Qual é a quantidade certa de proteína para cada fase da vida?

Qual é a quantidade certa de proteína para cada fase da vida? August 20, 2026Leave a comment

Da infância à velhice, a necessidade de proteína muda. O objetivo não deve ser comer o máximo possível, mas consumir a quantidade adequada para crescer, manter músculo, recuperar e envelhecer com autonomia.

Durante muito tempo, falar de proteína significava sobretudo falar de atletas e culturistas.

Hoje sabemos que a proteína é importante durante toda a vida.

Mas existe um erro frequente: pensar que a quantidade ideal é igual aos 10, aos 30, aos 50 ou aos 80 anos.

Não é.

As necessidades dependem da idade, peso corporal, crescimento, atividade física, composição corporal, estado nutricional e saúde.

E existe ainda uma questão fundamental: a quantidade necessária para evitar uma deficiência não é necessariamente a quantidade ideal para preservar músculo e função.

Infância: proteína para crescer

Durante a infância, a proteína tem uma função particularmente importante: construir novos tecidos.

O organismo está constantemente a produzir músculo, osso, enzimas, hormonas e outras estruturas.

Por isso, as necessidades devem ser avaliadas de acordo com a idade e o peso corporal, e não simplesmente copiando as recomendações de adultos.

Mais proteína, contudo, não significa mais crescimento.

Uma alimentação equilibrada, com energia suficiente, hidratos de carbono, gorduras, vitaminas, minerais e proteína adequada, é muito mais importante do que transformar a dieta infantil numa alimentação hiperproteica.

Na infância, o objetivo é crescimento adequado — não maximizar a ingestão proteica.

Adolescência: uma fase de grande procura

A adolescência é diferente.

O crescimento acelerado, o desenvolvimento da massa muscular e óssea e, em muitos casos, o aumento da atividade física fazem aumentar a importância da proteína.

Para um adolescente que pratica desporto regularmente, a necessidade pode ser superior à de um adolescente sedentário.

Mas novamente, mais não significa necessariamente melhor.

Uma alimentação variada e suficiente em energia deve ser a base.

O erro seria transformar a alimentação de um jovem numa dieta típica de culturista simplesmente porque começou a treinar no ginásio.

Dos 18 aos 50 anos: 0,8 g/kg é suficiente?

Para adultos saudáveis e pouco ativos, 0,8 g de proteína por kg de peso corporal por dia continua a ser a referência mínima utilizada em muitas recomendações.

Para uma pessoa de 70 kg, corresponde a aproximadamente 56 g de proteína por dia.

Mas esta quantidade não deve ser confundida com um objetivo obrigatório para quem treina.

Quem pratica regularmente treino de força tem necessidades superiores.

Para pessoas fisicamente ativas, a International Society of Sports Nutrition considera que cerca de 1,4–2,0 g/kg/dia é suficiente para a maioria dos indivíduos que treinam, dependendo do objetivo e contexto. (PubMed Central (PMC))

Assim, para alguém de 70 kg que treina força regularmente:

1,4 g/kg = 98 g/dia

1,6 g/kg = 112 g/dia

2,0 g/kg = 140 g/dia

Não significa que 140 g sejam melhores do que 100 g.

Significa que existe uma faixa dentro da qual diferentes pessoas podem encontrar o seu ponto adequado.

E depois dos 50?

Aqui começa a mudar a história.

Com o envelhecimento ocorre uma redução progressiva da massa muscular e da resposta anabólica à proteína.

É uma das razões pelas quais as recomendações para adultos mais velhos tendem a ser superiores às necessidades mínimas dos adultos jovens.

A combinação mais importante passa a ser:

proteína suficiente + treino de força + atividade física.

Não basta simplesmente aumentar a proteína.

É necessário dar ao músculo uma razão para utilizar os aminoácidos.

Por isso, depois dos 50, o treino de força torna-se cada vez mais importante.

Dos 65 aos 80 anos: talvez seja altura de aumentar

O grupo PROT-AGE recomenda, para adultos com mais de 65 anos, aproximadamente 1,0–1,2 g/kg/dia de proteína, com valores superiores, pelo menos ≥1,2 g/kg/dia, para pessoas fisicamente ativas. (PubMed)

Para uma pessoa de 70 kg:

1,0 g/kg = 70 g/dia

1,2 g/kg = 84 g/dia

Para alguém que treina força regularmente, pode fazer sentido estar acima deste intervalo, dependendo do objetivo.

E isto é particularmente importante porque preservar músculo nesta fase da vida não é apenas uma questão estética.

É uma questão de força, equilíbrio, capacidade de levantar-se de uma cadeira, subir escadas, caminhar e manter independência.

Depois dos 80: qualidade e quantidade tornam-se ainda mais importantes

Nos adultos muito idosos, vários fatores podem dificultar a ingestão adequada de proteína.

Menor apetite, problemas dentários, dificuldades de mastigação, alterações gastrointestinais, isolamento social ou simplesmente comer menos podem contribuir para uma ingestão insuficiente.

Por isso, nesta fase, a prioridade muitas vezes não é restringir proteína.

É garantir que existe proteína suficiente e uma alimentação nutricionalmente adequada.

Em pessoas idosas com doença aguda ou crónica, risco de desnutrição ou perda de massa muscular, as recomendações podem chegar a 1,2–1,5 g/kg/dia, ou mais em situações clínicas específicas. (PubMed)

Mas estes valores devem ser individualizados.

Não basta olhar para o total diário

Outro ponto importante é a distribuição.

Uma pessoa pode consumir 100 g de proteína por dia, mas concentrar praticamente toda a proteína numa única refeição.

Para preservar músculo, pode ser interessante distribuir a proteína pelas refeições, garantindo várias oportunidades para estimular a síntese proteica muscular.

Algumas recomendações para adultos mais velhos apontam para aproximadamente 25–30 g por refeição, embora a quantidade ideal dependa do peso, idade, qualidade da proteína e contexto da refeição. (Springer Nature)

Para quem treina, a literatura desportiva utiliza frequentemente doses individuais na ordem dos 20–40 g de proteína de elevada qualidade, dependendo do indivíduo e da refeição. (PubMed Central (PMC))

Portanto, não devemos pensar apenas:

“Quantos gramas de proteína como por dia?”

Também devemos perguntar:

“Como estou a distribuir essa proteína ao longo do dia?”

Proteína não funciona sozinha

Existe outro erro muito comum.

Aumentar proteína sem treinar força não é uma estratégia completa para combater a perda muscular associada ao envelhecimento.

O músculo precisa de estímulo.

O treino de resistência é precisamente um dos estímulos mais importantes para preservar ou aumentar a massa muscular e a força ao longo da vida. A ESPEN recomenda combinar uma ingestão adequada de proteína com atividade física e, quando possível, treino de resistência nos adultos mais velhos. (PubMed Central (PMC))

É por isso que, especialmente depois dos 50, eu colocaria três fatores lado a lado:

Proteína suficiente.

Treino de força.

Movimento diário.

Então qual é a quantidade certa?

Não existe um número universal.

Mas podemos construir uma orientação simples:

Fase da vida Orientação geral
Crianças Necessidades específicas de crescimento
Adolescentes Necessidades aumentadas durante crescimento; mais se houver desporto
Adultos pouco ativos Cerca de 0,8 g/kg/dia como referência mínima
Adultos fisicamente ativos Aproximadamente 1,2–1,6 g/kg/dia pode ser uma faixa prática
Treino de força regular Cerca de 1,4–2,0 g/kg/dia
>65 anos Pelo menos 1,0–1,2 g/kg/dia
>65 anos ativos ≥1,2 g/kg/dia pode ser apropriado
Idosos com doença/desnutrição Frequentemente 1,2–1,5 g/kg/dia, individualizado

Os valores não são receitas universais. São intervalos orientadores, e diferentes sociedades e estudos podem apresentar valores diferentes.

E a longevidade?

Aqui voltamos à pergunta que iniciou esta discussão:

Mais proteína significa viver melhor e mais tempo?

Provavelmente não podemos responder simplesmente “sim”.

A proteína é essencial para preservar músculo e função, sobretudo com o envelhecimento.

Mas isso não significa que aumentar continuamente a proteína seja uma estratégia comprovada para aumentar a longevidade.

O objetivo deveria ser encontrar a quantidade suficiente para manter músculo, força e saúde sem transformar a alimentação numa corrida para consumir cada vez mais proteína.

É uma diferença importante.

A minha opinião

Para mim, a grande mudança deve acontecer depois dos 50.

Em vez de esperar pela perda de músculo para depois tentar recuperá-lo, devemos começar cedo a proteger aquilo que queremos manter durante décadas.

Treino de força regular, proteína adequada, alimentação de qualidade e atividade física diária.

Não precisamos necessariamente de comer o máximo de proteína possível.

Precisamos de comer a proteína certa para o nosso corpo, para a nossa idade e para aquilo que fazemos.

E quanto mais envelhecemos, mais importante se torna não apenas viver mais anos, mas chegar a esses anos com força suficiente para continuar a viver de forma autónoma.

Referências

Bauer J, et al. Evidence-Based Recommendations for Optimal Dietary Protein Intake in Older People: The PROT-AGE Study Group. Journal of the American Medical Directors Association. 2013.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23867520/ (PubMed)

Deutz NEP, et al. Protein intake and exercise for optimal muscle function with aging: recommendations from the ESPEN Expert Group. Clinical Nutrition. 2014.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24814383/ (PubMed)

Jäger R, et al. International Society of Sports Nutrition Position Stand: protein and exercise. Journal of the International Society of Sports Nutrition.
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5477153/ (PubMed Central (PMC))

PROT-AGE / ESPEN recommendations for older adults.
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4208946/ (PubMed Central (PMC))

Nota: As necessidades individuais podem ser diferentes, sobretudo em pessoas com doença renal, doença hepática, desnutrição ou outras condições clínicas. Nestes casos, a quantidade de proteína deve ser individualizada por um profissional de saúde.