Um novo estudo sugere que aumentar de forma progressiva e individualizada a atividade física depois do cancro da mama pode estar associado a menor risco de morte, incluindo mortalidade específica por cancro da mama.
Mas existe uma questão importante: será que fazer mais exercício é sempre melhor?
A investigação mais recente aponta para uma resposta mais interessante. Para sobreviventes de cancro da mama, o exercício pode ser particularmente útil quando é adaptado às características, capacidade física e evolução clínica de cada pessoa.
O estudo foi publicado no JAMA Network Open em 13 de abril de 2026 e utilizou dados do Pathways Study, uma grande coorte de mulheres diagnosticadas com cancro da mama. Os investigadores utilizaram métodos de inferência causal para simular aquilo que aconteceria se diferentes estratégias de exercício fossem aplicadas a estas mulheres. (JAMA Network)
O que descobriu o estudo?
Os investigadores analisaram dois cenários diferentes.
No primeiro, tentaram reproduzir, através dos dados observacionais do Pathways Study, um ensaio clínico anterior que avaliou uma intervenção estruturada de exercício aeróbico em sobreviventes de cancro.
Foram incluídas 959 mulheres, com uma idade média de aproximadamente 58 anos.
Neste cenário, uma estratégia de exercício aeróbico esteve associada a uma redução estimada de 8,0 pontos percentuais no risco de mortalidade por todas as causas aos oito anos, quando comparada com uma estratégia semelhante à intervenção de educação para a saúde.
O resultado foi semelhante ao observado no ensaio clínico CHALLENGE que serviu como referência para esta primeira simulação. (JAMA Network)
Mas os investigadores quiseram ir mais longe.
E se o exercício fosse personalizado?
Esta foi provavelmente a parte mais interessante do trabalho.
Em vez de assumir que todas as sobreviventes de cancro da mama deveriam seguir exatamente o mesmo programa, os investigadores simularam estratégias de exercício adaptadas às características individuais e à evolução do estado de saúde.
Foram analisadas 2.107 mulheres, com idade média de aproximadamente 60 anos.
Estas mulheres tinham sido diagnosticadas com cancro da mama invasivo nos estádios I a III.
Durante o período de acompanhamento de 10 anos, ocorreram 321 mortes. (JAMA Network)
Os investigadores estimaram diferentes cenários de aumento da atividade física.
Um dos cenários mais interessantes consistia em aumentar o exercício aeróbico semanal em:
60 minutos de exercício vigoroso
ou
120 minutos de exercício moderado por semana.
Quando comparada com a ausência de intervenção, esta estratégia individualizada esteve associada a uma redução estimada de 3,1 pontos percentuais no risco de mortalidade por todas as causas aos 10 anos.
Mas o resultado torna-se ainda mais interessante quando se analisa especificamente o cancro da mama.
Menor mortalidade por cancro da mama
A estratégia que envolvia um aumento de 60 minutos de exercício vigoroso ou 120 minutos de exercício moderado por semana esteve associada a uma redução estimada de 2,4 pontos percentuais no risco de mortalidade específica por cancro da mama aos 10 anos.
O risco estimado de mortalidade por cancro da mama foi de aproximadamente 7,6% com esta estratégia, comparado com cerca de 10,0% no cenário sem intervenção. (JAMA Network)
É um resultado relevante.
Mas é fundamental interpretar corretamente estes números.
O estudo não demonstrou que o exercício impede diretamente a morte por cancro da mama.
Os investigadores utilizaram dados observacionais e métodos estatísticos para emular um ensaio clínico hipotético.
Por isso, os resultados sugerem um possível efeito benéfico, mas ainda é necessário confirmar estas conclusões através de ensaios clínicos randomizados.
Porque é que o exercício pode ser importante depois do cancro?
O exercício físico pode influenciar vários mecanismos relacionados com a saúde depois de um diagnóstico de cancro.
A atividade física regular pode ajudar a melhorar a capacidade cardiovascular, preservar massa muscular, controlar o peso corporal, melhorar a sensibilidade à insulina e contribuir para uma melhor saúde metabólica.
Também pode ajudar a combater um dos problemas frequentemente associados aos tratamentos contra o cancro: a perda de capacidade física.
Cirurgia, quimioterapia, radioterapia, terapias hormonais e outros tratamentos podem contribuir para fadiga, perda de força, redução da atividade física e diminuição da capacidade funcional.
Criar um ciclo de menor atividade pode ter consequências importantes.
A pessoa sente-se cansada, movimenta-se menos, perde capacidade física e posteriormente pode ter ainda mais dificuldade em realizar exercício.
O treino adequado pode ajudar a interromper este ciclo.
Mas mais exercício não significa necessariamente melhor
Esta é uma das mensagens mais importantes do estudo.
Os investigadores não defenderam simplesmente que todas as sobreviventes de cancro da mama deveriam fazer grandes quantidades de exercício.
Pelo contrário.
A estratégia analisada era adaptativa.
Isto significa que a quantidade de exercício deveria ser ajustada à evolução da pessoa.
Se surgissem determinadas condições clínicas relevantes — como enfarte do miocárdio, acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca, recorrência à distância ou inchaço que interferisse com o exercício — a estratégia deixava de exigir aumentos adicionais da atividade física. (JAMA Network)
Esta abordagem faz muito sentido.
Uma mulher que terminou o tratamento, está clinicamente estável e tem boa capacidade física não deve necessariamente receber o mesmo programa de exercício que outra pessoa que apresenta fadiga intensa, dor, linfedema ou limitações cardiovasculares.
Personalizar é diferente de simplesmente recomendar “faça exercício”.
Exercício depois do cancro da mama deve ser individualizado
Esta conclusão é particularmente importante.
Depois de um diagnóstico de cancro da mama, existem diferenças enormes entre pessoas.
A idade é diferente.
O estádio da doença é diferente.
Os tratamentos realizados são diferentes.
A capacidade cardiovascular é diferente.
A força muscular é diferente.
Os efeitos secundários são diferentes.
E a experiência de cada sobrevivente também é diferente.
Por isso, um programa de exercício deve considerar estas características.
Em algumas pessoas, o primeiro objetivo pode ser simplesmente voltar a caminhar regularmente.
Noutras, pode ser possível iniciar rapidamente treino de força e exercício cardiovascular estruturado.
Para outras, será necessário começar com sessões muito leves e aumentar progressivamente a duração e a intensidade.
O princípio é simples:
o exercício deve adaptar-se à pessoa — e não a pessoa ser obrigada a adaptar-se a um programa rígido.
E o treino de força?
Embora este estudo tenha analisado principalmente estratégias de exercício aeróbico, isto não significa que o treino de força deva ser ignorado.
Depois de tratamentos contra o cancro, preservar ou recuperar força muscular pode ser extremamente importante para a autonomia e qualidade de vida.
O treino de força pode ajudar a recuperar capacidade funcional, melhorar a composição corporal e facilitar tarefas do quotidiano.
Além disso, caminhar, andar de bicicleta ou realizar outro exercício cardiovascular pode não ser suficiente para recuperar toda a capacidade muscular perdida durante períodos de menor atividade.
Por isso, em muitas situações, um programa completo poderá combinar:
exercício cardiovascular + treino de força + mobilidade + recuperação adequada.
A combinação deve, naturalmente, ser adaptada ao estado clínico de cada pessoa.
Quanto exercício é necessário?
O estudo analisou diferentes estratégias e encontrou os resultados mais favoráveis com uma estratégia que aumentava o exercício aeróbico semanal em 60 minutos de intensidade vigorosa ou 120 minutos de intensidade moderada.
Isto não significa que todas as sobreviventes devam começar imediatamente com esses valores.
O estudo não testou uma receita universal.
Na realidade, a sua principal mensagem é precisamente a necessidade de adaptação individual.
Uma pessoa que atualmente faz muito pouco exercício pode beneficiar de começar com períodos curtos de caminhada e aumentar gradualmente.
Por outro lado, alguém que já é fisicamente ativo pode conseguir realizar sessões mais exigentes.
A progressão deve respeitar a capacidade atual e a resposta ao exercício.
Um estudo importante, mas com limitações
Apesar dos resultados promissores, existe uma razão para não transformar estas conclusões numa certeza absoluta.
O trabalho publicado no JAMA Network Open é um estudo de coorte com emulação de ensaios clínicos hipotéticos.
Os investigadores utilizaram dados observacionais do Pathways Study e métodos estatísticos avançados para estimar o que poderia acontecer sob diferentes estratégias de exercício.
Isso é diferente de colocar aleatoriamente milhares de mulheres em diferentes programas de exercício e acompanhá-las durante dez anos.
Os próprios autores concluem que é necessário realizar um ensaio randomizado para confirmar os resultados. (JAMA Network)
Existe ainda outra limitação: as participantes pertenciam a uma população integrada no sistema de saúde Kaiser Permanente Northern California, pelo que os resultados podem não ser diretamente generalizáveis para todas as sobreviventes de cancro da mama. (JAMA Network)
Portanto, devemos interpretar os resultados como evidência promissora, e não como prova definitiva de causalidade.
A mensagem mais importante para quem sobreviveu ao cancro da mama
Este estudo acrescenta uma peça importante à evidência existente sobre exercício e sobrevivência ao cancro.
A atividade física não deve ser vista apenas como uma ferramenta para perder peso ou melhorar a aparência.
Depois de um diagnóstico de cancro da mama, o exercício pode fazer parte de uma estratégia mais ampla para recuperar e preservar capacidade física, autonomia e saúde a longo prazo.
E talvez a principal conclusão seja que não existe um programa perfeito para todas as pessoas.
O melhor exercício é aquele que pode ser realizado de forma segura, progressiva e adaptada à condição individual.
Para algumas pessoas, isso pode começar com uma caminhada.
Para outras, pode envolver treino cardiovascular estruturado.
Para outras ainda, pode ser fundamental recuperar força muscular antes de aumentar significativamente a intensidade.
O importante é evitar dois extremos:
ficar completamente inativa por medo do exercício ou tentar fazer demasiado exercício demasiado cedo.
O caminho mais seguro e potencialmente mais eficaz pode estar no meio: progressão individualizada, acompanhamento e adaptação contínua.
Afinal, o exercício depois do cancro da mama pode aumentar a sobrevivência?
Os resultados deste novo estudo sugerem que estratégias de exercício individualizadas podem estar associadas a uma menor mortalidade por todas as causas e por cancro da mama em sobreviventes de cancro da mama.
Uma estratégia que aumentava o exercício aeróbico em 60 minutos de intensidade vigorosa ou 120 minutos de intensidade moderada por semana esteve associada a uma redução estimada de 3,1 pontos percentuais na mortalidade por todas as causas e de 2,4 pontos percentuais na mortalidade específica por cancro da mama aos 10 anos. (JAMA Network)
Mas a palavra-chave é “individualizado”.
O estudo não mostra que existe uma quantidade universal de exercício que todas as sobreviventes devem fazer.
Mostra algo potencialmente mais importante:
depois do cancro da mama, aumentar a atividade física de forma progressiva e adaptada às características e evolução de cada mulher pode estar associado a melhores resultados de sobrevivência.
São resultados promissores que reforçam a importância de integrar o exercício na abordagem à sobrevivência ao cancro — sempre com a devida adaptação ao estado clínico e às recomendações da equipa de saúde.
Posso ajudar
Posso ajudar a criar um programa individualizado de exercício, força e mobilidade, adaptado à condição física, objetivos, limitações e fase de recuperação de cada pessoa.
Nota importante
Este artigo apresenta resultados de investigação científica e não substitui aconselhamento médico. Pessoas que tiveram cancro da mama devem discutir o início ou progressão do exercício com a sua equipa de saúde, sobretudo quando existem complicações, sintomas ou efeitos secundários dos tratamentos.
Referências e links
Estudo principal — publicado em 13 de abril de 2026
Jayasekera J, Ergas IJ, Schneider J, et al. Tailored Exercise Strategies and Mortality Among Breast Cancer Survivors. JAMA Network Open. 2026;9(4):e265177. DOI: 10.1001/jamanetworkopen.2026.5177. (JAMA Network)
JAMA Network Open — estudo completo sobre exercício individualizado e mortalidade após cancro da mama
Ler o estudo completo no JAMA Network Open
PubMed — referência científica e resumo do estudo
Consultar o estudo no PubMed
JAMA Network Open — comentário científico sobre intervenções de exercício individualizadas após cancro da mama
Ler o comentário científico no JAMA Network Open