadiga quando caminha rapidamente, sobe escadas ou realiza exercício.

Como foi realizada a nova investigação?

Os investigadores pesquisaram PubMed, Embase, Web of Science e Cochrane Library até 31 de dezembro de 2025.

Foram identificados 20 relatórios correspondentes a 15 ensaios clínicos randomizados. No conjunto dos estudos, foram randomizados 1.554 participantes, sendo 1.161 considerados após a eliminação de duplicações.

A idade média dos participantes foi de aproximadamente 69 anos e 63% eram mulheres. Cerca de 70% dos ensaios incluíram predominantemente pessoas classificadas nas classes funcionais II–III da New York Heart Association.

Os investigadores utilizaram uma meta-análise em rede bayesiana, permitindo comparar diferentes modalidades de exercício mesmo quando nem todas tinham sido comparadas diretamente entre si.

Treino combinado de força e exercício aeróbio

Um dos resultados mais relevantes surgiu para o treino combinado de exercício aeróbio e resistência, designado no estudo por CART.

Esta abordagem apresentou uma melhoria significativa do VO₂ de pico, com um efeito padronizado de 0,58 e intervalo de credibilidade de 95% entre 0,31 e 0,86.

Em termos absolutos, o aumento estimado foi de aproximadamente 2,61 mL/kg/min.

Este resultado é relevante porque o VO₂ de pico representa uma medida objetiva da capacidade do organismo utilizar oxigénio durante o exercício e constitui um dos indicadores mais utilizados da capacidade funcional cardiorrespiratória.

HIIT também apresentou resultados positivos

O treino intervalado de alta intensidade, conhecido como HIIT, também apresentou melhoria significativa do VO₂ de pico.

O efeito padronizado foi de 0,56, com intervalo de credibilidade entre 0,07 e 1,09. O aumento estimado do VO₂ de pico foi de aproximadamente 2,52 mL/kg/min.

Estes resultados mostram que pessoas com HFpEF podem obter adaptações importantes da capacidade física através de diferentes estratégias de exercício.

No entanto, HIIT não deve ser interpretado como uma modalidade automaticamente adequada para qualquer pessoa com insuficiência cardíaca. A intensidade elevada exige uma seleção criteriosa dos participantes e uma progressão compatível com a condição clínica individual.

O exercício contínuo moderado também funcionou

O treino contínuo de intensidade moderada, designado por MCT, apresentou igualmente uma melhoria significativa do VO₂ de pico.

O efeito padronizado foi de 0,46, com intervalo de credibilidade de 0,23 a 0,70, correspondendo a um aumento estimado de aproximadamente 2,07 mL/kg/min.

Este resultado é importante porque mostra que os benefícios não dependem exclusivamente de métodos de elevada intensidade.

Para muitas pessoas, especialmente quando existe menor capacidade funcional ou maior carga de doença, um programa contínuo de intensidade moderada pode constituir uma forma mais simples de iniciar ou desenvolver a capacidade aeróbia.

Porque é importante aumentar o VO₂ de pico?

Na HFpEF, a limitação funcional é uma das principais dificuldades enfrentadas pelos doentes.

Melhorar a capacidade de utilizar oxigénio durante o exercício pode permitir realizar determinadas atividades com menor esforço relativo.

Uma melhoria de aproximadamente 2 mL/kg/min pode parecer pequena quando apresentada isoladamente, mas o estudo refere que os ganhos observados com treino combinado, HIIT e exercício contínuo moderado ultrapassaram a diferença mínima clinicamente importante de aproximadamente 1,0 mL/kg/min.

Assim, os resultados sugerem que as melhorias não são apenas estatisticamente detetáveis, podendo também ter relevância funcional.

E a qualidade de vida?

A relação entre exercício e qualidade de vida apresentou resultados mais complexos.

Entre as modalidades analisadas, a estimulação elétrica funcional, ou FES, foi a única intervenção cuja estimativa apresentou um intervalo de credibilidade que não incluiu zero para qualidade de vida.

O efeito estimado foi de 0,86, com intervalo de credibilidade de 0,25 a 1,48.

No entanto, esta conclusão baseou-se apenas em dois estudos e num total de 30 participantes. Por isso, não é possível considerar este resultado definitivo.

É um bom exemplo de como uma meta-análise em rede pode identificar sinais interessantes que necessitam de confirmação através de estudos maiores.

O exercício alterou a fração de ejeção?

Um dos aspetos mais interessantes da investigação foi a ausência de efeitos significativos sobre alguns marcadores cardíacos.

Nenhuma das modalidades analisadas demonstrou uma alteração significativa da fração de ejeção ventricular esquerda.

Também não foram observados efeitos significativos sobre o BNP, um biomarcador utilizado na avaliação da insuficiência cardíaca, ou sobre o índice de volume da aurícula esquerda.

Este resultado ajuda a compreender uma questão fundamental: melhorar a capacidade física não significa necessariamente alterar a fração de ejeção.

Uma pessoa pode tornar-se mais capaz de realizar exercício sem que a percentagem de sangue ejetada pelo ventrículo esquerdo sofra uma alteração mensurável.

O que isto significa para o treino?

Os resultados apoiam uma abordagem que combine diferentes componentes do exercício.

O treino aeróbio pode estimular o sistema cardiovascular e melhorar a capacidade funcional, enquanto o treino de resistência permite trabalhar força muscular e capacidade para realizar tarefas do quotidiano.

A combinação das duas modalidades pode ser particularmente interessante porque a limitação funcional não depende exclusivamente do coração. A massa muscular, a força, a capacidade periférica de utilizar oxigénio e a eficiência do movimento também contribuem para a tolerância ao esforço.

Por isso, um programa de exercício para uma pessoa com HFpEF não deverá ser pensado apenas como “treino cardiovascular”. A condição física global também importa.

A importância da progressão individual

Um dos aspetos que merece maior atenção é a progressão da intensidade.

Os participantes dos estudos apresentavam características diferentes e muitos encontravam-se nas classes funcionais II–III. Consequentemente, a mesma intensidade absoluta pode representar esforços muito diferentes para pessoas distintas.

Um programa adequado deve considerar sintomas, capacidade funcional, experiência anterior de exercício, resposta cardiovascular e recuperação entre sessões.

O objetivo não é simplesmente atingir uma determinada intensidade. É criar um estímulo suficiente para produzir adaptação sem ultrapassar a capacidade individual de recuperação e segurança.

Os resultados têm algumas limitações

Apesar do número total de participantes ser relevante, várias das comparações individuais basearam-se em poucos estudos.

Além disso, a heterogeneidade do VO₂ de pico foi substancial, com um I² de 65,8%. Isto significa que os resultados variaram consideravelmente entre os estudos.

Outro dado importante é a adesão ao exercício. Nos ensaios com duração igual ou inferior a 12 semanas, a conclusão das sessões situou-se entre 76% e 90%. Aos 12 meses, contudo, a adesão reportada foi de apenas 38,1%.

Este resultado mostra um desafio frequentemente esquecido: uma intervenção pode funcionar em condições experimentais, mas manter a adesão durante muitos meses é outra questão.

O exercício deve ser sustentável

Para pessoas com insuficiência cardíaca, a sustentabilidade do programa pode ser tão importante como a modalidade escolhida.

Um treino extremamente exigente que seja abandonado após algumas semanas terá pouca utilidade prática. Da mesma forma, um programa demasiado fácil pode não proporcionar estímulo suficiente.

A melhor estratégia de treino é aquela que consegue equilibrar estímulo, recuperação, segurança, progressão e adesão.

Conclusão

A nova meta-análise fornece evidência favorável ao exercício estruturado em pessoas com insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada.

O treino combinado de exercício aeróbio e resistência, o HIIT e o exercício contínuo moderado apresentaram melhorias significativas no VO₂ de pico, com ganhos superiores à diferença mínima clinicamente importante considerada pelos autores.

Ao mesmo tempo, não foram observadas alterações significativas na fração de ejeção, BNP ou volume da aurícula esquerda.

A mensagem mais importante é que a capacidade física pode melhorar mesmo quando determinados parâmetros estruturais ou funcionais do coração permanecem inalterados.

Para quem vive com HFpEF, o exercício deve ser integrado num plano individualizado e clinicamente acompanhado. A intensidade não é o único fator determinante: regularidade, progressão, recuperação e adesão são fundamentais para transformar o exercício numa intervenção sustentável.

Posso ajudar

Posso ajudar a estruturar exercício progressivo, combinando força e capacidade cardiovascular, com intensidade, volume e recuperação ajustados à condição clínica e objetivos individuais de cada pessoa.

Referências

  • Zheng J, Xiao T, Mendes M, Wang S. Exercise Training for Patients with Heart Failure with Preserved Ejection Fraction: A Systematic Review and Bayesian Network Meta-Analysis. ESC Heart Failure. 2026.
  • PubMed — PMID 42740707
  • DOI: 10.1093/eschf/xvag237