A doença de Parkinson é uma doença neurológica progressiva que afeta principalmente os circuitos cerebrais envolvidos no controlo do movimento. Tremor, rigidez, lentidão dos movimentos e alterações do equilíbrio são alguns dos sintomas mais conhecidos. No entanto, a doença também pode ter consequências importantes sobre a força muscular, a capacidade funcional e a autonomia. É neste contexto que o treino de força assume um papel particularmente relevante.
Embora o exercício não cure a doença de Parkinson nem consiga substituir o tratamento médico, existe cada vez mais evidência de que a atividade física estruturada pode ajudar a preservar a capacidade funcional e a qualidade de vida. O treino de força pode ser uma das ferramentas utilizadas para combater a perda de capacidade física associada à doença.
Parkinson, movimento e força muscular
Na doença de Parkinson ocorre uma diminuição da disponibilidade de dopamina em determinadas regiões do cérebro, nomeadamente nos circuitos relacionados com o controlo dos movimentos. Esta alteração pode tornar os movimentos mais lentos e difíceis de iniciar.
Ao mesmo tempo, muitas pessoas com Parkinson tornam-se progressivamente menos ativas. A rigidez, a fadiga, o medo de cair e a dificuldade em caminhar podem levar a uma redução da atividade física diária.
É aqui que pode surgir um ciclo particularmente problemático: a doença dificulta o movimento, a pessoa movimenta-se menos, perde condição física e força muscular e, consequentemente, tarefas que anteriormente eram fáceis tornam-se mais exigentes.
Levantar-se de uma cadeira, subir escadas, transportar compras ou caminhar durante alguns minutos são exemplos de atividades que dependem da capacidade dos músculos para produzir força de forma coordenada.
O treino de força pode ajudar a interromper este ciclo.
Mais força pode significar mais autonomia
Uma das principais vantagens do treino de força numa pessoa com Parkinson não é necessariamente aumentar o tamanho dos músculos. O objetivo mais importante é melhorar a capacidade de utilizar esses músculos durante as atividades quotidianas.
Os músculos das pernas, por exemplo, desempenham um papel fundamental para levantar o corpo de uma cadeira, subir um degrau, caminhar e recuperar o equilíbrio.
Quando a força dos membros inferiores melhora, tarefas simples podem tornar-se menos exigentes.
Este aspeto é especialmente importante porque preservar a autonomia é um dos grandes objetivos do exercício na doença de Parkinson. Conseguir realizar as atividades diárias com menor esforço pode contribuir para manter a independência durante mais tempo.
Força não é apenas levantar pesos pesados
Quando se fala em treino de força, existe frequentemente a ideia de que é necessário utilizar cargas muito elevadas. Não é esse o objetivo.
O treino deve ser individualizado de acordo com a idade, experiência, condição física, sintomas, equilíbrio, mobilidade e outras doenças que possam existir.
Exercícios como sentar e levantar de uma cadeira, agachamentos assistidos, step-ups, remadas, exercícios de empurrar e movimentos para os músculos da anca e das pernas podem constituir uma excelente base.
A carga deve ser suficientemente elevada para estimular uma adaptação, mas sempre dentro de limites que permitam executar o movimento com segurança e boa técnica.
A importância da potência muscular
Para quem tem Parkinson, existe outro conceito particularmente interessante: a potência.
Força é a capacidade de produzir tensão muscular. Potência envolve produzir força rapidamente.
Esta diferença é importante no dia a dia.
Imagine uma pessoa que tropeça. Não basta possuir força muscular suficiente. É necessário conseguir utilizar essa força rapidamente para recuperar a estabilidade.
O mesmo acontece quando alguém precisa de se levantar rapidamente de uma cadeira ou dar um passo para evitar uma queda.
Por isso, depois de desenvolver uma boa base de força, o treino pode incluir exercícios realizados de forma mais rápida e controlada, sempre adaptados às capacidades da pessoa.
Não significa fazer movimentos explosivos indiscriminadamente. Significa treinar a capacidade de produzir força de forma rápida e funcional, com segurança.
O treino de força deve ser combinado com outros exercícios
Apesar da importância da força muscular, um programa de exercício para Parkinson não deve limitar-se à musculação.
A doença pode afetar simultaneamente força, equilíbrio, marcha, coordenação, amplitude dos movimentos e capacidade cardiovascular.
Por isso, uma abordagem completa pode combinar treino de força com exercício aeróbio, equilíbrio, mobilidade, coordenação e exercícios específicos de marcha.
O exercício aeróbio, como caminhar, bicicleta ou outras atividades adequadas à condição física da pessoa, pode melhorar a capacidade cardiovascular e contribuir para a manutenção da condição física geral.
Os exercícios de equilíbrio são igualmente importantes, sobretudo porque as alterações posturais e da marcha podem aumentar o risco de quedas.
Grandes movimentos podem ser particularmente importantes
Algumas pessoas com Parkinson desenvolvem movimentos progressivamente mais pequenos e lentos. Esta característica pode afetar a marcha, os gestos dos braços e outras atividades quotidianas.
Por isso, determinados programas de exercício procuram estimular movimentos amplos e deliberados.
Exagerar conscientemente a amplitude dos movimentos pode ajudar a contrariar a tendência para movimentos cada vez mais pequenos.
Neste contexto, o exercício não deve ser encarado apenas como uma forma de fortalecer músculos. Deve também ser utilizado para praticar movimentos que tenham significado funcional.
O exercício pode influenciar o cérebro?
Esta é uma das áreas mais interessantes da investigação atual.
O exercício físico provoca alterações fisiológicas no cérebro e está associado a mecanismos relacionados com neuroplasticidade, adaptação neuronal e fatores neurotróficos.
Estudos realizados em pessoas com Parkinson sugerem que o exercício pode ter efeitos benéficos sobre determinados sintomas motores e sobre a capacidade funcional.
No entanto, é importante evitar afirmações exageradas. Não existe atualmente evidência suficiente para afirmar que o treino de força interrompe a progressão da doença ou substitui a medicação.
A melhor forma de interpretar os resultados é considerar o exercício como uma importante ferramenta de tratamento complementar e de manutenção da capacidade física.
Quanto mais cedo começar, melhor?
A atividade física é importante em todas as fases da doença, mas manter uma boa condição física antes de existir uma grande perda de capacidade pode ser particularmente vantajoso.
Uma pessoa com maior reserva de força, equilíbrio e capacidade cardiovascular poderá ter mais recursos para enfrentar as limitações que possam surgir.
Isto não significa que uma pessoa com Parkinson avançado não beneficie de exercício. Pelo contrário. O programa deve simplesmente ser adaptado às suas capacidades e necessidades.
Em fases mais avançadas, pode ser necessário utilizar apoio, reduzir a complexidade dos exercícios, trabalhar com um profissional especializado e dar maior importância à prevenção de quedas.
Segurança em primeiro lugar
O treino de uma pessoa com Parkinson deve considerar as características individuais da doença.
Problemas de equilíbrio, episódios de bloqueio da marcha, tonturas, alterações da pressão arterial, fadiga ou dificuldades cognitivas podem modificar a forma como o exercício deve ser realizado.
Também é importante considerar o momento do dia em que os sintomas estão melhor controlados pela medicação.
Por isso, pessoas com Parkinson devem discutir o programa de exercício com os profissionais de saúde que acompanham a doença e, quando necessário, trabalhar com um profissional de exercício físico com experiência nesta população.
O objetivo final é preservar a independência
A verdadeira importância do treino de força no Parkinson não está apenas no número de quilos levantados ou no aumento da massa muscular.
Está na capacidade de continuar a fazer aquilo que dá independência à pessoa: levantar-se sozinho, caminhar, subir escadas, transportar objetos, brincar com os netos, sair de casa ou realizar as tarefas quotidianas.
O treino de força pode ajudar a preservar essa capacidade porque fornece ao organismo um estímulo para manter e desenvolver a força muscular.
Quando combinado com exercício aeróbio, equilíbrio, mobilidade, coordenação e treino funcional, pode fazer parte de uma estratégia abrangente para manter a capacidade física durante o processo de envelhecimento com Parkinson.
A mensagem mais importante é simples: ter Parkinson não significa que se deva deixar de treinar. Pelo contrário, o exercício deve fazer parte da estratégia de manutenção da função física, desde que seja devidamente adaptado à pessoa.
O objetivo não é apenas viver mais anos com a doença. É procurar viver esses anos com a maior autonomia, mobilidade e qualidade de vida possível.
Referências
- Parkinson’s Foundation — Exercise and Parkinson’s Disease
https://www.parkinson.org/living-with-parkinsons/treatment/exercise - World Health Organization — Parkinson disease
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/parkinson-disease - American College of Sports Medicine — Exercise and Physical Activity for Parkinson’s Disease
https://www.acsm.org/ - National Institute of Neurological Disorders and Stroke — Parkinson’s Disease
https://www.ninds.nih.gov/health-information/disorders/parkinsons-disease - Fox SH, Katzenschlager R, Lim SY, et al. International Parkinson and Movement Disorder Society evidence-based medicine review: Update on treatments for the motor symptoms of Parkinson’s disease. Movement Disorders.
https://movementdisorders.onlinelibrary.wiley.com/ - Mak MKY, Wong-Yu ISK, Shen X, Chung CLH. Long-term effects of exercise and physical activity in Parkinson disease. Nature Reviews Neurology.
https://www.nature.com/nrneurol/ - van der Kolk NM, King LA. Effects of exercise on mobility in people with Parkinson’s disease. Movement Disorders.
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