Além dos cinco sentidos tradicionais (visão, audição, olfato, paladar e tato), o nosso cérebro recebe continuamente informações vindas do interior do corpo. Esta capacidade chama-se interoceção.
A interoceção permite ao cérebro monitorizar o estado dos órgãos internos, dos músculos e de diversos sistemas do organismo. Graças a ela, conseguimos perceber se temos fome, sede, frio, calor, falta de ar, necessidade de ir à casa de banho ou até reconhecer quando o coração acelera durante um momento de ansiedade.
Nas últimas décadas, a investigação demonstrou que a interoceção desempenha um papel muito mais amplo do que se pensava. Está relacionada com a regulação das emoções, a perceção da dor, o controlo do stress, a recuperação após o exercício e até com a qualidade da postura.
Como funciona a interoceção?
Existem milhares de recetores distribuídos pelo corpo que enviam informação ao cérebro.
Estes recetores monitorizam continuamente fatores como:
- Frequência cardíaca;
- Respiração;
- Pressão arterial;
- Temperatura corporal;
- Distensão do estômago e dos intestinos;
- Estado dos músculos e das articulações;
- Inflamação;
- Equilíbrio dos líquidos corporais.
Grande parte desta informação viaja através do nervo vago e da medula espinal até chegar a áreas do cérebro, como a ínsula, o córtex cingulado anterior e outras regiões responsáveis pela consciência corporal.
O cérebro utiliza estes dados para ajustar automaticamente funções como a respiração, a circulação, a digestão e a tensão muscular.
Interoceção e dor
Uma das descobertas mais interessantes é a ligação entre a interoceção e a dor crónica.
Em muitas pessoas com dor persistente, o cérebro pode interpretar de forma exagerada alguns sinais vindos do corpo. Pequenas alterações musculares ou articulares podem ser percecionadas como ameaça, aumentando a sensação de dor mesmo quando já não existe uma lesão significativa.
Por isso, atualmente a dor é entendida como uma experiência produzida pelo cérebro com base na informação recebida do corpo, das emoções, das experiências anteriores e do contexto em que a pessoa se encontra.
A influência na postura
A postura depende da integração de vários sistemas:
- Visão;
- Sistema vestibular (equilíbrio);
- Proprioceção;
- Interoceção.
Quando o cérebro recebe sinais internos alterados — por exemplo, devido a inflamação, dor, fadiga, dificuldades respiratórias ou stress — pode modificar automaticamente o tónus muscular e a forma como distribuímos o peso do corpo.
É por isso que algumas pessoas adotam posturas de proteção após uma lesão ou durante períodos de elevado stress.
Exercício físico melhora a interoceção?
Sim.
O exercício regular parece melhorar a capacidade do cérebro interpretar corretamente os sinais provenientes do corpo.
Atividades como treino de força, caminhada, corrida, yoga, pilates e exercícios respiratórios aumentam a consciência corporal e podem contribuir para uma melhor regulação do sistema nervoso.
Além disso, o exercício reduz a inflamação, melhora o sono e aumenta a produção de substâncias benéficas para o cérebro, favorecendo um processamento mais eficiente dos sinais internos.
Interoceção e stress
Quando estamos sujeitos a stress prolongado, o cérebro pode tornar-se mais sensível aos sinais internos.
Isto pode originar sintomas como:
- Sensação constante de tensão;
- Respiração superficial;
- Palpitações;
- Maior perceção da dor;
- Fadiga;
- Ansiedade.
Aprender a respirar corretamente, praticar exercício e melhorar o sono ajuda a “recalibrar” este sistema.
Como melhorar a interoceção?
Algumas estratégias com evidência científica incluem:
- Exercício físico regular;
- Treino de força;
- Exercícios respiratórios diafragmáticos;
- Sono de qualidade;
- Boa hidratação;
- Alimentação equilibrada;
- Técnicas de relaxamento e mindfulness;
- Redução do sedentarismo.
Conclusão
A interoceção é um dos sistemas mais importantes do organismo, embora seja pouco conhecida. Ela permite ao cérebro monitorizar constantemente o estado interno do corpo e ajustar funções essenciais para manter o equilíbrio.
Quando funciona corretamente, contribui para uma melhor regulação da dor, da postura, das emoções e da saúde em geral. Por outro lado, alterações na interoceção podem estar associadas a dor crónica, ansiedade e dificuldades no controlo do movimento.
Compreender este “sentido interno” ajuda-nos a perceber que cuidar do corpo através do exercício, do sono, da respiração e de hábitos saudáveis beneficia não apenas os músculos e as articulações, mas também a forma como o cérebro interpreta os sinais do organismo.
Posso ajudar?
Se sente dores persistentes, alterações da postura ou pretende melhorar a forma como o seu corpo se movimenta, posso ajudá-lo.
Sou Personal Trainer desde 1995, especialista em exercício para pessoas com dor e problemas da coluna e do joelho, com formação em Osteopatia e P-DTR (Proprioceptive Deep Tendon Reflex).
Pode marcar uma avaliação presencial ou online através da página Contacto do site.
Referências científicas
- Craig AD. How Do You Feel? Interoception: The Sense of the Physiological Condition of the Body. Nature Reviews Neuroscience. 2002.
- Craig AD. Interoception and Emotion. Current Opinion in Neurobiology. 2009.
- Khalsa SS et al. The Interoception System: A Comprehensive Review. The Lancet Psychiatry. 2018.
- Critchley HD, Garfinkel SN. Interoception and Emotion. Current Opinion in Psychology. 2017.
Nota importante: Este artigo tem fins exclusivamente informativos e educativos. Não substitui a avaliação por um profissional de saúde. As recomendações apresentadas devem ser adaptadas às características e necessidades de cada pessoa.