Os cães são considerados por muitas pessoas um membro da família. Além da companhia e da alegria que proporcionam, existe uma questão que desperta cada vez mais o interesse dos investigadores: ter um cão pode realmente melhorar a saúde de toda a família?
A resposta é mais complexa do que um simples “sim” ou “não”. A investigação científica mostra que viver com um cão pode trazer diversos benefícios para a saúde física e mental, mas também existem alguns riscos que não devem ser ignorados.
Mais atividade física, quase sem dar por isso
Um dos benefícios mais consistentes da investigação é o aumento da atividade física.
Quem tem um cão tende a caminhar mais, passa mais tempo ao ar livre e é mais provável que cumpra as recomendações de exercício físico da Organização Mundial da Saúde.
As crianças que vivem com cães também costumam brincar mais no exterior, reduzir o tempo passado em frente aos ecrãs e desenvolver hábitos de vida mais ativos.
Esta maior atividade física pode contribuir para reduzir o risco de obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão arterial e doenças cardiovasculares.
Benefícios para o coração
Uma revisão científica que analisou quase quatro milhões de pessoas concluiu que os donos de cães apresentavam um risco de morte cerca de 24% inferior quando comparados com pessoas que não tinham cães.
Os benefícios foram ainda maiores em indivíduos que já tinham sofrido um enfarte do miocárdio ou um AVC, sugerindo que a companhia de um cão pode favorecer a recuperação e incentivar um estilo de vida mais saudável.
Importa referir que estes estudos demonstram uma associação e não provam que o cão seja diretamente responsável pelos benefícios observados.
Um aliado da saúde mental
A convivência com um cão pode também ter um impacto positivo no bem-estar psicológico.
Diversos estudos sugerem que os cães podem:
- reduzir a sensação de solidão;
- diminuir o stress;
- aumentar o sentimento de segurança;
- promover uma rotina diária;
- facilitar o contacto social com outras pessoas.
Passear um cão aumenta frequentemente as interações com vizinhos e outros donos de animais, ajudando a criar um maior sentido de comunidade.
Para muitas pessoas idosas, esta pode ser uma importante forma de combater o isolamento social.
Um sistema imunitário mais forte nas crianças?
Curiosamente, crescer com um cão poderá ajudar o sistema imunitário.
Os cães transportam para casa uma enorme variedade de microrganismos provenientes do exterior. Esta exposição parece aumentar a diversidade do microbioma doméstico e poderá contribuir para um desenvolvimento mais equilibrado do sistema imunitário das crianças.
Alguns estudos associam a convivência precoce com cães a um menor risco de determinadas infeções respiratórias e a uma menor utilização de antibióticos durante a infância.
Contudo, a investigação sobre alergias continua a apresentar resultados contraditórios, pelo que ainda não existe consenso científico.
Nem tudo são vantagens
Apesar dos benefícios, viver com um cão também pode apresentar alguns riscos.
Entre eles encontram-se:
- alergias aos pelos, saliva ou descamação da pele;
- quedas provocadas pelo animal, especialmente em idosos;
- mordeduras e arranhões;
- transmissão de algumas doenças entre animais e seres humanos (zoonoses), embora pouco frequentes;
- perturbações do sono quando o cão dorme na mesma cama.
Para pessoas com o sistema imunitário fragilizado, estes riscos merecem uma atenção especial.
A saúde do cão também importa
Existe outro aspeto frequentemente esquecido: a relação funciona nos dois sentidos.
Tal como os cães podem melhorar a saúde dos seus donos, também os hábitos dos donos influenciam a saúde dos animais.
Donos sedentários tendem a passear menos os seus cães, aumentando o risco de obesidade e de doenças nos próprios animais.
Além disso, estudos sugerem que os cães conseguem perceber o stress dos seus donos e podem apresentar alterações fisiológicas quando convivem frequentemente com pessoas muito ansiosas.
Cuidar da saúde da família passa, por isso, também por cuidar da saúde do animal.
Então, vale a pena ter um cão?
A ciência sugere que, para muitas famílias, a resposta é sim.
Ter um cão pode incentivar a prática de exercício físico, reduzir o isolamento social, melhorar o bem-estar emocional e contribuir para hábitos de vida mais saudáveis.
No entanto, estes benefícios dependem de uma posse responsável. Um cão necessita de tempo, educação, passeios diários, alimentação adequada, acompanhamento veterinário e atenção constante.
Mais do que um “medicamento” para melhorar a saúde, um cão deve ser visto como um verdadeiro membro da família, cuja qualidade de vida influencia também o bem-estar de quem vive com ele.
Quando existe uma relação saudável entre pessoas e animais, todos podem beneficiar.
- Kramer CK, Mehmood S, Suen RS. Dog Ownership and Survival: A Systematic Review and Meta-analysis. Circulation: Cardiovascular Quality and Outcomes. 2019.
https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/CIRCOUTCOMES.119.005554 - BMJ. Pet ownership and human health: a brief review of evidence and issues.
https://www.bmj.com/content/331/7527/1252 - UCLA Health – For many, owning a dog is good for you
https://www.uclahealth.org/news/article/many-owning-dog-good-you