Treinar força, querer ganhar massa muscular e preocupar-se com a composição corporal não significa ter vigorexia.
A vigorexia, também chamada dismorfia muscular ou muscle dysmorphia, caracteriza-se por uma preocupação persistente com a ideia de que o corpo é demasiado pequeno ou pouco musculado, mesmo quando a pessoa já apresenta uma musculatura desenvolvida.
Atualmente, a dismorfia muscular é considerada uma especificação da perturbação dismórfica corporal no DSM-5-TR. (Inbio)
Quando o treino deixa de ser saudável?
Uma pessoa pode gostar muito de musculação, treinar cinco vezes por semana e seguir uma alimentação rigorosa sem ter vigorexia.
O problema surge quando a preocupação com o tamanho e a definição muscular começa a dominar a vida da pessoa.
Pode existir uma sensação constante de que nunca se é suficientemente musculado.
Mesmo depois de ganhar vários quilos de massa muscular, a pessoa continua a olhar para o corpo e a pensar:
“Ainda sou demasiado pequeno.”
Esta perceção pode não corresponder à realidade.
Quais são os sinais de alerta?
Alguns comportamentos podem levantar suspeitas de dismorfia muscular:
- passar muito tempo a pensar no tamanho e aparência dos músculos;
- verificar frequentemente o corpo ao espelho;
- comparar constantemente o próprio corpo com o de outras pessoas;
- sentir ansiedade ou culpa quando não consegue treinar;
- continuar a treinar apesar de lesões ou problemas físicos;
- seguir dietas extremamente rígidas;
- evitar situações em que o corpo fique exposto por vergonha da aparência;
- deixar de participar em atividades sociais para não perder um treino ou uma refeição planeada;
- utilizar substâncias potencialmente perigosas para aumentar a massa muscular.
A característica fundamental não é simplesmente treinar muito, mas a preocupação e os comportamentos associados provocarem sofrimento ou interferirem significativamente com a vida quotidiana. (National Eating Disorders Association)
Vigorexia não é o mesmo que gostar de musculação
Esta distinção é particularmente importante.
Gostar de treinar ≠ vigorexia.
Uma pessoa pode ter objetivos ambiciosos de hipertrofia, controlar a alimentação e procurar melhorar continuamente a sua composição corporal.
Isso pode fazer parte de um estilo de vida saudável.
Na vigorexia, porém, existe uma preocupação desproporcional com a aparência e uma dificuldade em aceitar que o corpo já é suficientemente musculado.
O treino deixa de ser apenas uma ferramenta para melhorar a saúde ou a performance e passa a ser uma obrigação difícil de interromper.
Pode afetar a saúde física
O problema não está apenas na imagem corporal.
O exercício excessivo e compulsivo pode aumentar o risco de lesões musculares e articulares, fadiga e outros problemas físicos.
Algumas pessoas também recorrem a dietas extremas ou a substâncias para aumentar a massa muscular. O uso de esteroides anabolizantes, por exemplo, pode estar associado a consequências importantes para a saúde. (National Eating Disorders Association)
A dismorfia muscular também pode coexistir com ansiedade, depressão, problemas alimentares e outras perturbações psicológicas. (National Eating Disorders Association)
A vigorexia é mais frequente nos homens?
A dismorfia muscular pode afetar qualquer pessoa, mas parece ser mais comum em homens, particularmente entre praticantes de musculação e determinados grupos de atletas. (National Eating Disorders Association)
A crescente pressão para apresentar um corpo musculado nas redes sociais também tem sido apontada como um possível fator associado à insatisfação corporal e aos sintomas de dismorfia muscular. (National Eating Disorders Association)
Como é tratada?
A primeira etapa é reconhecer que existe um problema.
O tratamento pode envolver psicoterapia, particularmente abordagens utilizadas na perturbação dismórfica corporal, como a terapia cognitivo-comportamental.
Em determinados casos, pode também ser considerada medicação, sempre através de avaliação médica. Uma abordagem multidisciplinar envolvendo profissionais de saúde mental, medicina e nutrição pode ser útil. (National Eating Disorders Association)
A mensagem mais importante
Querer ser mais forte e musculado é normal. Sentir que nunca se é suficientemente musculado, mesmo quando o corpo já é muito desenvolvido, pode ser um sinal de dismorfia muscular.
O objetivo do treino deve ser melhorar a força, a saúde, a funcionalidade e a qualidade de vida — e não transformar o exercício numa obrigação que controla toda a vida.
Se a preocupação com o corpo, o treino ou a alimentação estiver a causar sofrimento ou a interferir com relações, trabalho ou vida social, é importante procurar avaliação de um profissional de saúde.
Referências
- National Eating Disorders Association — Muscle Dysmorphia
https://www.nationaleatingdisorders.org/muscle-dysmorphia/ - NCBI Bookshelf — Body Dysmorphic Disorder
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK555901/ - PubMed — Muscle Dysmorphia: An Overview of Clinical Features and Treatment Options
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32755900/ - Ministério da Saúde do Brasil — Precisamos falar do excesso de atividade física: você sabe o que é vigorexia?
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/eu-quero-me-exercitar/noticias/2021/precisamos-falar-do-excesso-de-atividade-fisica-voce-sabe-o-que-e-vigorexia