Menos açúcar nos primeiros anos de vida pode reduzir o risco de cancro em 34%? O que revela um novo estudo

Menos açúcar nos primeiros anos de vida pode reduzir o risco de cancro em 34%? O que revela um novo estudo August 24, 2026Leave a comment

Uma investigação recente sugere que uma menor exposição ao açúcar durante os primeiros anos de vida pode estar associada a um risco significativamente menor de desenvolver cancro antes dos 50 anos.

A alimentação durante os primeiros anos de vida pode deixar marcas no organismo durante décadas?

Um novo estudo publicado no American Journal of Clinical Nutrition sugere que sim. Os investigadores analisaram uma experiência natural criada pelo fim do racionamento de açúcar no Reino Unido, procurando perceber se a quantidade de açúcar disponível durante a gravidez e os primeiros anos de vida poderia estar relacionada com o risco de cancro na idade adulta. (ajcn.nutrition.org)

E os resultados chamaram a atenção.

O que aconteceu no Reino Unido?

Durante o período do pós-guerra, o Reino Unido manteve o açúcar sob racionamento. Essa restrição terminou em setembro de 1953, provocando uma alteração relativamente abrupta na disponibilidade de açúcar.

Os investigadores aproveitaram esta circunstância como uma espécie de “experiência natural”.

Foram analisados 63.819 participantes do UK Biobank, nascidos entre outubro de 1951 e março de 1956. Desta forma, foi possível comparar pessoas que passaram os primeiros meses ou anos de vida sob restrição de açúcar com pessoas que nasceram depois do fim do racionamento. (ajcn.nutrition.org)

O período considerado pelos investigadores foi particularmente importante: os chamados primeiros 1000 dias, que abrangem aproximadamente o período desde a conceção até aos dois anos de idade.

34% menos risco de cancro precoce

O resultado mais impressionante apareceu quando os investigadores analisaram os casos de cancro de início precoce, definido no estudo como um diagnóstico ocorrido até aos 50 anos.

As pessoas que estiveram expostas ao racionamento durante a gravidez e durante até 24 meses após o nascimento apresentaram um hazard ratio de 0,66.

Na interpretação utilizada pelos investigadores, isto corresponde a uma associação com aproximadamente 34% menos risco de diagnóstico de cancro antes dos 50 anos, comparativamente ao grupo que não esteve exposto ao racionamento. (ajcn.nutrition.org)

Além disso, pareceu existir uma relação dose-resposta.

Quanto maior foi o período de exposição à restrição de açúcar durante os primeiros anos de vida, maior foi a redução observada no risco de cancro precoce.

A exposição apenas durante a gravidez apresentou uma associação muito mais pequena e que não atingiu significância estatística. Já a exposição durante os primeiros 12 meses esteve associada a uma redução de cerca de 19%, enquanto a exposição durante 24 meses apresentou a associação mais forte. (ajcn.nutrition.org)

Mas atenção: não significa que o açúcar cause diretamente cancro

Esta é uma distinção fundamental.

O estudo não demonstrou que comer açúcar na infância provoca cancro décadas mais tarde.

Os investigadores utilizaram uma experiência natural baseada numa alteração populacional na disponibilidade de açúcar. Apesar de o desenho do estudo permitir investigar relações causais com maior profundidade do que uma simples associação observacional, continua a existir uma série de fatores que não podem ser completamente isolados.

Além disso, as pessoas estudadas nasceram há mais de 70 anos.

Os hábitos alimentares, o estilo de vida, a exposição ambiental e os cuidados de saúde daquela época são muito diferentes dos atuais.

Por isso, os resultados não devem ser transformados numa previsão individual.

O que poderá explicar os resultados?

Uma das hipóteses está relacionada com o desenvolvimento metabólico durante os primeiros anos de vida.

Os primeiros 1000 dias representam uma fase de enorme desenvolvimento do organismo. Durante este período ocorrem alterações importantes no metabolismo, sistema imunitário, crescimento e desenvolvimento dos diferentes órgãos.

Uma exposição elevada a açúcar poderá teoricamente influenciar alguns destes processos através de alterações metabólicas.

No entanto, é importante sublinhar que os mecanismos biológicos responsáveis pelo resultado observado ainda não estão demonstrados de forma definitiva.

O estudo sugere que o ambiente nutricional durante os primeiros anos de vida pode influenciar a idade em que determinadas doenças aparecem, mas não prova exatamente como isso acontece. (ajcn.nutrition.org)

O efeito desapareceu nas idades mais avançadas

Outro resultado particularmente interessante foi observado quando os investigadores acompanharam os participantes para além dos 50 anos.

A diferença na incidência de cancro foi mais evidente nos casos considerados de início precoce.

À medida que a idade avançava, a diferença entre os grupos foi diminuindo. Na análise até cerca dos 67 anos, as curvas de incidência acabaram por convergir e deixaram de apresentar uma diferença estatisticamente significativa. (ajcn.nutrition.org)

Isto levou os autores a propor uma hipótese interessante:

uma alimentação com menos açúcar nos primeiros anos de vida poderá influenciar principalmente o momento em que determinados tumores aparecem, em vez de eliminar completamente o risco de cancro.

E o risco de morrer de cancro?

Aqui existe outra nuance importante.

Apesar da associação com menor incidência de cancro precoce, não foi encontrada uma diferença significativa na mortalidade específica por cancro.

Ou seja, o estudo encontrou menos diagnósticos precoces entre as pessoas expostas ao racionamento, mas não demonstrou que essas pessoas tivessem menor probabilidade de morrer de cancro. (ajcn.nutrition.org)

Esta diferença é extremamente importante.

Menor incidência não significa necessariamente menor mortalidade.

Então devemos retirar o açúcar da alimentação das crianças?

Também não é essa a conclusão.

O açúcar não precisa de ser tratado como um alimento proibido. O verdadeiro objetivo deve ser evitar um consumo elevado e habitual de açúcares adicionados, particularmente através de refrigerantes, doces, bolachas, cereais açucarados e outros produtos ultraprocessados.

Uma alimentação infantil equilibrada deve privilegiar alimentos nutricionalmente densos, como:

  • Fruta;
  • Legumes e hortícolas;
  • Leguminosas;
  • Cereais pouco refinados;
  • Ovos, peixe e outras fontes de proteína;
  • Leite e derivados adequados à idade;
  • Frutos secos e sementes, quando apropriados e seguros para a criança.

A fruta inteira, por exemplo, contém açúcares naturais, mas também fornece fibra, água, vitaminas, minerais e outros compostos bioativos.

Por isso, “reduzir o açúcar” não significa eliminar a fruta.

Um estudo que muda a forma como pensamos a alimentação infantil

Talvez a principal mensagem desta investigação não seja simplesmente “menos açúcar é melhor”.

É perceber que o ambiente nutricional durante os primeiros anos de vida pode ter consequências que se prolongam durante muitas décadas.

O estudo encontrou uma associação particularmente forte entre exposição prolongada à restrição de açúcar nos primeiros 1000 dias e menor risco de cancro diagnosticado antes dos 50 anos. (ajcn.nutrition.org)

Mas é necessária prudência.

Não podemos afirmar que limitar o açúcar na infância irá reduzir o risco individual de cancro em exatamente 34%. O estudo analisou uma população específica, numa época histórica específica, utilizando uma experiência natural criada pelo racionamento.

São necessários outros estudos para confirmar estes resultados e compreender os mecanismos envolvidos.

Ainda assim, a investigação acrescenta uma peça interessante ao puzzle do envelhecimento e da prevenção das doenças.

Aquilo que acontece nos primeiros anos de vida pode não ficar apenas na infância. Pode acompanhar-nos durante décadas.

Referências

Artigo científico – The American Journal of Clinical Nutrition:
https://ajcn.nutrition.org/article/S0002-9165%2826%2900262-5/fulltext

PubMed:
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/

Estudo sobre restrição de açúcar nos primeiros 1000 dias e resultados cardiovasculares – The BMJ:
https://www.bmj.com/content/391/bmj-2024-083890

Estudo sobre consumo de bebidas açucaradas e risco de cancro – The BMJ:
https://www.bmj.com/content/366/bmj.l2408