Transplante de microbiota fecal poderá ajudar a tratar alergias alimentares?

Transplante de microbiota fecal poderá ajudar a tratar alergias alimentares? August 14, 2026Leave a comment

As alergias alimentares afetam milhões de pessoas em todo o mundo e podem provocar reações graves, incluindo anafilaxia, uma emergência médica potencialmente fatal. Atualmente, não existe uma cura definitiva para a maioria destas alergias, pelo que os doentes têm de evitar rigorosamente os alimentos desencadeantes e transportar frequentemente medicação de emergência.

Agora, um estudo pioneiro trouxe uma nova esperança: investigadores realizaram o primeiro ensaio clínico em humanos utilizando transplante de microbiota fecal (TMF) para tratar a alergia ao amendoim.

Embora os resultados sejam preliminares, abrem uma nova área de investigação baseada na relação entre as bactérias intestinais e o sistema imunitário.

O que é um transplante de microbiota fecal?

O transplante de microbiota fecal consiste em transferir bactérias intestinais de uma pessoa saudável para outra pessoa, com o objetivo de restaurar um microbioma mais equilibrado.

Apesar do nome pouco apelativo, atualmente este procedimento pode ser realizado através de cápsulas contendo bactérias cuidadosamente processadas e rigorosamente testadas, sem necessidade de procedimentos invasivos.

Este tratamento já demonstrou elevada eficácia em algumas infeções intestinais recorrentes por Clostridioides difficile, estando aprovado para essa indicação em vários países.

Como foi realizado o estudo?

Os investigadores recrutaram 15 adultos com alergia grave ao amendoim.

Todos apresentavam uma elevada sensibilidade, reagindo a quantidades muito pequenas de proteína de amendoim durante testes realizados em ambiente hospitalar.

Os participantes receberam cápsulas contendo microbiota intestinal proveniente de dadores saudáveis sem alergias alimentares.

Posteriormente, um segundo grupo recebeu primeiro um curto tratamento com antibióticos antes do transplante, com o objetivo de facilitar a colonização das novas bactérias no intestino.

Quais foram os resultados?

Os resultados foram encorajadores, embora modestos.

Dos 15 participantes:

  • 6 pessoas (40%) aumentaram significativamente a quantidade de amendoim que conseguiam tolerar;
  • Os restantes 9 participantes não apresentaram melhorias relevantes.

Entre os participantes que receberam antibióticos antes do transplante, os resultados pareceram ainda melhores, sugerindo que preparar previamente o microbioma poderá aumentar a eficácia do tratamento.

Importa salientar que ninguém apresentou reações alérgicas relacionadas com o transplante e os efeitos adversos observados foram ligeiros.

Porque poderá funcionar?

O intestino alberga biliões de bactérias que desempenham um papel essencial na regulação do sistema imunitário.

Algumas destas bactérias produzem substâncias capazes de estimular células reguladoras do sistema imunitário, ajudando o organismo a distinguir entre substâncias perigosas e alimentos normalmente inofensivos.

Os investigadores verificaram que apenas os participantes que responderam ao tratamento apresentaram alterações favoráveis nestas células reguladoras, reforçando a hipótese de que determinadas bactérias podem promover a tolerância alimentar.

Ainda não é uma cura

Apesar dos resultados positivos, este estudo envolveu apenas 15 participantes e não permite concluir que o transplante de microbiota seja uma cura para as alergias alimentares.

Serão necessários ensaios clínicos maiores para confirmar:

  • quais as bactérias realmente responsáveis pelo efeito observado;
  • quais os doentes que poderão beneficiar mais;
  • quanto tempo dura o efeito;
  • qual a melhor forma de administrar o tratamento.

O objetivo futuro poderá nem passar pelo transplante de fezes completo, mas sim por cápsulas contendo apenas as bactérias benéficas identificadas pelos investigadores.

O que significa este estudo?

Este trabalho representa uma importante prova de conceito.

Pela primeira vez, um ensaio clínico demonstrou que modificar o microbioma intestinal pode aumentar a tolerância ao amendoim em algumas pessoas com alergia grave.

Embora ainda seja cedo para alterar a prática clínica, estes resultados reforçam a importância do microbioma intestinal na regulação do sistema imunitário e poderão abrir caminho a novas terapias mais seguras e eficazes para as alergias alimentares.

À medida que a investigação avança, é possível que, no futuro, tratamentos baseados em bactérias específicas façam parte das estratégias para reduzir o risco de reações alérgicas graves, complementando as terapias atualmente disponíveis.