Durante muitos anos, o ácido láctico — ou, mais corretamente, o lactato, a forma predominante no organismo — foi apresentado como um dos responsáveis pela fadiga muscular.
Hoje sabemos que esta visão está ultrapassada.
O lactato é uma importante molécula metabólica que pode ser utilizada como combustível por vários tecidos, incluindo o coração, os músculos e o cérebro. E novas investigações estão a mostrar que este processo pode ter uma importância maior do que se pensava.
O que acontece ao lactato durante o exercício?
Quando fazemos exercício, especialmente quando a intensidade aumenta, os músculos aumentam a produção de lactato.
Este lactato entra na circulação sanguínea e pode ser transportado para outros tecidos.
Um deles é o cérebro.
Durante o exercício, o cérebro aumenta a captação de lactato existente no sangue. Este pode atravessar a barreira hematoencefálica e ser utilizado pelos neurónios como substrato energético, contribuindo para a produção de ATP.
Ou seja, o cérebro não depende exclusivamente da glicose para obter energia.
Estudos realizados em humanos já demonstraram que, quando o lactato sanguíneo aumenta durante exercício intenso, o cérebro aumenta significativamente a sua utilização de lactato. (PubMed)
Um estudo de 2026 trouxe novos dados
Um estudo publicado em março de 2026 investigou diretamente o que acontece ao lactato no cérebro durante exercício prolongado.
Treze adultos saudáveis realizaram duas horas de ciclismo de intensidade variável.
Os investigadores observaram que o exercício fez o cérebro passar de uma situação de libertação de lactato para uma situação de captação de lactato.
Mais interessante ainda: a concentração de lactato no líquido cefalorraquidiano aproximadamente duplicou, passando de cerca de 1,1 para 2,2 mmol/L.
Os autores estimaram que esta acumulação poderia representar aproximadamente 15% de aumento na disponibilidade de ATP proveniente de carboidratos no cérebro. (PubMed)
Isto não significa, contudo, que o lactato seja o principal combustível do cérebro.
O estudo mostrou precisamente que ainda existe uma parte considerável do metabolismo cerebral durante o exercício que não é explicada pelo lactato. Portanto, é mais correto dizer que o lactato complementa outras fontes de energia, nomeadamente a glicose.
O lactato não é apenas combustível
Esta é talvez a parte mais interessante.
O lactato parece ter uma função que vai muito além de fornecer energia.
O cérebro possui mecanismos através dos quais os astrócitos — células de suporte do sistema nervoso — podem produzir lactato a partir do glicogénio e disponibilizá-lo aos neurónios.
Este mecanismo é conhecido como astrocyte-neuron lactate shuttle.
Experiências anteriores demonstraram que o lactato derivado do glicogénio cerebral pode ajudar a manter a produção de ATP durante exercício prolongado e contribuir para a manutenção da função neuronal. (PubMed)
Além disso, o lactato pode funcionar como uma molécula de sinalização, influenciando processos relacionados com plasticidade cerebral e adaptação ao exercício. (PubMed)
Então o lactato é “bom”?
Em determinadas circunstâncias, sim.
O problema está em continuar a pensar no lactato como uma substância simplesmente tóxica que se acumula nos músculos e provoca dor.
Na realidade, o lactato é uma molécula metabólica dinâmica, constantemente produzida, transportada, utilizada e reciclada pelo organismo.
Durante o exercício, pode funcionar como uma espécie de “ponte energética” entre diferentes órgãos.
O músculo produz lactato.
O sangue transporta-o.
O coração pode utilizá-lo.
E o cérebro também pode captá-lo e oxidá-lo para produzir energia.
E a sensação de ardor muscular?
Aqui existe outra confusão frequente.
O lactato não é o responsável pela dor muscular que sentimos no dia seguinte ao treino.
A sensação de ardor durante um esforço intenso está relacionada com várias alterações metabólicas associadas ao exercício, enquanto a dor muscular tardia resulta principalmente de processos relacionados com o dano e a resposta inflamatória provocados pelo exercício, sobretudo quando existe trabalho muscular não habitual.
Além disso, o lactato é rapidamente removido e reutilizado depois do exercício.
Mais exercício significa mais lactato para o cérebro?
Não devemos tirar essa conclusão.
Produzir mais lactato não significa automaticamente obter mais benefícios cerebrais.
O exercício provoca uma complexa resposta metabólica e neurológica, e os efeitos sobre o cérebro dependem da intensidade, duração, condição física e contexto individual.
Aliás, investigação de 2026 também levanta uma questão importante: excesso de exercício muito intenso pode não ser necessariamente melhor para o cérebro. Alguns trabalhos sugerem que existe uma relação mais complexa entre quantidade de exercício, lactato e função cerebral. (PubMed)
Portanto, não faz sentido tentar aumentar deliberadamente o lactato através de exercício extremo.
A verdadeira mensagem
A antiga ideia de que o lactato é simplesmente um “resíduo” produzido quando falta oxigénio está definitivamente ultrapassada.
O lactato é um combustível e uma molécula de sinalização.
Durante o exercício, o cérebro aumenta a sua capacidade de utilizar lactato proveniente da circulação. O estudo publicado em 2026 acrescenta evidência importante a esta relação, mostrando que o lactato também se acumula no líquido cefalorraquidiano durante exercício prolongado. (PubMed)
Isto ajuda a explicar uma das muitas razões pelas quais o exercício é tão interessante para o cérebro: quando treinamos o corpo, estamos também a modificar profundamente o metabolismo cerebral.
E talvez seja altura de deixar definitivamente para trás a velha ideia de que o lactato é apenas aquilo que o músculo produz quando “fica sem oxigénio”.
O lactato não é simplesmente um produto de desperdício. É uma moeda energética que o organismo sabe transportar, reutilizar e transformar em energia.
Referências
Strenuous Exercise Alters Brain Creatine and Glutamate/Glutamine in Humans — FASEB Journal / PubMed
Lactate fuels the human brain during exercise — PubMed
Astrocytic glycogen-derived lactate fuels the brain during exhaustive exercise — PNAS / PubMed