TDAH: os olhos podem revelar quando a atenção está a falhar?

TDAH: os olhos podem revelar quando a atenção está a falhar? September 14, 2026Leave a comment

Será possível perceber alterações na atenção através dos movimentos da pupila? Um novo estudo publicado em setembro de 2026 sugere que pequenas alterações no comportamento da pupila podem fornecer informação complementar sobre as flutuações de atenção em crianças com TDAH.

A investigação foi publicada na revista Scientific Reports em 9 de setembro de 2026 e analisou dados de eye-tracking de 50 crianças, incluindo 28 com TDAH e 22 no grupo de controlo. (Nature)

Os investigadores estudaram a forma como o tamanho da pupila variava durante uma tarefa de memória de trabalho visuoespacial e compararam crianças com TDAH sem medicação estimulante, crianças com TDAH sob medicação e crianças sem TDAH.

Os resultados sugerem que a dinâmica da pupila pode acompanhar algumas das variações momento a momento relacionadas com atenção e desempenho.

Mas existe uma ressalva importante: este método ainda não pode ser utilizado como teste de diagnóstico do TDAH.

O que é o TDAH?

O transtorno de défice de atenção e hiperatividade, habitualmente designado por TDAH, é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por dificuldades persistentes relacionadas com atenção, impulsividade e/ou hiperatividade.

Uma das características particularmente interessantes do TDAH é que a atenção não está simplesmente “ligada” ou “desligada”.

Pode existir uma grande variabilidade no desempenho ao longo do tempo.

Uma criança pode conseguir concentrar-se muito bem durante determinado período e, pouco depois, apresentar uma queda significativa no desempenho.

Esta variabilidade pode tornar difícil avaliar a atenção através de tarefas tradicionais.

É precisamente este problema que os investigadores procuraram explorar.

Porque estudar as pupilas?

A pupila não serve apenas para controlar a quantidade de luz que entra no olho.

O seu diâmetro também pode variar em resposta a diferentes processos fisiológicos e cognitivos.

Alterações no tamanho da pupila podem acompanhar mudanças relacionadas com esforço mental, alerta, processamento de informação e resposta a estímulos.

Por isso, a pupillometria — análise quantitativa das alterações da pupila — tem sido estudada como uma possível janela indireta para determinados processos cognitivos.

Neste novo trabalho, os investigadores utilizaram eye-tracking para acompanhar a dinâmica pupilar durante uma tarefa de memória de trabalho. (Nature)

A ideia é interessante: em vez de perguntar apenas se uma criança respondeu corretamente ou incorretamente, podemos observar também como o sistema fisiológico se comportou durante cada tentativa.

O estudo envolveu 50 crianças

A investigação incluiu:

  • 28 crianças com TDAH;
  • 22 crianças no grupo de controlo;
  • idade média de aproximadamente 10,6 anos.

As crianças realizaram uma tarefa visuoespacial de memória de trabalho baseada no paradigma de Sternberg. (Nature)

Durante a tarefa, os investigadores registaram a atividade pupilar.

O objetivo não era simplesmente comparar o tamanho médio das pupilas.

Foi analisada a variabilidade da pupila entre diferentes tentativas, a variabilidade dentro de cada tentativa e a resposta média da pupila associada à tarefa.

Esta abordagem permite observar uma dimensão frequentemente esquecida na avaliação cognitiva: a estabilidade do desempenho ao longo do tempo.

A atenção pode variar de uma tentativa para outra

Imagine uma criança a realizar 20 tarefas semelhantes.

Pode acertar numa, errar noutra, voltar a acertar em várias e depois apresentar novamente uma queda de desempenho.

Uma avaliação baseada apenas na pontuação final pode esconder esta dinâmica.

Os investigadores procuraram perceber se a pupila poderia fornecer uma medida fisiológica complementar dessa variabilidade.

Nos participantes com TDAH que estavam sem medicação, foi observada aproximadamente 23% mais variância residual entre tentativas do que no grupo de controlo, depois de considerar fatores como carga de memória, idade e QI. (Nature)

Isto sugere uma maior variabilidade de tentativa para tentativa.

No entanto, é importante acrescentar uma nuance estatística: a diferença ao nível individual deixou de atingir significância após a correção para múltiplas comparações, ficando num valor limítrofe de q = 0,051. (Nature)

Portanto, o resultado é interessante, mas não deve ser apresentado como uma prova definitiva.

Mais variabilidade não significa simplesmente “menos atenção”

A pupila é influenciada por vários processos.

Por isso, não podemos olhar para uma determinada alteração pupilar e concluir diretamente:

“esta criança deixou de prestar atenção.”

A dinâmica pupilar pode refletir uma combinação de fatores relacionados com alerta, esforço cognitivo, processamento da tarefa e outros mecanismos fisiológicos.

Esta é uma das razões pelas quais os autores descrevem a dinâmica da pupila como uma medida complementar e indireta, e não como uma medida específica da atenção. (Nature)

É uma distinção importante.

Um biomarcador verdadeiramente útil para diagnóstico teria de apresentar elevada fiabilidade e especificidade para a condição que pretendemos identificar.

Este estudo ainda está muito longe desse ponto.

A relação entre pupila e desempenho

Outro resultado interessante apareceu na relação entre variabilidade pupilar e precisão da tarefa.

Na condição de TDAH sem medicação, uma maior variabilidade entre tentativas apresentou uma associação negativa com a precisão.

De forma simples, quando a dinâmica pupilar variava mais entre diferentes tentativas, o desempenho tendia a ser pior. (Nature)

Isto reforça a hipótese de que a dinâmica pupilar pode acompanhar determinadas flutuações no desempenho cognitivo.

Mas novamente, a associação não foi significativamente diferente da observada no grupo de controlo.

Portanto, não podemos afirmar que esta relação seja exclusiva do TDAH.

O que aconteceu com a medicação?

Uma das partes mais interessantes do estudo foi a comparação entre as crianças com TDAH sem medicação e sob medicação estimulante.

Na condição medicada, os investigadores observaram:

  • aumento relativo da resposta pupilar durante a janela da tarefa;
  • redução da variabilidade entre tentativas;
  • uma trajetória média da pupila mais próxima da observada no grupo de controlo.

As análises de trajetória também indicaram que o padrão pupilar sob medicação se aproximava mais do grupo de controlo do que o observado na condição sem medicação. (Nature)

Isto levanta uma hipótese interessante: a medicação estimulante poderá estar associada a alterações na estabilidade da resposta fisiológica durante tarefas cognitivas.

Mas o próprio estudo alerta para uma limitação importante.

A medicação não é a única explicação possível

Os resultados não permitem concluir que todas as alterações observadas sejam exclusivamente provocadas pelo efeito farmacológico dos estimulantes.

Os autores referem que não foi possível excluir completamente contribuições relacionadas com a própria sessão experimental ou outros fatores associados à medicação. (Nature)

Isto significa que seria necessário realizar estudos mais controlados para separar claramente:

efeito farmacológico + efeito da sessão + aprendizagem da tarefa + outros fatores.

Esta cautela é particularmente importante quando estudamos crianças.

Poderemos diagnosticar TDAH através dos olhos?

Ainda não.

Esta é provavelmente a principal mensagem que deve acompanhar qualquer notícia sobre este estudo.

O eye-tracking e a análise da pupila são ferramentas promissoras para investigação, mas os resultados atuais não permitem substituir a avaliação clínica tradicional.

O diagnóstico de TDAH envolve uma avaliação abrangente do comportamento e funcionamento da criança em diferentes contextos.

Não existe atualmente uma simples medição ocular que consiga determinar, sozinha, se uma criança tem ou não TDAH.

O estudo também não demonstrou que a dinâmica da pupila seja suficientemente fiável para diagnóstico individual.

Porque é que isto pode ser importante no futuro?

Apesar das limitações, existe uma razão para continuar a estudar este tipo de tecnologia.

As avaliações comportamentais podem dizer-nos o que aconteceu.

Por exemplo:

“a criança acertou 70% das respostas.”

Uma medida fisiológica pode acrescentar outra pergunta:

“O que aconteceu durante essas respostas?”

Se conseguirmos identificar padrões fisiológicos associados a momentos de maior estabilidade ou maior variabilidade, poderemos compreender melhor as diferenças individuais na atenção.

No futuro, isto poderá contribuir para desenvolver ferramentas complementares de investigação ou avaliação.

Mas será necessário demonstrar que estas medidas são:

  • fiáveis;
  • reproduzíveis;
  • específicas;
  • clinicamente úteis;
  • capazes de generalizar para diferentes ambientes.

E o exercício?

Esta investigação também pode interessar a quem trabalha com exercício, movimento e desempenho cognitivo.

O estudo não avaliou exercício físico, pelo que não podemos afirmar que o treino físico altere os padrões pupilares encontrados.

No entanto, existe uma ligação conceptual interessante.

A atenção, o controlo motor e o processamento sensorial não funcionam separadamente.

Durante uma atividade física, uma pessoa precisa de:

  • selecionar estímulos relevantes;
  • ignorar distrações;
  • antecipar movimentos;
  • ajustar respostas motoras;
  • controlar o equilíbrio;
  • acompanhar visualmente o ambiente;
  • adaptar-se rapidamente a alterações.

É precisamente esta integração entre cérebro e movimento que torna algumas formas de exercício cognitivamente exigentes.

Movimento e atenção trabalham em conjunto

Imagine uma criança a realizar uma atividade que exige deslocar-se, reagir a um sinal visual, mudar de direção e recordar uma sequência.

Não está apenas a treinar músculos.

Está simultaneamente a utilizar atenção, memória de trabalho, visão, orientação espacial e controlo motor.

Isto não significa que um determinado exercício possa tratar o TDAH.

Seria uma conclusão que este estudo não permite.

Mas ajuda-nos a compreender porque é que o exercício pode ser estudado também como uma atividade que envolve processamento cognitivo, e não apenas capacidade física.

O estudo é pequeno

Uma das principais limitações é o número de participantes.

Foram apenas 50 crianças.

Para uma investigação exploratória, esta dimensão pode ser suficiente para identificar sinais iniciais.

Mas é insuficiente para estabelecer um marcador clínico robusto.

São necessários estudos maiores, com amostras mais diversificadas e protocolos padronizados.

Também seria importante avaliar a estabilidade das medidas ao longo de diferentes dias.

Se uma criança apresenta determinado padrão pupilar numa sessão, esse padrão deve ser semelhante noutra sessão para que possa ter verdadeira utilidade clínica.

A fiabilidade é fundamental

Uma medida pode apresentar diferenças entre grupos e, ainda assim, não ser suficientemente fiável para avaliar indivíduos.

Esta distinção é essencial.

Imagine que, em média, um grupo apresenta maior variabilidade pupilar.

Isso não significa que possamos pegar numa criança individual e afirmar:

“a sua pupila indica TDAH.”

Para isso, seria necessário conhecer a distribuição dos resultados na população, a sensibilidade, a especificidade, a estabilidade individual e a capacidade de distinguir TDAH de outras condições.

O estudo atual representa apenas um passo inicial nessa direção.

O que podemos aprender sobre o cérebro?

Talvez a principal contribuição da investigação seja mostrar que a atenção não é um fenómeno estático.

O desempenho pode flutuar rapidamente.

Uma pessoa pode estar mais concentrada num momento e menos concentrada alguns segundos depois.

Essas flutuações podem ser difíceis de captar através de uma pontuação global.

A análise de sinais fisiológicos, como a dinâmica pupilar, oferece uma oportunidade para estudar estas mudanças com maior resolução temporal.

É uma abordagem particularmente interessante porque combina comportamento + fisiologia + tecnologia de eye-tracking.

A principal conclusão

O estudo publicado em 9 de setembro de 2026 na revista Scientific Reports sugere que a dinâmica da pupila pode fornecer informação complementar sobre a variabilidade da atenção e o desempenho cognitivo em crianças com TDAH. (Nature)

Nas crianças com TDAH sem medicação, os investigadores encontraram maior variabilidade entre tentativas em determinados parâmetros pupilares. Sob medicação estimulante, alguns padrões tornaram-se mais semelhantes aos observados no grupo de controlo. (Nature)

Mas é fundamental não exagerar estes resultados.

A pupila ainda não é um teste de TDAH.

O estudo teve uma amostra pequena, e algumas diferenças não permaneceram estatisticamente significativas após correções para múltiplas comparações.

O verdadeiro interesse está no caminho que abre.

No futuro, tecnologias como o eye-tracking poderão ajudar-nos a compreender melhor quando, como e por que razão a atenção varia, complementando as avaliações comportamentais.

E esta investigação reforça uma ideia mais ampla: compreender o desempenho humano exige olhar para a interação entre cérebro, atenção, perceção, movimento e comportamento.

Posso ajudar

Posso integrar exercício, coordenação, estímulos visuais e desafios cognitivos em programas individualizados, adaptando intensidade, complexidade e progressão às necessidades de cada pessoa.