A tadalafila é um medicamento conhecido sobretudo pelo tratamento da disfunção erétil, mas também é utilizada no tratamento dos sintomas urinários associados à hiperplasia benigna da próstata.
Um novo estudo publicado em 4 de agosto de 2026 no British Journal of Ophthalmology levantou uma questão importante: a utilização de tadalafila poderá estar associada a um maior risco de desenvolver glaucoma?
A investigação analisou mais de 73 mil homens com 40 ou mais anos e encontrou uma associação entre a utilização de tadalafila e um aumento do risco de glaucoma ao longo de cinco anos.
Os resultados não significam que a tadalafila provoque glaucoma. No entanto, acrescentam informação relevante para a avaliação dos riscos e benefícios do tratamento, principalmente em homens com outros fatores de risco para doenças oculares.
O que é a tadalafila?
A tadalafila pertence ao grupo dos medicamentos chamados inibidores da fosfodiesterase tipo 5 (PDE5).
É frequentemente utilizada para tratar:
- disfunção erétil;
- sintomas urinários associados à hiperplasia benigna da próstata;
- em determinadas situações, hipertensão arterial pulmonar.
O medicamento atua através do aumento da disponibilidade de determinadas substâncias envolvidas no relaxamento do músculo liso e na circulação sanguínea.
Embora seja geralmente conhecida pela sua utilização na saúde sexual masculina, os seus efeitos não estão limitados ao sistema reprodutor. Como interfere com mecanismos relacionados com o óxido nítrico e a circulação, existe interesse científico em perceber de que forma a utilização prolongada poderá influenciar outros tecidos, incluindo o olho.
O que descobriu o novo estudo?
Os investigadores realizaram um estudo de coorte retrospectivo multinacional utilizando dados da plataforma TriNetX.
Foram identificados homens com pelo menos 40 anos, sintomas do trato urinário inferior e sem diagnóstico prévio de glaucoma.
Depois de aplicados métodos estatísticos para tornar os grupos comparáveis, foram analisados:
36 927 homens que utilizaram tadalafila
versus
36 927 homens que não utilizaram medicamentos inibidores da PDE5.
Os investigadores acompanharam os participantes durante até cinco anos.
O objetivo era verificar se existia diferença na ocorrência de glaucoma e de diferentes formas da doença.
Risco de glaucoma 22% superior
Durante o período de acompanhamento, os homens que utilizaram tadalafila apresentaram um risco relativo de glaucoma 22% superior ao observado no grupo de comparação.
O hazard ratio foi de 1,22, com um intervalo de confiança de 95% entre 1,12 e 1,33.
Este resultado merece atenção, mas é importante compreender o que significa.
Um aumento relativo de 22% não significa que 22% dos homens tratados vão desenvolver glaucoma.
Na realidade, a incidência acumulada aos cinco anos foi de aproximadamente:
3,93% nos utilizadores de tadalafila
versus
3,16% nos não utilizadores.
Ou seja, existe uma diferença absoluta bastante menor do que a sugerida pela expressão “22% de aumento do risco”.
Esta distinção entre risco relativo e risco absoluto é fundamental quando interpretamos estudos médicos.
E quanto ao glaucoma de ângulo aberto?
O estudo encontrou também uma associação particularmente interessante com o glaucoma primário de ângulo aberto, uma das formas mais frequentes de glaucoma.
Neste caso, o risco relativo foi aproximadamente 33% superior nos utilizadores de tadalafila.
Também foi identificada uma associação com hipertensão ocular, cujo risco foi cerca de 32% superior.
Além disso, os utilizadores de tadalafila apresentaram uma maior probabilidade de iniciar tratamento para glaucoma, com uma associação de aproximadamente 33%.
Por outro lado, não foram encontradas associações estatisticamente significativas com glaucoma de baixa pressão ou glaucoma primário de ângulo fechado.
Porque é que o glaucoma é importante?
O glaucoma é um grupo de doenças que pode provocar lesão progressiva do nervo óptico.
Um dos problemas é que pode evoluir durante anos sem sintomas evidentes.
A visão periférica pode deteriorar-se gradualmente e, quando a pessoa percebe alterações importantes na visão, já pode existir perda significativa de fibras do nervo óptico.
Por isso, a prevenção e a deteção precoce são particularmente importantes.
A pressão intraocular é um dos fatores avaliados, mas glaucoma não é simplesmente sinónimo de “pressão ocular elevada”.
Existem diferentes formas da doença e vários fatores podem contribuir para o risco, incluindo idade, história familiar, características anatómicas do olho e determinadas condições médicas.
Isto significa que a tadalafila causa glaucoma?
Não.
Esta é provavelmente a parte mais importante do estudo.
A investigação encontrou uma associação, mas não demonstrou uma relação de causa e efeito.
Trata-se de um estudo observacional e retrospectivo baseado em registos clínicos. Mesmo com técnicas estatísticas destinadas a equilibrar os grupos, podem existir fatores que não foram completamente considerados.
Por exemplo, os investigadores não conseguem controlar perfeitamente todas as diferenças entre homens que recebem tadalafila e homens que não recebem o medicamento.
Também existem limitações relacionadas com a utilização real do medicamento, alterações de prescrição ao longo do tempo e outras condições de saúde que podem surgir durante o acompanhamento.
Além disso, a maioria dos participantes era de raça branca, o que pode limitar a generalização dos resultados para outras populações.
Portanto, seria incorreto concluir que “tadalafila provoca glaucoma”.
A conclusão mais prudente é que a utilização de tadalafila esteve associada a um pequeno aumento do risco de glaucoma neste grupo de homens.
Devemos deixar de utilizar tadalafila?
Os resultados deste estudo não significam que homens que utilizam tadalafila devam simplesmente interromper o tratamento.
A tadalafila continua a ser um medicamento utilizado para várias indicações e a decisão de manter, alterar ou suspender um tratamento deve considerar os seus benefícios e riscos individuais.
O próprio estudo não propõe que a tadalafila seja contraindicada de forma geral.
A questão é sobretudo perceber se determinados homens poderão beneficiar de uma maior vigilância oftalmológica.
Quem deverá ter especial atenção?
A avaliação poderá ser particularmente relevante em homens que utilizam tadalafila durante períodos prolongados e que apresentam outros fatores associados ao glaucoma.
Entre eles podem estar:
- diagnóstico prévio de hipertensão ocular;
- história familiar de glaucoma;
- glaucoma na própria pessoa;
- miopia elevada;
- idade mais avançada;
- outros fatores de risco oftalmológicos.
Nestes casos, uma avaliação oftalmológica de base e acompanhamento periódico podem ser uma forma prudente de detetar alterações precocemente.
Uma questão interessante sobre medicamentos e longevidade
Este estudo também mostra algo importante sobre a medicina moderna.
Um medicamento pode ser eficaz para uma determinada condição e, simultaneamente, produzir efeitos em outros sistemas do organismo.
Isso não significa necessariamente que seja “mau” ou perigoso.
Significa que a avaliação de um tratamento deve considerar o contexto individual.
Para alguém com sintomas urinários importantes, por exemplo, os benefícios da melhoria da qualidade de vida podem ser relevantes. Para outra pessoa com elevado risco de glaucoma, a estratégia de acompanhamento poderá ser diferente.
A medicina preventiva não deve basear-se apenas na pergunta “este medicamento funciona?”.
Também deve perguntar:
Quais são os benefícios? Quais são os possíveis riscos? E quem poderá estar mais vulnerável?
E o exercício pode ajudar a proteger a saúde ocular?
A relação entre atividade física e saúde ocular é uma área de investigação interessante.
O exercício regular está associado a benefícios cardiovasculares, metabólicos e neurológicos, mas não deve ser apresentado como tratamento ou prevenção garantida do glaucoma.
Para quem pretende envelhecer com maior autonomia, a abordagem mais consistente continua a ser global: controlar fatores de risco cardiovasculares, manter atividade física regular, dormir adequadamente, não fumar, manter um peso saudável e realizar avaliações médicas adequadas à idade e aos fatores de risco individuais.
No caso específico da utilização de tadalafila, a mensagem principal do novo estudo é simples:
não há motivo para alarmismo, mas existe uma razão adicional para prestar atenção à saúde ocular, sobretudo em homens com fatores de risco para glaucoma.
O que podemos retirar deste estudo?
A investigação publicada em agosto de 2026 acrescenta uma possível associação entre a utilização de tadalafila e glaucoma que merece ser investigada em estudos futuros.
Foram analisados quase 74 mil homens, o que dá ao estudo uma dimensão considerável.
Ainda assim, o desenho observacional não permite afirmar que a tadalafila seja a causa do aumento observado.
O resultado mais importante talvez seja outro: quando um medicamento é utilizado durante muitos anos, especialmente por pessoas de meia-idade e mais velhas, é importante continuar a acompanhar não apenas a doença que estamos a tratar, mas também a saúde global.
No caso da tadalafila, isso pode incluir uma atenção especial à saúde ocular em homens com fatores de risco para glaucoma.
Não é motivo para interromper automaticamente o tratamento. É motivo para conversar com o médico e, quando apropriado, manter uma vigilância oftalmológica adequada.
Referências
https://bjo.bmj.com/content/early/2026/07/28/bjo-2026-329957