
A testosterona é habitualmente associada ao aumento da massa muscular, da força física e da libido. No entanto, a investigação científica dos últimos anos tem demonstrado que esta hormona desempenha um papel muito mais abrangente. Um dos campos que mais tem despertado interesse é a sua influência sobre o sistema imunitário.
Durante muito tempo acreditou-se que a testosterona tinha apenas um efeito supressor da imunidade. Hoje sabe-se que a realidade é bastante mais complexa. Estudos recentes sugerem que níveis fisiológicos adequados de testosterona ajudam a regular a resposta inflamatória, promovem o equilíbrio do sistema imunitário e podem contribuir para um envelhecimento mais saudável.
Por outro lado, tanto níveis demasiado baixos como níveis excessivamente elevados podem estar associados a consequências negativas para a saúde.
Neste artigo analisamos o que diz a ciência sobre a ligação entre testosterona e sistema imunitário, quais os valores considerados normais em diferentes idades e como otimizar naturalmente a produção desta importante hormona.
O que é a testosterona?
A testosterona é a principal hormona sexual masculina, sendo produzida maioritariamente nos testículos e, em menor quantidade, pelas glândulas suprarrenais.
Embora seja frequentemente associada à masculinidade, esta hormona participa em inúmeras funções essenciais do organismo:
- Desenvolvimento e manutenção da massa muscular;
- Produção de espermatozoides;
- Manutenção da densidade óssea;
- Produção de glóbulos vermelhos;
- Distribuição da gordura corporal;
- Energia e vitalidade;
- Função cognitiva;
- Humor;
- Recuperação após exercício físico;
- Regulação do sistema imunitário.
Após atingir o pico entre os 20 e os 30 anos, os níveis tendem a diminuir gradualmente cerca de 1% por ano, embora esta redução varie bastante entre indivíduos.
Como a testosterona influencia o sistema imunitário?
O sistema imunitário necessita de um equilíbrio muito delicado.
Uma resposta imunitária demasiado fraca aumenta o risco de infeções. Uma resposta excessiva favorece doenças inflamatórias e autoimunes.
É precisamente neste equilíbrio que a testosterona parece desempenhar um papel importante.
Atualmente considera-se que esta hormona funciona como um modulador imunológico, ajudando a controlar a intensidade da inflamação sem comprometer a capacidade do organismo combater vírus e bactérias.
Entre os seus principais efeitos encontram-se:
- redução da produção excessiva de citocinas pró-inflamatórias;
- regulação da atividade das células T;
- influência na função das células Natural Killer (NK);
- modulação dos macrófagos;
- possível redução da inflamação crónica associada ao envelhecimento.
Este efeito poderá explicar porque homens com défice de testosterona apresentam frequentemente níveis superiores de marcadores inflamatórios como a proteína C reativa (PCR) e a interleucina-6 (IL-6).
O que revelam os estudos mais recentes?
A investigação nesta área evoluiu bastante nos últimos anos.
Uma revisão publicada no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism concluiu que homens com hipogonadismo apresentam níveis mais elevados de inflamação sistémica, sendo que a normalização da testosterona pode reduzir alguns destes marcadores.
Em 2024, investigadores verificaram que concentrações fisiológicas de testosterona favorecem uma resposta imunitária mais equilibrada, especialmente em homens de meia-idade e idosos.
Estudos laboratoriais publicados em 2025 demonstraram ainda que esta hormona influencia diretamente a atividade das células T reguladoras, importantes para evitar respostas inflamatórias exageradas.
Outro aspeto interessante prende-se com o envelhecimento. A chamada “inflammaging”, uma inflamação crónica de baixo grau associada à idade, parece estar relacionada, entre outros fatores, com a diminuição progressiva da testosterona.
Embora sejam necessários mais estudos, existe atualmente consenso de que manter níveis hormonais adequados pode contribuir para um envelhecimento mais saudável.
Testosterona baixa e imunidade
Quando a testosterona diminui abaixo dos valores adequados, podem surgir diversos sintomas.
Os mais frequentes incluem:
- fadiga persistente;
- diminuição da força;
- perda de massa muscular;
- aumento da gordura abdominal;
- redução da libido;
- alterações do humor;
- menor motivação;
- recuperação mais lenta após esforço físico.
Além destes sintomas, vários estudos associam níveis baixos a:
- aumento da inflamação;
- maior risco cardiovascular;
- síndrome metabólica;
- diabetes tipo 2;
- diminuição da densidade óssea.
Importa, contudo, recordar que estes sintomas não são exclusivos do défice de testosterona e exigem sempre avaliação médica.
Mais testosterona significa melhor sistema imunitário?
Não.
Esta é uma das maiores ideias erradas difundidas nas redes sociais.
A ciência não demonstra benefícios em aumentar artificialmente a testosterona para valores acima do intervalo fisiológico.
Pelo contrário.
Níveis excessivamente elevados, sobretudo devido ao uso de esteroides anabolizantes, podem provocar:
- alterações da função imunitária;
- aumento da pressão arterial;
- maior risco cardiovascular;
- infertilidade;
- alterações hepáticas;
- acne;
- policitemia.
O objetivo não é atingir o valor máximo possível.
O importante é manter valores compatíveis com a idade e com uma boa qualidade de vida.
Valores de testosterona por idade
Os valores podem variar ligeiramente entre laboratórios, mas estes intervalos são habitualmente utilizados para a testosterona total.
| Idade | Intervalo habitualmente aceite |
| 20–29 anos | 300–1000 ng/dL |
| 30–39 anos | 300–950 ng/dL |
| 40–49 anos | 280–900 ng/dL |
| 50–59 anos | 250–850 ng/dL |
| 60–69 anos | 220–800 ng/dL |
| ≥70 anos | 200–750 ng/dL |
Mais importante do que comparar o valor com o de um homem de 25 anos é avaliar:
- sintomas;
- testosterona livre;
- SHBG;
- LH;
- FSH;
- estado geral de saúde.
Como aumentar naturalmente a testosterona
Na maioria dos homens, as melhores estratégias continuam a ser hábitos de vida consistentes.
1. Dormir bem
Dormir menos de seis horas por noite pode reduzir significativamente os níveis hormonais.
A maioria dos adultos beneficia de 7 a 9 horas de sono.
2. Fazer treino de força
O exercício de resistência continua a ser uma das intervenções mais eficazes para preservar massa muscular e favorecer um ambiente hormonal saudável.
3. Evitar excesso de gordura abdominal
A obesidade está fortemente associada à redução da testosterona.
4. Consumir proteína suficiente
A proteína ajuda na manutenção da massa muscular e na recuperação após o treino.
5. Garantir gorduras saudáveis
Dietas extremamente pobres em gordura podem diminuir a produção hormonal.
6. Corrigir défices nutricionais
Vitamina D, zinco e magnésio desempenham funções importantes na saúde hormonal quando existe deficiência.
7. Reduzir o stress
O aumento crónico do cortisol interfere negativamente com a produção de testosterona.
8. Evitar tabaco e excesso de álcool
Ambos estão associados à diminuição da função hormonal e ao aumento da inflamação.
Quando deve realizar análises?
Poderá ser útil discutir a realização de análises com o seu médico se apresentar:
- fadiga persistente;
- diminuição da libido;
- perda inexplicável de força;
- redução da massa muscular;
- dificuldades de recuperação;
- osteopenia ou osteoporose;
- infertilidade.
Idealmente, a colheita deve ser realizada de manhã, entre as 7 e as 10 horas, quando a testosterona atinge normalmente o seu pico diário.
Conclusão
A testosterona influencia muito mais do que a força ou a libido. Atualmente sabemos que desempenha um papel importante na regulação do sistema imunitário, ajudando a controlar a inflamação e contribuindo para o equilíbrio das defesas do organismo.
No entanto, o benefício parece existir apenas dentro de um intervalo fisiológico. Valores demasiado baixos podem associar-se a inflamação e perda de qualidade de vida, enquanto níveis excessivamente elevados também podem ser prejudiciais.
A melhor estratégia continua a passar por um estilo de vida saudável, com exercício regular, alimentação equilibrada, sono adequado e acompanhamento médico sempre que existam sintomas sugestivos de défice hormonal.
Posso ajudar?
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Referências
- Harvard Health – https://www.health.harvard.edu/mens-health/why-testosterone-levels-drop-and-when-to-consider-treatment
- Endocrine Society Clinical Practice Guideline – https://academic.oup.com/jcem/article/103/5/1715/4939465
- National Institutes of Health (PubMed) – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=testosterone+immune+system
- Nature Reviews Immunology – https://www.nature.com/nri/
- Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism – https://academic.oup.com/jcem