Uma das perguntas mais frequentes entre quem pratica exercício físico é: “Posso continuar a treinar se tenho dor?”
A resposta não é tão simples como um sim ou um não.
Durante muitos anos acreditou-se que qualquer dor era um sinal claro para parar completamente a atividade física. Hoje sabemos que a realidade é mais complexa. Em muitos casos, o exercício pode fazer parte da solução e não do problema.
No entanto, também existem situações em que continuar a treinar pode agravar uma lesão ou atrasar a recuperação.
Perceber a diferença é fundamental.
Nem toda a dor é igual
Quando falamos de dor, é importante distinguir diferentes situações.
Dor muscular após o treino
É a conhecida dor muscular tardia, que normalmente surge entre 24 e 72 horas após um treino mais intenso ou diferente do habitual.
Caracteriza-se por:
- Sensação de rigidez muscular
- Sensibilidade ao toque
- Desconforto ao movimentar o músculo
- Melhoria progressiva ao longo dos dias
Neste caso, geralmente é seguro continuar a treinar, desde que a intensidade seja ajustada.
Aliás, o movimento ligeiro costuma ajudar a reduzir a sensação de rigidez.
Dor articular
Quando a dor surge numa articulação, como joelho, ombro, anca ou coluna, a situação merece maior atenção.
Alguns sinais de alerta incluem:
- Dor aguda durante o movimento
- Inchaço
- Instabilidade
- Limitação significativa da mobilidade
- Dor que piora progressivamente
Nestes casos, pode ser necessário modificar o treino ou procurar uma avaliação mais detalhada.
Dor relacionada com lesão
Uma lesão muscular, tendinosa, ligamentar ou articular exige uma abordagem individualizada.
A boa notícia é que muitas lesões não obrigam a parar completamente de treinar.
O segredo está em adaptar a carga e selecionar exercícios adequados.
A ciência mudou a forma de olhar para a dor
Antigamente era comum recomendar repouso absoluto para quase todos os problemas musculoesqueléticos.
Atualmente, a evidência científica mostra que o movimento controlado pode ser uma ferramenta importante na recuperação.
Em muitas condições, como:
- Dor lombar
- Tendinopatia rotuliana
- Tendinopatia de Aquiles
- Artrose
- Dor cervical
A atividade física adequada está associada a melhores resultados do que o repouso prolongado.
O corpo humano adapta-se ao movimento e tende a perder capacidade quando permanece demasiado tempo inativo.
A regra da dor durante o exercício
Uma estratégia frequentemente utilizada por fisioterapeutas e profissionais de exercício é a chamada escala da dor.
De forma simplificada:
Dor entre 0 e 3 em 10
Normalmente considerada aceitável.
O exercício pode continuar desde que a dor não aumente significativamente após o treino.
Dor entre 4 e 5 em 10
Pode ser tolerável em algumas situações, mas requer monitorização.
Pode ser necessário reduzir carga, volume ou amplitude do movimento.
Dor superior a 5 ou 6 em 10
Geralmente indica que o exercício deve ser ajustado ou interrompido.
Especialmente se a dor continuar a aumentar.
Esta não é uma regra absoluta, mas pode servir como orientação geral.
Quando treinar pode ajudar
Em muitos casos, o exercício bem orientado pode contribuir para:
- Reduzir a dor
- Melhorar a circulação
- Preservar massa muscular
- Melhorar a mobilidade
- Aumentar a confiança no movimento
- Melhorar a função física
Por exemplo, uma pessoa com artrose do joelho raramente beneficia de deixar de se movimentar completamente.
Pelo contrário, o fortalecimento muscular costuma ser uma das estratégias mais eficazes para melhorar a função e reduzir os sintomas.
Quando deve evitar treinar
Existem situações em que o treino deve ser interrompido e avaliado por um profissional de saúde.
Alguns sinais de alerta incluem:
- Dor intensa e súbita
- Estalido associado à lesão
- Perda significativa de força
- Inchaço importante
- Incapacidade de suportar peso
- Dormência persistente
- Formigueiro progressivo
- Perda de controlo muscular
- Dor no peito durante o exercício
- Falta de ar inexplicável
Nestes casos, a prioridade é identificar a causa do problema.
Como adaptar o treino quando existe dor?
Em vez de parar completamente, muitas vezes é possível modificar o programa.
Algumas estratégias incluem:
Reduzir a carga
Menos peso pode permitir continuar a treinar sem agravar os sintomas.
Diminuir a amplitude
Alguns movimentos podem ser tolerados apenas numa determinada amplitude.
Alterar o exercício
Por vezes basta trocar um exercício por outro semelhante.
Reduzir o volume
Menos séries ou menos repetições podem ser suficientes para controlar a irritação.
Trabalhar outras regiões
Mesmo quando uma zona está limitada, normalmente é possível continuar a treinar outras partes do corpo.
O papel do medo da dor
Um aspeto frequentemente ignorado é que a dor nem sempre significa dano.
O cérebro interpreta sinais provenientes do corpo e pode aumentar a sensibilidade quando percebe ameaça.
Por isso, algumas pessoas continuam a sentir dor mesmo depois dos tecidos estarem recuperados.
Isto não significa que a dor seja imaginária.
Significa apenas que a experiência da dor é influenciada por múltiplos fatores físicos, emocionais e neurológicos.
Compreender este conceito pode ajudar muitas pessoas a recuperar a confiança no movimento.
Conclusão
Sim, em muitos casos é possível treinar com dor.
Na verdade, o exercício adequado faz frequentemente parte do tratamento de diversas condições musculoesqueléticas.
Contudo, a dor não deve ser ignorada.
O mais importante é perceber a sua origem, intensidade e comportamento durante e após o treino.
Se a dor for ligeira e controlável, pode ser possível continuar a treinar com algumas adaptações. Se for intensa, progressiva ou acompanhada por sinais de alerta, uma avaliação profissional torna-se fundamental.
O objetivo não deve ser simplesmente treinar apesar da dor, mas sim encontrar a forma mais segura e eficaz de continuar a mover-se enquanto promove a recuperação.
Referências Científicas
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Posso ajudar?
Se tem dores no joelho, coluna, ombro, anca ou noutra articulação e pretende continuar a treinar de forma segura, posso ajudá-lo através de uma avaliação individualizada e de um plano de exercício adaptado às suas necessidades.
Atendo presencialmente e online. Consulte a página Contacto no menu do site para mais informações.
Nota: Este artigo tem fins exclusivamente informativos e educativos. Não substitui a avaliação, diagnóstico ou tratamento por um profissional de saúde qualificado.