Durante muitos anos acreditou-se que existia uma “janela anabólica” de apenas 30 a 60 minutos após o treino de força. Segundo esta teoria, quem não ingerisse proteína imediatamente após terminar o treino perderia grande parte dos benefícios para o aumento da massa muscular.
Mas será que esta ideia continua a ser suportada pela ciência?
A resposta é mais tranquilizadora: a janela anabólica existe, mas é muito mais ampla do que se pensava.
O que acontece aos músculos durante o treino?
O treino de força estimula a síntese de proteína muscular, o processo responsável pela reparação e construção das fibras musculares.
No entanto, para que esse processo seja maximizado, o organismo necessita de aminoácidos provenientes da alimentação.
É por isso que a ingestão de proteína continua a ser importante para quem pretende ganhar massa muscular ou preservar músculo com o envelhecimento.
A janela anabólica não dura apenas 30 minutos
Estudos mais recentes mostram que o aumento da síntese proteica pode manter-se elevado durante 24 a 48 horas após uma sessão de treino de força.
Isto significa que os músculos continuam “recetivos” aos aminoácidos durante muito tempo.
Assim, perder os primeiros 30 minutos após o treino não significa perder o treino.
Então não importa quando comer?
Importa, mas menos do que muitas pessoas imaginam.
O fator mais importante é a quantidade total de proteína ingerida ao longo do dia.
Para a maioria das pessoas, consumir cerca de 1,2 a 1,6 g de proteína por quilograma de peso corporal por dia é suficiente para otimizar os ganhos de massa muscular. Em atletas ou durante fases de perda de gordura, esse valor pode subir para cerca de 2,2 g/kg/dia.
E se treinei em jejum?
Nesta situação, faz sentido ingerir proteína relativamente cedo após terminar o treino.
Como não existiam aminoácidos disponíveis provenientes de uma refeição anterior, uma ingestão de proteína nas primeiras uma a duas horas poderá ser vantajosa.
E se comi antes do treino?
Se realizou uma refeição rica em proteína uma a três horas antes do treino, ainda existem aminoácidos a circular no sangue durante várias horas.
Neste caso, não existe necessidade de correr para o batido logo após terminar a sessão.
Pode perfeitamente comer uma refeição normal uma ou duas horas depois.
Quanto de proteína é recomendado?
A maioria dos estudos aponta para cerca de:
- 20 a 40 gramas de proteína de elevada qualidade por refeição;
- aproximadamente 0,25 a 0,40 g de proteína por quilograma de peso corporal em cada refeição.
Para um adulto de 80 kg, isso corresponde aproximadamente a 20–32 g de proteína por refeição, embora pessoas mais velhas possam beneficiar de valores próximos do limite superior.
E os hidratos de carbono?
Após o treino, os hidratos ajudam a repor as reservas de glicogénio, sobretudo quando:
- existem dois treinos no mesmo dia;
- o treino foi muito intenso;
- pratica modalidades de resistência.
Para quem treina apenas uma vez por dia, a reposição do glicogénio ao longo das refeições seguintes costuma ser suficiente.
O mais importante continua a ser…
Em vez de se preocupar apenas com os primeiros minutos após o treino, concentre-se em:
- consumir proteína suficiente ao longo do dia;
- distribuir essa proteína por 3 a 5 refeições;
- treinar com progressão de carga;
- dormir bem;
- manter consistência durante semanas e meses.
São estes fatores que mais influenciam o aumento da massa muscular.
Aplicação prática
Na maioria das pessoas, uma boa estratégia consiste em ingerir uma refeição contendo proteína entre uma e duas horas após o treino.
Se treinou em jejum, poderá ser vantajoso comer um pouco mais cedo.
Se comeu antes do treino, pode aguardar tranquilamente até à refeição seguinte.
Conclusão
A ideia de que é obrigatório ingerir proteína nos primeiros 30 minutos após o treino é hoje considerada uma simplificação excessiva.
A ciência mostra que a janela anabólica é bastante mais longa e que o fator mais importante continua a ser a ingestão total de proteína diária, associada a um treino de força consistente e a uma boa recuperação.
Em vez de se preocupar com os minutos após terminar o treino, preocupe-se em construir hábitos consistentes que consiga manter durante anos. É essa regularidade que faz a maior diferença nos resultados.
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Nota: Este artigo tem caráter informativo e não substitui o aconselhamento individualizado por um médico ou nutricionista.
Referências científicas
- Schoenfeld BJ, Aragon AA. How much protein can the body use in a single meal for muscle-building? Implications for daily protein distribution. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2018. https://jissn.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12970-018-0215-1
- Aragon AA, Schoenfeld BJ. Nutrient Timing Revisited: Is There a Post-Exercise Anabolic Window? Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2013. https://jissn.biomedcentral.com/articles/10.1186/1550-2783-10-5
- Morton RW, et al. A Systematic Review, Meta-analysis and Meta-regression of Protein Supplementation on Resistance Training–Induced Gains in Muscle Mass and Strength. British Journal of Sports Medicine. 2018. https://bjsm.bmj.com/content/52/6/376
- International Society of Sports Nutrition Position Stand: Protein and Exercise. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2017. https://jissn.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12970-017-0177-8
- ACSM’s Guidelines for Exercise Testing and Prescription. American College of Sports Medicine.