Já tentou contrair um músculo e sentiu que simplesmente não responde? Apesar do esforço, parece mais fraco do que o outro lado ou tem dificuldade em gerar força?
Muitas pessoas descrevem esta sensação como se o músculo estivesse “desligado”. Na realidade, o músculo raramente deixa de funcionar. O que normalmente acontece é que o sistema nervoso reduz a capacidade de o ativar.
Este fenómeno pode ocorrer após uma lesão, uma cirurgia ou um episódio de dor, e é uma das razões pelas quais algumas pessoas continuam com perda de força mesmo depois de os tecidos terem cicatrizado.
O músculo não desaparece
Para um músculo contrair, o cérebro envia um sinal através dos nervos até às fibras musculares.
Quando essa comunicação funciona corretamente, o músculo produz força.
Mas se o sistema nervoso interpretar que uma articulação ou um tecido está em risco, pode diminuir voluntariamente o recrutamento desse músculo como mecanismo de proteção.
O resultado é uma contração mais fraca, uma sensação de falta de controlo e, por vezes, compensações por parte de outros músculos.
As causas mais frequentes
Dor
A dor altera a forma como o cérebro controla o movimento.
Mesmo dores ligeiras podem reduzir temporariamente a ativação de determinados músculos.
Lesões articulares
Lesões do ligamento cruzado anterior (LCA), menisco, tornozelo ou ombro podem provocar uma diminuição da ativação muscular.
No joelho, este fenómeno é conhecido como inibição muscular artrogénica, estando bem documentado na literatura científica.
Derrame ou inflamação
Pequenas quantidades de líquido dentro de uma articulação podem reduzir significativamente a capacidade de ativar os músculos que a estabilizam.
Cirurgias
Após uma cirurgia é frequente existir perda temporária da ativação muscular.
Mesmo depois da cicatrização, algumas pessoas continuam com dificuldade em recrutar totalmente determinados músculos.
Falta de utilização
Quando um membro permanece imobilizado durante várias semanas, ocorre perda de massa muscular e diminuição da eficiência do sistema nervoso em recrutar essas fibras.
Quais os músculos mais afetados?
Alguns músculos são frequentemente alvo deste fenómeno, incluindo:
- Quadricípite após lesões do joelho.
- Glúteo médio em pessoas com dor na anca ou lombar.
- Glúteo máximo após períodos prolongados de sedentarismo ou dor.
- Trapézio inferior em algumas patologias do ombro.
- Músculos profundos da coluna em pessoas com dor lombar persistente.
Fortalecer chega?
Nem sempre.
Se o sistema nervoso continua a limitar a ativação do músculo, simplesmente aumentar o peso ou fazer mais repetições pode não resolver o problema.
Em muitos casos, é necessário combinar:
- Controlo da dor.
- Exercícios específicos de ativação.
- Fortalecimento progressivo.
- Treino de equilíbrio e proprioceção.
- Reeducação do movimento.
Como identificar um músculo “desligado”?
Uma avaliação clínica pode incluir:
- Testes de força.
- Testes de ativação muscular.
- Avaliação da mobilidade.
- Análise da marcha.
- Observação dos padrões de movimento.
- Testes funcionais.
O objetivo é perceber se existe perda de força por falta de massa muscular ou por diminuição do recrutamento neuromuscular.
O papel do P-DTR
Na abordagem do P-DTR (Proprioceptive Deep Tendon Reflex) procura-se identificar alterações na informação proveniente dos recetores sensoriais que possam estar a influenciar a ativação muscular.
Embora esta abordagem seja utilizada por alguns profissionais na prática clínica, ainda são necessários mais estudos independentes e de elevada qualidade para confirmar a sua eficácia e esclarecer os seus mecanismos.
Independentemente da técnica utilizada, o exercício terapêutico continua a ser um dos pilares fundamentais da recuperação.
O que diz a ciência?
A investigação demonstra que a perda de ativação muscular pode persistir durante semanas ou meses após uma lesão, mesmo quando a dor diminui e os tecidos já cicatrizaram.
Por isso, recuperar não significa apenas ganhar massa muscular. É igualmente importante restaurar a comunicação eficiente entre o cérebro e os músculos.
Referências científicas
Rice DA, McNair PJ. Quadriceps Arthrogenic Muscle Inhibition: Neural Mechanisms and Treatment Perspectives. Seminars in Arthritis and Rheumatism. 2010
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20056367/
Palmieri-Smith RM, Thomas AC. A Neuromuscular Mechanism of Post-traumatic Osteoarthritis. Exercise and Sport Sciences Reviews. 2009
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19352299/
Lepley LK. Deficits in Quadriceps Strength and Activation After ACL Injury. Sports Health. 2015
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4482305/
Hodges PW, Tucker K. Moving Differently in Pain: A New Theory to Explain the Adaptation to Pain. Pain. 2011
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21474308/
American College of Sports Medicine (ACSM). Guidelines for Exercise Testing and Prescription
https://acsm.org/education-resources/books/guidelines-exercise-testing-prescription/
Posso ajudar?
Se sente que um músculo perdeu força, tem dificuldade em contraí-lo ou continua com limitações após uma lesão, uma avaliação individual pode ajudar a identificar a origem do problema.
Sou Marcelo Barros, Personal Trainer desde 1995, antigo Personal Trainer oficial da Men’s Health (2003–2015), especialista em joelho e coluna, com formação em Osteopatia e em P-DTR (Proprioceptive Deep Tendon Reflex).
Realizo avaliações presenciais no Lemon Fit, no Parque das Nações (Lisboa), e acompanhamento online por videochamada.
O objetivo é identificar se existe uma alteração do controlo neuromuscular, limitações biomecânicas ou défices de força, desenvolvendo um plano de recuperação baseado na melhor evidência científica disponível e adaptado às suas necessidades.