Durante muito tempo, músculo e cérebro foram vistos como sistemas relativamente independentes. O músculo servia para produzir força e movimento, enquanto o cérebro era responsável pelo pensamento, memória e tomada de decisões.
Hoje sabemos que esta separação é demasiado simplista.
O músculo esquelético funciona também como um verdadeiro órgão endócrino: quando contraímos os músculos durante o exercício, são libertadas para a circulação várias moléculas que podem comunicar com outros órgãos, incluindo o cérebro.
Esta comunicação entre músculo e cérebro é uma das explicações para a associação observada entre maior aptidão física, força muscular e melhor função cognitiva.
E a investigação mais recente está a começar a esclarecer como esta relação pode funcionar.
O músculo pode “falar” com o cérebro
Quando fazemos exercício, sobretudo quando envolvemos grandes grupos musculares, as fibras musculares produzem e libertam moléculas chamadas mioquinas e outros mediadores conhecidos como exerkines.
Estas substâncias podem atuar localmente no músculo ou entrar na circulação sanguínea e influenciar outros órgãos.
Entre os mecanismos estudados encontram-se moléculas relacionadas com:
- neuroplasticidade;
- formação e manutenção de novas ligações neuronais;
- metabolismo energético cerebral;
- inflamação;
- função vascular;
- memória e aprendizagem.
Uma das moléculas mais estudadas é o BDNF — brain-derived neurotrophic factor, um fator neurotrófico fundamental para a plasticidade cerebral.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025, que analisou 43 estudos em adultos com 50 ou mais anos, encontrou melhorias significativas no desempenho cognitivo após exercício e aumento de determinados fatores neurotróficos, particularmente BDNF. (PubMed)
Mas existe uma ressalva importante: os investigadores não conseguiram demonstrar que as alterações das mioquinas são, por si só, responsáveis pelas melhorias cognitivas. Ou seja, sabemos que exercício e cognição estão relacionados, mas ainda estamos a descobrir exatamente quanto dessa relação é explicado pelas moléculas libertadas pelo músculo.
O exercício pode estimular a plasticidade cerebral
O cérebro não é um órgão estático.
Mesmo na idade adulta, existe capacidade de adaptação conhecida como neuroplasticidade. As ligações entre neurónios podem ser modificadas em resposta à aprendizagem, ao ambiente e à atividade física.
O hipocampo, uma região cerebral fundamental para a memória e aprendizagem, parece ser particularmente sensível aos efeitos do exercício.
Uma das hipóteses é que o exercício aumente fatores neurotróficos como o BDNF e melhore o ambiente metabólico e vascular necessário para manter a função neuronal.
Existe também investigação sobre moléculas produzidas pelo músculo, como a catepsina B, a irisina e outros mediadores que podem participar nesta comunicação músculo-cérebro. (Nature)
É por isso que a expressão “músculo saudável, cérebro saudável” tem cada vez mais suporte científico — embora não deva ser interpretada como uma relação simples de causa e efeito.
Ter mais força pode estar associado a melhor função cognitiva
A relação entre força muscular e cérebro é particularmente interessante no envelhecimento.
À medida que envelhecemos, é normal perder massa e força muscular. Esta perda, quando acentuada, está associada a maior risco de incapacidade, quedas e perda de autonomia.
Mas a força muscular também aparece frequentemente associada a indicadores de saúde cerebral.
Isto não significa que ter músculos maiores torne automaticamente uma pessoa mais inteligente.
A questão é diferente: manter a capacidade de produzir força parece fazer parte de um envelhecimento mais saudável, que inclui também a preservação da função cognitiva.
E existe uma explicação plausível.
Uma pessoa fisicamente mais forte tende a conseguir caminhar mais, subir escadas, levantar-se de uma cadeira, transportar objetos e manter maior independência. Essa maior capacidade física permite também manter níveis superiores de atividade física diária.
Existe, portanto, provavelmente uma relação bidirecional entre movimento, capacidade física e saúde cerebral.
Treino de força ou exercício aeróbio: qual é melhor para o cérebro?
Não existe atualmente uma resposta simples de “um ou outro”.
Uma meta-análise publicada em 2026 analisou 14 estudos randomizados, envolvendo 1.097 adultos mais velhos com défice cognitivo ligeiro ou demência.
Os investigadores observaram um padrão interessante: o exercício aeróbio esteve mais associado a melhorias cognitivas, enquanto o treino de resistência apresentou efeitos mais marcados sobre força e função física. Quando diferentes tipos de exercício foram combinados, foram observados benefícios tanto na cognição como na função muscular. (PubMed)
Isto sugere que a melhor estratégia pode não ser escolher entre musculação e exercício cardiovascular.
Pode ser combinar os dois.
O treino de força pode proteger o cérebro indiretamente
Imagine duas pessoas de 70 anos.
Uma mantém boa força nas pernas, equilíbrio e capacidade cardiovascular. Continua a caminhar, sobe escadas, faz compras, pratica exercício e participa em atividades sociais.
A outra perdeu grande parte da força muscular e evita movimentar-se porque tem dificuldade em levantar-se, caminhar ou transportar objetos.
Mesmo que não exista uma relação direta entre “mais músculo” e “mais neurónios”, as consequências da manutenção da força podem ser enormes.
Maior força permite maior autonomia e mais movimento, e maior movimento significa exposição repetida aos estímulos fisiológicos associados ao exercício.
Além disso, o exercício ajuda a controlar vários fatores que influenciam a saúde cerebral, como pressão arterial, resistência à insulina, composição corporal e saúde cardiovascular.
O benefício cerebral do treino pode, portanto, resultar de uma combinação de efeitos diretos e indiretos.
O cérebro também precisa de um bom sistema cardiovascular
O cérebro consome uma quantidade enorme de energia e depende de um fornecimento contínuo de oxigénio e nutrientes.
O exercício cardiovascular melhora a capacidade do organismo de transportar e utilizar oxigénio e está associado a adaptações vasculares.
Isto é relevante porque a saúde cerebral está intimamente ligada à saúde dos vasos sanguíneos.
Hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo e doença cardiovascular podem prejudicar progressivamente a circulação cerebral.
Assim, quando o exercício melhora a saúde cardiovascular, pode estar simultaneamente a proteger o cérebro.
Exercitar o músculo não significa apenas levantar pesos
Quando falamos de exercício para o cérebro, não devemos pensar exclusivamente em musculação.
Caminhar rapidamente, correr, nadar, andar de bicicleta, dançar, subir escadas ou praticar desportos também provocam contrações musculares e alterações metabólicas.
E algumas atividades acrescentam um componente cognitivo.
Por exemplo, dançar exige simultaneamente:
movimento + equilíbrio + memória + coordenação + atenção + tomada de decisão.
Desportos que exigem reação a estímulos externos podem ser ainda mais complexos.
Por isso, uma combinação de força, exercício cardiovascular, equilíbrio, coordenação e atividades cognitivamente estimulantes provavelmente oferece uma estratégia particularmente interessante para envelhecer com autonomia.
E se já existir défice cognitivo?
A evidência não se limita a pessoas completamente saudáveis.
Uma meta-análise de 2023 que avaliou 21 publicações encontrou benefícios do exercício multicomponente na cognição global e na função executiva em pessoas com demência ou défice cognitivo ligeiro. (PubMed)
Uma revisão mais recente, publicada em 2026, também concluiu que diferentes modalidades de exercício podem produzir benefícios distintos em pessoas com défice cognitivo ou demência. (Nature)
Isto não significa que o exercício seja uma cura para a demência.
Significa que a atividade física pode ser uma componente importante da estratégia de prevenção e intervenção, contribuindo simultaneamente para a função física, autonomia e determinados aspetos da cognição.
Então, músculos mais fortes significam um cérebro melhor?
A resposta científica é: existe uma associação importante, mas não devemos simplificá-la demasiado.
Não podemos dizer que aumentar a massa muscular irá necessariamente aumentar a inteligência ou impedir a demência.
O que podemos afirmar com muito mais segurança é que manter uma boa condição física ao longo da vida está associado a melhor saúde cerebral, e que o exercício parece produzir efeitos fisiológicos que podem beneficiar diretamente o sistema nervoso.
A comunicação músculo-cérebro através de mioquinas e outros exerkines é uma área particularmente interessante, mas ainda está a ser estudada. A revisão sistemática mais recente encontrou melhorias cognitivas e alterações em fatores neurotróficos com o exercício, mas não conseguiu provar que as mioquinas são o mecanismo responsável por essas melhorias. (PubMed)
O que fazer na prática?
Se o objetivo é proteger a função cerebral enquanto envelhecemos, provavelmente não existe um exercício mágico.
Uma estratégia mais completa passa por manter músculo, força, capacidade cardiovascular, equilíbrio e movimento regular.
O treino de força deve procurar preservar a capacidade de realizar movimentos importantes da vida diária: agachar, levantar, empurrar, puxar, transportar e estabilizar.
O exercício cardiovascular deve manter uma boa capacidade aeróbia.
E caminhar diariamente ajuda a transformar o exercício programado em um estilo de vida fisicamente ativo.
Mais importante ainda: não devemos esperar pela perda de força ou pela diminuição da memória para começar a treinar.
O cérebro beneficia do movimento durante toda a vida.
A mensagem final
O músculo não serve apenas para produzir movimento.
É um tecido metabolicamente ativo que comunica com o resto do organismo e parece participar na regulação de processos relevantes para o cérebro.
A investigação atual aponta para uma relação entre exercício, fatores neurotróficos, circulação, metabolismo, inflamação e função cognitiva.
Por isso, quando treinamos os músculos, podemos estar a fazer muito mais do que fortalecer pernas, braços ou costas.
Podemos também estar a criar condições mais favoráveis para manter um cérebro funcional à medida que envelhecemos.
E talvez a melhor estratégia seja simples: treinar força, manter a capacidade cardiovascular, caminhar muito e continuar intelectualmente ativo.
Porque envelhecer bem não significa apenas viver mais anos.
Significa chegar a esses anos com força para o corpo e capacidade para o cérebro.
Referências
- Vints WAJ, et al. Investigating the mediating effect of myokines on exercise-induced cognitive changes in older adults: a living systematic review and meta-analysis. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 2025.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40998287/ - Choe HY, et al. Effects of exercise modalities on cognitive and muscle function in older adults with cognitive impairment: a systematic review and meta-analysis. Scientific Reports, 2026.
https://www.nature.com/articles/s41598-026-48294-9 - Pedersen BK. Physical activity and muscle–brain crosstalk. Nature Reviews Endocrinology, 2019.
https://www.nature.com/articles/s41574-019-0174-x - Yan J, et al. Effect of Multicomponent Exercise on Cognition, Physical Function and Activities of Daily Life in Older Adults With Dementia or Mild Cognitive Impairment. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation, 2023.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37142178/ - Exercise-Induced Changes in Circulating Exerkines Associated with Brain Health: A Systematic Review and Meta-Analysis in Healthy Populations, 2026.
https://www.mdpi.com/2413-4155/8/4/84 - Effects of Resistance Training on Motor and Cognitive Function in Older Adults with Alzheimer’s Disease: A Systematic Review.
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12691713/