Porque tratar apenas o local da dor nem sempre resulta

Porque tratar apenas o local da dor nem sempre resulta March 10, 2026Leave a comment

 

Sente dor no joelho, faz tratamentos diretamente nessa zona, melhora durante alguns dias… mas a dor acaba por voltar?

Esta é uma situação muito frequente. Muitas pessoas acreditam que a origem da dor está sempre exatamente onde dói. No entanto, o corpo funciona como um sistema integrado, em que músculos, articulações e sistema nervoso trabalham em conjunto.

Por isso, tratar apenas a região dolorosa nem sempre resolve a verdadeira causa do problema.

A dor nem sempre indica a origem do problema

A dor é um sinal de alerta enviado pelo sistema nervoso. Embora muitas vezes corresponda à zona lesionada, nem sempre identifica a estrutura responsável pelo problema.

Por exemplo, uma pessoa pode sentir dor na parte da frente do joelho, mas a principal limitação estar relacionada com:

  • Fraqueza dos glúteos.
  • Rigidez do tornozelo.
  • Redução da mobilidade do hálux.
  • Alterações na mecânica da anca.
  • Défices de equilíbrio e controlo neuromuscular.

Se apenas forem tratados os sintomas no joelho, estes fatores podem manter-se e continuar a sobrecarregar a articulação.

O corpo funciona como uma cadeia

Quando caminhamos, corremos ou levantamos um objeto, praticamente todas as articulações participam no movimento.

Uma limitação numa região pode obrigar outra a compensar.

Imagine que o tornozelo perdeu mobilidade após uma entorse. Durante um agachamento, o joelho e a anca podem adaptar-se para permitir o movimento. Com o tempo, essa estratégia pode aumentar a carga sobre outras estruturas e contribuir para o aparecimento de dor.

O mesmo pode acontecer entre a coluna e a anca, entre o pé e o joelho ou entre a omoplata e o ombro.

A importância do sistema nervoso

Nem todas as limitações são provocadas por músculos fracos ou articulações rígidas.

O sistema nervoso controla continuamente a forma como nos movimentamos. Após uma lesão ou um episódio de dor, alguns músculos podem ser recrutados de forma menos eficiente, enquanto outros trabalham em excesso para compensar.

Este fenómeno ajuda a proteger a região lesionada numa fase inicial, mas, se persistir, pode alterar a qualidade do movimento e favorecer a manutenção da dor.

Tratar a causa e não apenas os sintomas

Quando o objetivo é obter resultados duradouros, é importante procurar os fatores que estão a contribuir para a dor.

Isso pode incluir:

  • Alterações da mobilidade.
  • Défices de força.
  • Diminuição do equilíbrio.
  • Alterações da marcha.
  • Falta de coordenação.
  • Sobrecarga repetitiva.
  • Progressão inadequada do treino.
  • Hábitos de vida, como sono insuficiente ou níveis elevados de stress.

Em muitos casos, é a combinação destes fatores que explica porque a dor persiste.

O papel da avaliação biomecânica

Uma avaliação biomecânica procura perceber como o corpo se movimenta no seu conjunto.

Durante a avaliação podem ser analisados:

  • A postura dinâmica.
  • A forma de caminhar.
  • O agachamento.
  • O equilíbrio.
  • A mobilidade das articulações.
  • A ativação muscular.
  • O controlo do movimento.

Esta informação ajuda a identificar possíveis compensações e a construir um plano de tratamento adaptado às necessidades de cada pessoa.

O exercício continua a ser fundamental

A evidência científica mostra que, para muitas dores músculo-esqueléticas, o exercício terapêutico é uma das intervenções mais eficazes.

Fortalecer os músculos, melhorar a mobilidade, treinar o equilíbrio e aumentar a capacidade física permite que o organismo suporte melhor as exigências do dia a dia.

As técnicas manuais podem ser úteis para aliviar a dor e facilitar o movimento em determinadas situações, mas os melhores resultados tendem a surgir quando são combinadas com exercício e educação.

O papel da Osteopatia e do P-DTR

Na minha prática clínica, a Osteopatia é utilizada para melhorar a mobilidade das articulações e dos tecidos quando essa abordagem está indicada, enquanto o P-DTR (Proprioceptive Deep Tendon Reflex) pode ser integrado na avaliação e no tratamento de alterações do controlo neuromuscular.

Embora a terapia manual e o P-DTR possam ser úteis em alguns casos, o plano de tratamento é sempre complementado com exercício terapêutico e estratégias baseadas na melhor evidência científica disponível.

O que diz a ciência?

As recomendações internacionais para o tratamento da maioria das dores músculo-esqueléticas defendem uma abordagem individualizada.

Em vez de procurar apenas uma estrutura “culpada”, é mais eficaz identificar os fatores que contribuem para a dor e melhorar a capacidade do corpo para suportar carga e movimentar-se com confiança.

A dor raramente depende de uma única causa. É o resultado da interação entre fatores físicos, neurológicos, psicológicos e ambientais.

 

Referências científicas

Hartvigsen J, Hancock MJ, Kongsted A, et al. What Low Back Pain Is and Why We Need to Pay Attention. The Lancet. 2018
https://www.thelancet.com/article/S0140-6736(18)30480-X/fulltext

Hodges PW, Tucker K. Moving Differently in Pain: A New Theory to Explain the Adaptation to Pain. Pain. 2011
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21474308/

O’Sullivan P. It’s Time for Change With the Management of Persistent Musculoskeletal Pain. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy
https://www.jospt.org/doi/10.2519/jospt.2012.0103

American College of Sports Medicine. ACSM’s Guidelines for Exercise Testing and Prescription
https://acsm.org/education-resources/books/guidelines-exercise-testing-prescription/

National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Management of Musculoskeletal Conditions
https://www.nice.org.uk/guidance/ng59

Leitura complementar

Foster NE, Anema JR, Cherkin D, et al. Prevention and Treatment of Low Back Pain: Evidence, Challenges and Promising Directions. The Lancet. 2018
https://www.thelancet.com/article/S0140-6736(18)30489-6/fulltext

World Health Organization. Chronic Low Back Pain Guidelines
https://www.who.int/publications/i/item/9789240081789

 

 

Posso ajudar?

Se já fez vários tratamentos e a dor continua a regressar, talvez seja altura de olhar para o problema de uma forma mais abrangente.

Sou Marcelo Barros, Personal Trainer desde 1995, antigo Personal Trainer oficial da Men’s Health (2003–2015), especialista em joelho e coluna, com formação em Osteopatia e em P-DTR (Proprioceptive Deep Tendon Reflex).

Nas minhas avaliações procuro compreender como todo o corpo funciona, analisando a biomecânica, a mobilidade, a força, o equilíbrio e o controlo neuromuscular. A partir dessa avaliação, desenvolvo um plano de tratamento personalizado que pode incluir terapia manual, exercício terapêutico e estratégias para o ajudar a recuperar a função e reduzir a dor.

As consultas estão disponíveis presencialmente no Lemon Fit, no Parque das Nações (Lisboa), e também em formato online.

Se pretende perceber porque a sua dor persiste e encontrar uma abordagem adaptada ao seu caso, entre em contacto para agendar uma avaliação.