O jejum intermitente tem sido estudado sobretudo pelos seus possíveis efeitos sobre o peso corporal, metabolismo, glicemia e saúde cardiovascular. Agora, uma investigação publicada na revista científica Brain, Behavior, and Immunity acrescenta uma possibilidade particularmente interessante: o jejum intermitente poderá influenciar a dor crónica, a função cognitiva e a ansiedade através da ligação entre o intestino e o cérebro.
O estudo identificou uma possível cadeia biológica envolvendo o jejum, uma bactéria intestinal chamada Alistipes finegoldii, um metabolito denominado ácido hipúrico e uma via relacionada com a inflamação do sistema nervoso conhecida como STING.
Mas existe uma ressalva fundamental: os principais resultados foram obtidos em modelos animais, pelo que ainda não é possível afirmar que o jejum intermitente tenha o mesmo efeito em pessoas com dor crónica. (ScienceDirect)
A dor crónica não afeta apenas a sensação de dor
A dor neuropática é uma condição particularmente complexa.
Pode surgir depois de uma lesão ou alteração dos nervos e provocar sintomas como dor persistente, hipersensibilidade ao toque, sensação de queimadura ou respostas exageradas a estímulos que normalmente seriam pouco dolorosos.
Mas as consequências podem ir além da dor.
Pessoas com dor crónica apresentam frequentemente alterações do sono, ansiedade, alterações do humor e dificuldades cognitivas. A investigação tem demonstrado que dor persistente e alterações no funcionamento cerebral podem estar relacionadas através de processos como inflamação, alterações metabólicas e comunicação entre o intestino e o cérebro.
Foi precisamente esta relação que os investigadores procuraram estudar.
O que fizeram os investigadores?
A equipa utilizou vários modelos de dor crónica em ratos, incluindo modelos de lesão nervosa e inflamação.
Os animais foram submetidos a protocolos de jejum intermitente e posteriormente avaliados através de diferentes testes comportamentais.
Os investigadores procuraram perceber se o jejum poderia alterar:
- a sensibilidade à dor;
- a resposta a estímulos térmicos;
- determinadas capacidades cognitivas;
- comportamentos relacionados com ansiedade;
- a integridade da barreira intestinal;
- a inflamação no sistema nervoso;
- a composição da microbiota intestinal.
Os resultados apontaram para efeitos interessantes em várias destas áreas. (ScienceDirect)
Menos sensibilidade à dor
Nos modelos utilizados, o jejum intermitente reduziu sinais associados à alodinia mecânica e à hiperalgesia térmica.
A alodinia acontece quando um estímulo que normalmente não deveria provocar dor passa a ser doloroso.
Já a hiperalgesia corresponde a uma resposta exagerada a um estímulo que normalmente já poderia causar algum desconforto.
Nos animais submetidos ao jejum, estes comportamentos relacionados com a dor foram atenuados.
O efeito não surgiu apenas num único modelo experimental. Os investigadores observaram resultados semelhantes em diferentes modelos de dor crónica, o que aumentou o interesse pelo mecanismo biológico envolvido. (ScienceDirect)
E a memória?
Um dos aspetos mais interessantes da investigação foi a avaliação da função cognitiva.
Os animais com dor crónica apresentavam alterações cognitivas nos testes utilizados pelos investigadores. O jejum intermitente conseguiu atenuar algumas dessas alterações.
No modelo de constrição crónica do nervo, também foram observadas melhorias em comportamentos relacionados com ansiedade.
Isto é importante porque sugere que os efeitos do jejum, neste contexto experimental, podem não estar limitados à perceção da dor.
Os investigadores propõem que alterações na inflamação e na comunicação intestino-cérebro possam ajudar a explicar estes efeitos. (ScienceDirect)
O intestino parece ter um papel central
A parte mais fascinante do estudo começa quando os investigadores analisaram a microbiota intestinal.
O jejum intermitente modificou a composição das bactérias presentes no intestino e uma espécie destacou-se particularmente:
Alistipes finegoldii.
Esta bactéria tornou-se uma das espécies mais consistentemente enriquecidas nos animais submetidos ao jejum.
Mas os investigadores foram mais longe.
Em vez de apenas observar a alteração da microbiota, administraram a bactéria aos animais.
Os resultados sugeriram que a suplementação com A. finegoldii conseguiu reproduzir alguns dos efeitos observados com o jejum, nomeadamente efeitos relacionados com a dor e a função cognitiva. (ScienceDirect)
Isto não significa que tomar suplementos desta bactéria seja uma estratégia comprovada para tratar dor.
O estudo ainda está numa fase experimental e não demonstra que a utilização de Alistipes finegoldii em humanos seja segura ou eficaz.
O ácido hipúrico pode ser uma peça importante
Através de análises metabólicas, os investigadores identificaram outro elemento importante: o ácido hipúrico.
Este composto é um metabolito produzido através da interação entre substâncias provenientes da alimentação, a microbiota intestinal e o metabolismo do próprio organismo.
Segundo os investigadores, o jejum aumentou determinados níveis de ácido hipúrico e este aumento pareceu estar relacionado com os efeitos positivos observados.
Quando administraram ácido hipúrico aos animais, conseguiram reproduzir alguns dos efeitos associados ao jejum: melhorias nos comportamentos relacionados com dor, cognição e ansiedade.
A investigação também encontrou níveis séricos de ácido hipúrico mais baixos numa pequena coorte de pessoas com dor crónica quando comparadas com indivíduos sem dor, embora este resultado humano seja observacional e não prove que níveis baixos de ácido hipúrico causem dor. (ScienceDirect)
STING: uma nova ligação com a inflamação
A investigação identificou ainda uma via molecular chamada STING, sigla para Stimulator of Interferon Genes.
Esta via participa na resposta imunitária e inflamatória do organismo.
Os investigadores observaram que tanto o jejum intermitente como o ácido hipúrico diminuíram a atividade desta via em determinadas condições experimentais.
Mais importante ainda, quando os investigadores ativaram farmacologicamente a via STING, os benefícios associados ao ácido hipúrico desapareceram.
Este resultado levou-os a propor um mecanismo em cadeia:
Jejum intermitente → alteração da microbiota → aumento do ácido hipúrico → redução da sinalização STING → menor neuroinflamação → melhoria da dor e de alterações cognitivas. (ScienceDirect)
É uma hipótese mecanística bastante interessante, embora ainda necessite de ser confirmada em humanos.
Isto significa que o jejum trata a dor crónica?
Ainda não.
Esta é provavelmente a parte mais importante a esclarecer.
Apesar de os resultados serem promissores, a investigação foi essencialmente realizada em modelos animais.
Um rato com dor induzida experimentalmente não é equivalente a uma pessoa que vive há vários anos com neuropatia, fibromialgia, dor lombar, osteoartrose ou outra condição crónica.
Além disso, os protocolos de jejum utilizados em investigação animal podem não corresponder aos padrões de jejum intermitente praticados pelas pessoas.
Por isso, seria incorreto concluir que alguém com dor crónica deve começar a fazer jejum intermitente para substituir tratamentos médicos.
O estudo fornece sobretudo uma nova hipótese científica que merece ser testada em ensaios clínicos. (ScienceDirect)
Uma nova visão sobre a relação entre alimentação e dor
Apesar das limitações, este trabalho é interessante porque mostra como a alimentação pode potencialmente influenciar o sistema nervoso por mecanismos muito mais complexos do que simplesmente alterar o peso corporal ou a glicemia.
O intestino possui uma enorme comunidade de microrganismos capazes de produzir ou modificar moléculas biologicamente ativas.
Alguns desses compostos podem interagir com o sistema imunitário e, direta ou indiretamente, influenciar o cérebro.
É a chamada comunicação intestino-cérebro.
Neste estudo, o jejum pareceu funcionar como uma espécie de estímulo capaz de alterar esse ecossistema, favorecendo determinadas bactérias e modificando os metabolitos produzidos.
E para quem já pratica jejum intermitente?
Os resultados são interessantes, mas não justificam aumentar automaticamente a duração do jejum.
Um estudo realizado em ratos não permite determinar qual seria o melhor protocolo para seres humanos — nem sequer se um protocolo específico seria eficaz.
Além disso, o jejum pode não ser adequado para todas as pessoas. Idade, medicamentos, diabetes, baixo peso, historial de perturbações alimentares, gravidez e várias outras situações podem alterar completamente a relação entre riscos e benefícios.
O objetivo da investigação científica não é encontrar uma regra universal como “quanto mais tempo sem comer, melhor”.
É perceber como diferentes padrões alimentares podem modificar processos biológicos específicos e, eventualmente, transformar esse conhecimento em intervenções seguras e eficazes.
O futuro pode estar nos metabolitos, e não apenas no jejum
Talvez uma das implicações mais interessantes deste trabalho seja precisamente esta.
Se estudos futuros confirmarem que o ácido hipúrico desempenha um papel importante na redução da neuroinflamação e da dor, poderá ser possível desenvolver estratégias que reproduzam determinados efeitos do jejum sem obrigatoriamente exigir períodos prolongados sem comer.
Da mesma forma, compreender como a microbiota produz determinados metabolitos poderá abrir portas para novas abordagens terapêuticas.
Em vez de pensar apenas em medicamentos que atuam diretamente sobre a dor, os investigadores poderão procurar formas de modificar o ambiente intestinal, a microbiota ou os seus metabolitos para influenciar o sistema nervoso.
É uma área ainda em desenvolvimento, mas que está a tornar-se cada vez mais relevante.
A grande mensagem do estudo
Este trabalho não demonstra que o jejum intermitente seja uma cura para a dor crónica.
Demonstra algo diferente e potencialmente mais importante: existe uma ligação experimental entre o jejum, a microbiota intestinal, determinados metabolitos e mecanismos neuroimunes envolvidos na dor e na cognição.
A identificação da sequência Alistipes finegoldii → ácido hipúrico → STING fornece aos investigadores uma nova pista para compreender esta relação.
Agora será necessário descobrir se o mesmo mecanismo existe em seres humanos e, sobretudo, se pode ser utilizado de forma segura para melhorar a qualidade de vida de pessoas com dor crónica.
Por enquanto, o resultado deve ser encarado como uma descoberta experimental promissora, e não como uma recomendação clínica.
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Referências e links
- Brain, Behavior, and Immunity — estudo científico completo sobre jejum, dor, microbiota e ácido hipúrico — Consultar o artigo original
- DOI 10.1016/j.bbi.2026.106949 — identificação e referência científica do estudo — Consultar o DOI do artigo
- JoVE Visualize — resumo dos métodos e principais resultados da investigação — Consultar o resumo visual do estudo
- PubMed — referência bibliográfica do estudo — Consultar a publicação científica