Pessoas que vivem mais de 100 anos têm mais células capazes de combater o cancro?

Pessoas que vivem mais de 100 anos têm mais células capazes de combater o cancro? August 23, 2026Leave a comment

Um novo estudo encontrou uma característica surpreendente no sistema imunitário de pessoas que chegam aos 100 e, sobretudo, aos 110 anos: uma maior quantidade de células T citotóxicas, capazes de destruir células doentes. Poderá esta ser uma das razões pelas quais algumas pessoas conseguem envelhecer com uma saúde extraordinária?

Chegar aos 100 anos é raro. Chegar aos 110 é ainda mais extraordinário.

Mas existe algo particularmente interessante nestas pessoas: muitas conseguem atingir idades muito avançadas sem desenvolver algumas das doenças que normalmente associamos ao envelhecimento, incluindo determinados tipos de cancro.

Uma nova investigação ajuda a perceber uma possível explicação.

Os investigadores descobriram que pessoas com 100 anos ou mais apresentam uma quantidade elevada de um tipo pouco comum de célula do sistema imunitário conhecida como linfócito T CD4 citotóxico (CD4 CTL).

Estas células têm capacidade para reconhecer e destruir determinadas células-alvo, incluindo células infetadas e, potencialmente, células cancerígenas. (Nature)

O sistema imunitário não parece simplesmente “envelhecer”

Uma das ideias mais interessantes deste trabalho é que o envelhecimento do sistema imunitário pode não ser apenas uma história de perda de capacidade.

À medida que envelhecemos, é normal ocorrer imunossenescência — alterações progressivas no funcionamento do sistema imunitário.

No entanto, algumas pessoas parecem conseguir preservar uma função imunitária particularmente eficiente.

Uma revisão publicada este ano em Nature Reviews Immunology concluiu que muitos centenários apresentam características do sistema imunitário que se aproximam, em alguns aspetos, das observadas em pessoas muito mais jovens. (Nature)

E o novo estudo acrescenta um detalhe particularmente interessante.

Mais células “assassinas” depois dos 100 anos

Os investigadores analisaram pessoas de diferentes idades, incluindo centenários e supercentenários, definidos como pessoas com 110 anos ou mais.

Nos indivíduos mais jovens, os CD4 CTL representavam aproximadamente 4% dos linfócitos T.

Nos centenários, essa proporção rondava os 10%.

E nos supercentenários chegava a aproximadamente 18%.

Ou seja, a proporção destas células parecia aumentar de forma marcada nas pessoas que atingiam idades extremamente avançadas. (Nature)

Esta diferença é particularmente interessante porque os CD4 CTL são relativamente raros na população em geral.

Para que servem estas células?

Os linfócitos T fazem parte da chamada imunidade adaptativa, uma componente sofisticada das nossas defesas.

Alguns linfócitos T ajudam a coordenar a resposta imunitária.

Outros conseguem destruir diretamente células que apresentam determinados sinais de perigo.

Os CD4 CTL parecem ter precisamente esta capacidade citotóxica.

Já foram identificados em respostas contra infeções virais e existem evidências de que podem reconhecer e destruir determinados tipos de células cancerígenas. (Nature)

Isto levou os investigadores a perguntar:

será que estas células ajudam a explicar a extraordinária resistência dos supercentenários às doenças associadas ao envelhecimento?

Uma pista relacionada com o cancro

O estudo encontrou outro resultado curioso.

Os investigadores analisaram os recetores presentes nestas células e compararam-nos com bases de dados de células T provenientes de pessoas com cancro.

Encontraram cerca de 30 sequências semelhantes às observadas em pessoas com cancro, sendo as correspondências mais frequentes relacionadas com cancro do pulmão.

É importante, porém, não exagerar esta descoberta.

Os participantes estudados não tinham histórico conhecido de cancro, e os investigadores não conseguiram demonstrar que estas células estavam efetivamente a destruir tumores nos seus organismos.

O resultado é, portanto, uma pista, e não uma prova de que os supercentenários estejam constantemente a eliminar células cancerígenas. (Nature)

Poderá o sistema imunitário estar a eliminar células cancerígenas antes de elas formarem um tumor?

Esta é uma das hipóteses mais fascinantes.

O nosso organismo produz constantemente células que sofrem alterações.

Na maioria das situações, existem mecanismos capazes de reparar essas alterações ou eliminar células potencialmente perigosas.

O sistema imunitário participa nesse processo através da chamada vigilância imunitária contra o cancro.

É possível que algumas pessoas que conseguem envelhecer extraordinariamente bem mantenham determinados mecanismos de vigilância particularmente eficientes.

Neste contexto, uma população aumentada de células T citotóxicas poderia representar uma vantagem.

Mas ainda não sabemos se é exatamente isso que acontece.

O estudo foi pequeno

Existe uma limitação importante que não devemos esquecer.

A investigação incluiu apenas 28 participantes: oito pessoas entre os 70 e os 90 anos, dez centenários e dez supercentenários. (Nature)

Estudar pessoas com 110 anos é extremamente difícil porque simplesmente existem muito poucas.

Por isso, estes resultados precisam de ser confirmados em grupos maiores.

Além disso, os investigadores encontraram as células no sangue. Não conseguiram determinar diretamente para onde essas células estavam a migrar no organismo nem exatamente o que estavam a fazer nos diferentes tecidos.

Portanto, ainda não podemos afirmar que estas células são a causa da longevidade.

Não significa que ter mais células T seja suficiente para viver 110 anos

Esta distinção é fundamental.

O envelhecimento saudável é provavelmente resultado de uma combinação extraordinariamente complexa de fatores.

Genética, metabolismo, atividade física, alimentação, sono, exposição ambiental, saúde cardiovascular, composição corporal, microbioma e funcionamento do sistema imunitário podem interagir ao longo de décadas.

Os centenários não possuem necessariamente “um gene da longevidade” ou uma única característica que explique tudo.

A investigação mais recente aponta para algo muito mais interessante:

o organismo destas pessoas parece conseguir manter um equilíbrio biológico durante muito mais tempo.

A revisão publicada em Nature Reviews Immunology descreve precisamente várias características associadas aos centenários, incluindo menor inflamação crónica relacionada com o envelhecimento, manutenção da função imunitária e alterações favoráveis em diferentes componentes do sistema imunitário. (Nature)

E isto pode ajudar a desenvolver novos tratamentos?

Talvez.

Se futuras investigações demonstrarem que determinados tipos de células T contribuem efetivamente para proteger contra o cancro e outras doenças do envelhecimento, poderemos tentar compreender como estimular ou preservar essas respostas imunitárias.

No futuro, isso poderá contribuir para novas estratégias de prevenção ou tratamentos baseados no sistema imunitário.

Mas estamos ainda longe de poder transformar esta descoberta numa intervenção prática.

Não existe atualmente uma forma comprovada de simplesmente “aumentar os CD4 CTL” e obter os benefícios observados nos supercentenários.

O verdadeiro segredo pode estar na capacidade de adaptação

Talvez a conclusão mais interessante deste estudo seja esta:

envelhecer não significa necessariamente que todos os sistemas do organismo tenham de perder capacidade ao mesmo ritmo.

Nos supercentenários, o sistema imunitário parece sofrer uma espécie de reorganização.

Em vez de simplesmente entrar em declínio, determinadas populações celulares podem tornar-se mais abundantes ou assumir funções diferentes.

O estudo sugere que esta adaptação poderá ter começado por volta dos 100 anos, tornando-se ainda mais evidente depois dos 110. (Nature)

E isso muda a forma como pensamos sobre longevidade.

Talvez o objetivo não seja simplesmente viver mais anos.

Talvez seja conseguir manter, durante mais tempo, a capacidade do organismo para reparar danos, controlar a inflamação, combater infeções e identificar células potencialmente perigosas.

Em resumo

🔹 Centenários e supercentenários apresentam características particulares do sistema imunitário.

🔹 Um novo estudo encontrou uma maior proporção de linfócitos T CD4 citotóxicos nestas pessoas.

🔹 Estas células podem destruir determinadas células-alvo e poderão participar na vigilância contra células cancerígenas.

🔹 Nos participantes, estas células representavam cerca de 4% dos linfócitos T nos mais jovens, 10% nos centenários e 18% nos supercentenários. (Nature)

🔹 Foram encontradas pistas que ligam os recetores destas células a respostas observadas em pessoas com cancro, mas não foi demonstrado que estejam a prevenir o cancro.

🔹 O estudo foi pequeno e não prova que estas células sejam responsáveis pela longevidade.

🔹 A investigação sugere, contudo, que algumas pessoas extremamente longevas conseguem manter e reorganizar o sistema imunitário de forma excecional.

Talvez uma das perguntas mais importantes da investigação sobre longevidade deixe de ser apenas:

“Como conseguimos viver mais?”

E passe a ser:

“Como conseguimos manter as nossas defesas biológicas jovens durante mais tempo?”

Referências

Nature — “How do people live beyond 110? Abundance of cancer-killing cells might be key”
https://www.nature.com/articles/d41586-026-02587-1

Cell Reports — estudo sobre a expansão de células T CD4 citotóxicas em supercentenários
https://doi.org/10.1016/j.celrep.2026.117728

Nature Reviews Immunology — “The long-lived immune system of centenarians”
https://www.nature.com/articles/s41577-026-01291-5

World Cancer Research Fund — The immune system of centenarians
https://www.wcrf.org/about-us/news-and-blogs/the-immune-system-of-centenarians/

Nota: Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica ou aconselhamento profissional.