Imunossenescência: porque é que o sistema imunitário envelhece connosco?

Imunossenescência: porque é que o sistema imunitário envelhece connosco? August 23, 2026Leave a comment

À medida que envelhecemos, o sistema imunitário também sofre alterações. Este processo é conhecido como imunossenescência e ajuda a explicar por que razão as pessoas mais velhas podem tornar-se mais vulneráveis a infeções, algumas doenças e determinadas complicações relacionadas com o envelhecimento.

Mas dizer que o sistema imunitário “envelhece” não significa que simplesmente deixe de funcionar.

O que acontece é mais complexo.

O que muda no sistema imunitário com a idade?

O sistema imunitário é constituído por diferentes tipos de células, tecidos e moléculas que trabalham em conjunto para reconhecer e combater ameaças.

Com o envelhecimento, algumas destas componentes tornam-se menos eficientes.

Um dos exemplos mais conhecidos é o timo, um órgão onde ocorre a maturação de muitos linfócitos T. O timo começa a diminuir progressivamente de tamanho e atividade depois da infância e adolescência.

Consequentemente, o organismo tende a produzir menos células T “novas”, capazes de responder a agentes que nunca encontrou anteriormente.

Ao mesmo tempo, algumas populações de células imunitárias acumulam-se ao longo da vida depois de terem sido expostas repetidamente a vírus, bactérias e outros estímulos.

O resultado é uma alteração gradual do equilíbrio do sistema imunitário.

Menos capacidade não significa ausência de defesa

Apesar destas alterações, uma pessoa idosa continua a possuir um sistema imunitário perfeitamente funcional.

O problema é que a resposta pode ser diferente.

Pode existir menor capacidade para responder rapidamente a determinados agentes infecciosos, menor diversidade de células T e alterações na produção de anticorpos.

Além disso, o envelhecimento está frequentemente associado a níveis superiores de inflamação de baixo grau.

Este fenómeno é conhecido como inflammaging — uma inflamação crónica, geralmente de baixa intensidade, que pode acompanhar o envelhecimento.

Quando estes processos se combinam, podem contribuir para uma maior vulnerabilidade a determinadas doenças.

E os centenários?

É aqui que a investigação sobre longevidade se torna particularmente interessante.

Nem todas as pessoas envelhecem biologicamente da mesma forma.

Alguns centenários parecem conseguir preservar determinadas funções do sistema imunitário durante muito mais tempo do que seria esperado.

Em vez de simplesmente apresentarem uma versão “mais fraca” do sistema imunitário, podem apresentar uma reorganização particular das populações de células imunitárias.

Foi precisamente isto que chamou a atenção dos investigadores em estudos recentes sobre pessoas com mais de 100 anos.

Algumas destas pessoas apresentam proporções elevadas de determinados linfócitos T com capacidade citotóxica — células capazes de reconhecer e destruir determinadas células-alvo.

A longevidade pode depender da capacidade de adaptação

Esta é talvez uma das ideias mais importantes.

O envelhecimento não é necessariamente um processo em que todos os sistemas do organismo perdem função ao mesmo ritmo.

Algumas pessoas parecem conservar determinadas capacidades biológicas durante muito mais tempo.

No caso do sistema imunitário, isso pode significar manter uma boa capacidade para:

  • reconhecer agentes potencialmente perigosos;
  • eliminar células danificadas;
  • responder a infeções;
  • controlar determinadas células anormais;
  • regular a inflamação.

Ainda não sabemos se estas características são causa ou consequência da longevidade.

Mas estudá-las pode ajudar os investigadores a perceber porque é que algumas pessoas chegam aos 100 ou 110 anos mantendo uma saúde relativamente preservada.

Podemos impedir a imunossenescência?

Ainda não existe uma estratégia capaz de impedir completamente o envelhecimento do sistema imunitário.

No entanto, vários fatores associados a um envelhecimento saudável podem influenciar a função imunitária, incluindo atividade física regular, alimentação adequada, sono, vacinação, manutenção de uma composição corporal saudável e controlo dos fatores de risco cardiovasculares e metabólicos.

O objetivo não deve ser tentar tornar o sistema imunitário permanentemente “mais agressivo”.

Um sistema imunitário saudável precisa de duas coisas:

capacidade para combater ameaças e capacidade para controlar a própria resposta.

Uma resposta excessiva ou desregulada também pode ser prejudicial.

A grande questão da longevidade

A imunossenescência mostra-nos que envelhecer não significa simplesmente “perder capacidades”.

O organismo adapta-se.

E algumas pessoas parecem ser particularmente eficientes nessa adaptação.

É por isso que os centenários são tão importantes para a investigação científica: podem funcionar como uma espécie de laboratório natural para perceber como o organismo consegue manter determinadas funções durante muitas décadas.

Talvez o futuro da longevidade não passe apenas por procurar formas de prolongar a vida.

Passe também por descobrir como manter o sistema imunitário funcional durante mais tempo.

 

 

Referências

Nature — “How do people live beyond 110? Abundance of cancer-killing cells might be key”
https://www.nature.com/articles/d41586-026-02587-1

Cell Reports — estudo sobre células T CD4 citotóxicas em supercentenários
https://doi.org/10.1016/j.celrep.2026.117728

Nature Reviews Immunology — “The long-lived immune system of centenarians”
https://www.nature.com/articles/s41577-026-01291-5

National Institute on Aging — Immune System and Aging
https://www.nia.nih.gov/research/labs/lci/immune-system-and-aging

National Cancer Institute — Immunotherapy and the immune system
https://www.cancer.gov/about-cancer/treatment/types/immunotherapy

World Health Organization — Ageing and health
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/ageing-and-health