Os produtos à base de plantas são frequentemente associados a uma ideia de naturalidade e segurança. No entanto, serem derivados de plantas não significa que estejam necessariamente livres de contaminantes. Uma nova revisão sistemática e meta-análise publicada em setembro de 2026 analisou precisamente a presença de metais pesados em medicamentos e produtos à base de plantas.
O trabalho reuniu 70 estudos realizados em 27 países ou territórios e avaliou principalmente quatro metais potencialmente tóxicos: chumbo, cádmio, mercúrio e arsénio. Os resultados mostram uma grande variabilidade entre produtos e regiões, reforçando a importância do controlo de qualidade e da monitorização destes produtos.
Data do estudo mais recente: 14 de setembro de 2026.
O que são metais pesados?
O termo metais pesados é utilizado frequentemente para descrever elementos como chumbo, cádmio e mercúrio, embora a classificação científica possa variar consoante o contexto. O arsénio, apesar de ser um metaloide, é habitualmente incluído neste tipo de avaliação devido à sua relevância toxicológica.
A exposição excessiva a estes contaminantes pode representar um problema de saúde pública. O risco depende da quantidade ingerida, da frequência de exposição, da duração, da forma química do elemento e das características individuais.
O problema não é exclusivo dos produtos à base de plantas. Os metais podem estar presentes no ambiente, na água, no solo e em diferentes alimentos. As plantas podem absorver determinados elementos presentes no solo ou na água e, posteriormente, estes podem chegar aos produtos preparados a partir delas.
Porque podem existir metais pesados nos produtos à base de plantas?
As plantas crescem num ambiente onde estão naturalmente expostas ao solo, água e atmosfera. Quando determinados contaminantes estão presentes nesses meios, algumas espécies vegetais podem absorvê-los.
A origem da contaminação pode ser ambiental, agrícola, industrial ou relacionada com o próprio processamento. A qualidade das matérias-primas, as condições de cultivo, a localização geográfica e os processos utilizados depois da colheita podem influenciar a composição final do produto.
Por isso, dois produtos aparentemente semelhantes podem apresentar concentrações diferentes de determinados contaminantes.
O que analisou a nova meta-análise?
Os investigadores realizaram uma revisão sistemática da literatura científica disponível até junho de 2026. Foram pesquisadas várias bases de dados internacionais, incluindo PubMed, Scopus, Web of Science e CINAHL.
Foram incluídos 70 estudos provenientes de 27 países ou territórios. Os investigadores analisaram quatro elementos principais: chumbo, cádmio, mercúrio e arsénio.
A análise estatística estimou concentrações médias agrupadas para cada metal e procurou também perceber se determinadas características dos produtos ou dos países poderiam ajudar a explicar a grande variabilidade encontrada entre os estudos.
Quais foram as concentrações encontradas?
Nos medicamentos e produtos à base de plantas analisados, as concentrações médias agrupadas foram aproximadamente:
- Chumbo: 1,930 mg/kg;
- Cádmio: 0,206 mg/kg;
- Mercúrio: 0,122 mg/kg;
- Arsénio: 0,501 mg/kg.
Estes valores devem ser interpretados com cautela. A existência de uma concentração média numa meta-análise não significa que todos os produtos apresentem essa concentração. Pelo contrário, os investigadores encontraram uma heterogeneidade considerável entre os estudos.
Nem todos os produtos apresentam o mesmo risco
Um dos aspetos mais importantes desta investigação é precisamente a grande variabilidade encontrada.
A concentração de determinados metais parece depender do tipo de produto, da origem geográfica e de outras características relacionadas com a produção. Por exemplo, os investigadores encontraram diferenças significativas nas concentrações de cádmio entre diferentes classificações de produtos, com valores superiores em matérias-primas vegetais não processadas relativamente a produtos formulados.
Também foram observadas diferenças nas concentrações de chumbo de acordo com o grupo de rendimento dos países analisados.
Esta variabilidade significa que não é correto concluir que todos os produtos à base de plantas estão contaminados ou que todos representam um risco significativo.
Natural não significa automaticamente seguro
A palavra “natural” pode transmitir uma sensação de segurança, mas não é uma garantia de ausência de contaminantes.
Uma planta pode conter compostos biologicamente ativos potencialmente benéficos, mas também pode acumular substâncias indesejáveis presentes no ambiente. O mesmo princípio se aplica a outros produtos naturais: a origem natural de uma substância não determina, por si só, o seu perfil de segurança.
A segurança depende da composição, da dose, da exposição, da qualidade da matéria-prima e do controlo realizado durante a produção.
O problema do chumbo, cádmio, mercúrio e arsénio
Os quatro elementos analisados merecem atenção porque a exposição excessiva pode ter consequências para diferentes sistemas do organismo.
O chumbo está associado a efeitos adversos em vários órgãos e sistemas, enquanto o cádmio pode acumular-se no organismo e apresentar especial relevância para a saúde renal e óssea. O mercúrio apresenta diferentes formas químicas, com toxicidade variável. O arsénio também apresenta diferentes formas, sendo algumas particularmente relevantes do ponto de vista toxicológico.
Contudo, a avaliação do risco não deve basear-se simplesmente na deteção de um metal. É necessário considerar a concentração, a forma química, a quantidade consumida e a frequência de utilização.
Porque é importante o controlo de qualidade?
Os resultados desta revisão reforçam a importância de sistemas de controlo de qualidade para produtos à base de plantas.
Idealmente, a qualidade deve ser avaliada desde a produção da matéria-prima até ao produto final. A seleção das plantas, a localização das culturas, os métodos de processamento e armazenamento e os testes laboratoriais podem influenciar a segurança.
O estudo destaca precisamente a necessidade de reforçar a vigilância, melhorar a monitorização e harmonizar os critérios regulamentares utilizados para avaliar estes produtos.
Suplementos e produtos de plantas: como fazer uma escolha mais informada?
Para o consumidor, uma das principais mensagens é evitar generalizações. Nem todos os suplementos ou medicamentos à base de plantas são iguais.
É preferível optar por produtos provenientes de fabricantes que disponibilizem informação clara sobre a origem das matérias-primas e que utilizem sistemas de controlo de qualidade e testes laboratoriais apropriados.
Também é importante evitar a utilização indiscriminada de grandes quantidades de suplementos apenas porque são apresentados como naturais.
Quando existe utilização prolongada, associação de vários produtos ou utilização em pessoas com doenças crónicas ou medicação regular, a avaliação individual torna-se particularmente importante.
O que esta investigação não demonstra
Esta meta-análise não demonstra que os medicamentos à base de plantas sejam perigosos em geral. Também não permite concluir que uma determinada marca ou produto específico seja seguro ou inseguro.
O objetivo foi caracterizar a presença de determinados contaminantes na literatura científica disponível. Os próprios investigadores salientam que os resultados variam substancialmente entre produtos e contextos.
Além disso, comparar concentrações entre estudos pode ser difícil quando são utilizados diferentes limites regulamentares, diferentes categorias de produtos e diferentes métodos de avaliação.
Uma mensagem importante para a saúde e longevidade
A utilização de produtos à base de plantas pode fazer parte de diferentes estratégias de saúde, mas a qualidade deve ser considerada juntamente com a eficácia.
Quando procuramos melhorar a saúde a longo prazo, não basta perguntar se um produto é natural. É necessário perguntar se existe evidência científica para o benefício pretendido, qual é a dose utilizada, quais são os possíveis efeitos adversos e se existe controlo adequado da qualidade.
Esta abordagem é particularmente importante quando um suplemento é utilizado durante meses ou anos, porque uma exposição pequena mas repetida pode ter uma relevância diferente de uma utilização ocasional.
Conclusão
Uma nova revisão sistemática e meta-análise publicada em setembro de 2026 encontrou presença variável de chumbo, cádmio, mercúrio e arsénio em produtos e medicamentos à base de plantas analisados em 70 estudos de 27 países ou territórios.
Os resultados não significam que os produtos à base de plantas sejam perigosos por definição. Mostram, contudo, que “natural” não é sinónimo de “isento de contaminantes”. A origem das matérias-primas, o processo de produção e o controlo laboratorial podem fazer uma diferença importante.
A investigação reforça, por isso, a necessidade de maior vigilância, melhores sistemas de controlo de qualidade e critérios regulamentares mais harmonizados.
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