O que acontece no organismo durante o jejum?

O que acontece no organismo durante o jejum? January 15, 2026Leave a comment

Uma explicação baseada na ciência

O jejum faz parte da história da Humanidade há milhares de anos. Antes da agricultura, era normal passar várias horas, ou até dias, sem acesso a alimentos. Ainda hoje, muitas pessoas praticam jejum intermitente para controlar o peso, melhorar a saúde metabólica ou simplesmente porque se sentem melhor ao reduzir o número de refeições.

Mas o que acontece realmente no organismo quando deixamos de comer durante várias horas?

Ao contrário do que muitos pensam, o corpo não entra imediatamente em “modo de fome” nem começa a destruir músculo após algumas horas sem comer. Pelo contrário, ativa uma série de adaptações fisiológicas que permitem manter o fornecimento de energia aos órgãos vitais.

As primeiras horas após a refeição (0–4 horas)

Logo após comer, os hidratos de carbono são transformados em glicose, que entra na corrente sanguínea.

Nesta fase:

  • aumenta a libertação de insulina;
  • a glicose é utilizada como principal combustível;
  • parte da energia é armazenada sob a forma de glicogénio no fígado e nos músculos;
  • o excesso de energia pode ser armazenado como gordura, se existir um consumo calórico superior às necessidades.

Este é conhecido como o estado pós-prandial.

Entre 4 e 12 horas de jejum

À medida que a digestão termina:

  • os níveis de insulina começam a diminuir;
  • aumenta a libertação de glucagina;
  • o fígado começa a utilizar as reservas de glicogénio para manter os níveis normais de glicose no sangue.

A maioria das pessoas acorda nesta fase, após uma noite de sono.

Entre 12 e 24 horas

Nesta fase:

  • as reservas de glicogénio hepático diminuem progressivamente;
  • aumenta a utilização de gordura como fonte de energia;
  • os ácidos gordos libertados do tecido adiposo passam a ser utilizados por vários órgãos.

O cérebro continua a utilizar principalmente glicose, mas o organismo começa a preparar-se para produzir corpos cetónicos caso o jejum se prolongue.

Após cerca de 24 horas

Quando o jejum continua:

  • aumenta significativamente a produção de corpos cetónicos pelo fígado;
  • estes passam a fornecer parte da energia ao cérebro;
  • diminui a necessidade de produzir glicose a partir das proteínas musculares, ajudando a preservar a massa muscular.

Este mecanismo foi fundamental para a sobrevivência humana durante períodos de escassez alimentar.

O organismo “queima músculo”?

Este é um dos maiores mitos sobre o jejum.

Nas primeiras 24 horas, o organismo procura preservar a massa muscular.

Inicialmente utiliza:

  1. glicogénio;
  2. gordura corporal;
  3. corpos cetónicos (em jejuns mais prolongados).

A degradação significativa da massa muscular ocorre sobretudo em situações de desnutrição prolongada, doença grave ou jejuns muito prolongados sem ingestão adequada de nutrientes.

Em protocolos comuns de jejum intermitente (12 a 18 horas), quando existe ingestão suficiente de proteína e treino de força, não se observa perda relevante de massa muscular na maioria das pessoas.

O que acontece à insulina?

Durante o jejum:

  • a insulina diminui;
  • aumenta a sensibilidade das células à ação desta hormona;
  • reduz-se a produção de gordura pelo fígado;
  • facilita-se a mobilização da gordura armazenada.

Estes efeitos explicam parte dos benefícios observados em algumas pessoas com excesso de peso.

O que acontece à hormona do crescimento?

Durante o jejum verifica-se um aumento da hormona do crescimento (GH).

No entanto, este aumento não significa automaticamente maior crescimento muscular.

A principal função desta resposta parece ser ajudar a preservar tecidos e favorecer a utilização da gordura como combustível.

E a autofagia?

A autofagia é um processo natural através do qual as células removem componentes danificados e reciclam estruturas antigas.

Embora estudos em animais mostrem que o jejum pode estimular este mecanismo, ainda não sabemos exatamente:

  • quanto tempo de jejum é necessário em humanos;
  • qual a intensidade deste efeito;
  • qual o impacto clínico a longo prazo.

Por isso, não é correto afirmar que qualquer jejum de 16 horas “ativa fortemente a autofagia”.

O exercício durante o jejum

Treinar em jejum pode aumentar ligeiramente a utilização de gordura durante o exercício.

No entanto:

  • o gasto calórico total costuma ser semelhante;
  • o desempenho pode diminuir em exercícios muito intensos ou prolongados;
  • para hipertrofia, o mais importante continua a ser o treino, a proteína diária e a ingestão energética total.

O jejum melhora a saúde?

Pode melhorar, especialmente quando facilita:

  • perda de peso;
  • redução da gordura abdominal;
  • melhoria da sensibilidade à insulina;
  • redução da pressão arterial em algumas pessoas.

Contudo, muitos destes benefícios também são alcançados através de outros padrões alimentares saudáveis.

O jejum não é uma solução milagrosa, mas sim uma ferramenta que pode funcionar muito bem para determinadas pessoas.

Conclusão

Durante o jejum, o organismo passa gradualmente de um estado de utilização da glicose para uma maior utilização da gordura armazenada. Esta adaptação é normal, faz parte da nossa evolução e permite manter o fornecimento de energia durante períodos sem alimentação.

Apesar dos potenciais benefícios, o jejum não é obrigatório para ser saudável. O mais importante continua a ser manter uma alimentação equilibrada, praticar exercício regularmente, dormir bem e adaptar a estratégia alimentar ao seu estilo de vida.

 

 

Referências científicas

de Cabo R, Mattson MP. Effects of Intermittent Fasting on Health, Aging, and Disease. New England Journal of Medicine. 2019
https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMra1905136

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https://www.ahajournals.org/journal/circ

Varady KA, Cienfuegos S, Ezpeleta M, Gabel K. Clinical Application of Intermittent Fasting for Weight Loss: Progress and Future Directions. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics. 2021
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33549776/

Anton SD, Moehl K, Donahoo WT, et al. Flipping the Metabolic Switch: Understanding and Applying the Health Benefits of Fasting. Obesity. 2018
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29464905/

Mattson MP, Longo VD, Harvie M. Impact of Intermittent Fasting on Health and Disease Processes. Ageing Research Reviews. 2017
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27810402/

Leitura complementar

Lowe DA, Wu N, Rohdin-Bibby L, et al. Effects of Time-Restricted Eating on Weight Loss and Other Metabolic Parameters
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32525526/

Jamshed H, Beyl RA, Della Manna DL, et al. Early Time-Restricted Feeding Improves 24-hour Glucose Levels and Affects Markers of the Circadian Clock
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32060194/

 

 

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Sou Marcelo Barros, Personal Trainer desde 1995, especialista em exercício para patologias da coluna e do joelho, com formação em Osteopatia e P-DTR (Proprioceptive Deep Tendon Reflex).

Realizo avaliações presenciais no Lemon Fit, no Parque das Nações, e acompanhamento online, criando programas de treino e estratégias alimentares adaptadas aos seus objetivos e baseadas na melhor evidência científica.

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