“Se dói, devo parar?”
Esta é uma das perguntas que mais ouço de quem pratica exercício físico. A resposta não é um simples “sim” ou “não”.
Em muitos casos, é possível continuar a treinar com alguma dor, desde que o exercício seja adaptado e a situação seja cuidadosamente avaliada. Noutras situações, a dor pode ser um sinal de que o organismo precisa de descanso ou de uma avaliação clínica.
Saber distinguir estas situações é essencial para recuperar mais depressa e evitar lesões.
Dor não significa sempre lesão
É natural associarmos a dor a um problema nos tecidos. No entanto, a relação entre dor e lesão nem sempre é direta.
Existem pessoas com alterações visíveis em exames de imagem que não sentem qualquer dor. Por outro lado, algumas pessoas apresentam dores intensas sem existir uma lesão significativa.
A dor é uma experiência complexa que resulta da interação entre os tecidos, o sistema nervoso, as emoções, o stress, o sono e o contexto em que vivemos.
Por isso, a intensidade da dor nem sempre reflete a gravidade da lesão.
Quando pode ser seguro continuar a treinar?
Em muitas situações músculo-esqueléticas, é possível manter algum nível de atividade física.
De uma forma geral, o exercício pode ser seguro quando:
- A dor é ligeira a moderada.
- Não piora progressivamente durante o treino.
- Regressa ao nível habitual nas 24 horas seguintes.
- Não existe perda significativa de força.
- Não há instabilidade da articulação.
- O movimento pode ser adaptado sem aumentar os sintomas.
Nestes casos, reduzir a carga, modificar o exercício ou diminuir o volume de treino costuma ser mais eficaz do que interromper completamente a atividade.
Quando deve parar o treino?
Existem situações em que a dor merece maior atenção.
Deve interromper o exercício e procurar uma avaliação se ocorrer:
- Dor intensa e súbita.
- Sensação de estalido acompanhada de incapacidade funcional.
- Deformidade da articulação.
- Incapacidade para suportar o peso do corpo.
- Perda importante de força.
- Dormência persistente.
- Inchaço acentuado após um traumatismo.
- Dor que piora continuamente durante vários dias.
Nestes casos, é importante excluir uma lesão que necessite de tratamento específico.
A regra das 24 horas
Uma estratégia frequentemente utilizada na reabilitação é observar como o corpo reage nas 24 horas após o exercício.
Se os sintomas regressarem ao nível habitual até ao dia seguinte, a carga utilizada pode ter sido adequada.
Se a dor aumentar significativamente e persistir durante vários dias, poderá ser necessário ajustar o treino.
Esta abordagem ajuda a encontrar um equilíbrio entre estimular a recuperação e evitar sobrecarga.
O descanso absoluto nem sempre é a solução
Durante muitos anos recomendava-se parar completamente sempre que existia dor.
Hoje sabemos que, para muitas condições músculo-esqueléticas, o repouso prolongado pode atrasar a recuperação.
O exercício adaptado ajuda a:
- Manter a força muscular.
- Preservar a mobilidade.
- Melhorar a circulação.
- Reduzir a rigidez.
- Recuperar a confiança no movimento.
O segredo está em encontrar a dose certa de carga.
A importância da avaliação individual
Cada pessoa responde de forma diferente.
A mesma dor pode ter causas completamente distintas.
Por isso, antes de decidir continuar ou parar o treino, é importante avaliar:
- A origem da dor.
- O tipo de lesão.
- A intensidade dos sintomas.
- A mobilidade.
- A força muscular.
- O controlo do movimento.
- Os objetivos da pessoa.
Esta informação permite adaptar o programa de exercício de forma segura.
O papel da Osteopatia e do P-DTR
Dependendo da avaliação, algumas pessoas podem beneficiar da combinação de exercício terapêutico com técnicas de terapia manual.
Na minha prática clínica utilizo a Osteopatia para melhorar a mobilidade quando está indicada e o P-DTR (Proprioceptive Deep Tendon Reflex) como complemento na avaliação e tratamento de alterações do controlo neuromuscular.
Estas abordagens não substituem o exercício, mas podem facilitar a recuperação quando integradas num plano individualizado baseado na evidência científica.
O que diz a ciência?
As recomendações internacionais defendem que, para muitas dores músculo-esqueléticas, manter um nível adequado de atividade física é mais benéfico do que o repouso absoluto.
O exercício progressivo, adaptado à capacidade de cada pessoa, ajuda a reduzir a dor, melhorar a função e acelerar o regresso às atividades diárias e desportivas.
A decisão de treinar com dor deve ser baseada numa avaliação clínica e não apenas na intensidade dos sintomas
Referências científicas (links clicáveis)
Caneiro JP, O’Sullivan P, et al. Management of Musculoskeletal Pain Through Exercise and Education
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30335649/
American College of Sports Medicine. ACSM’s Guidelines for Exercise Testing and Prescription
https://acsm.org/education-resources/books/guidelines-exercise-testing-prescription/
National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Management of Musculoskeletal Conditions
https://www.nice.org.uk/guidance/ng59
Hodges PW, Tucker K. Moving Differently in Pain: A New Theory to Explain the Adaptation to Pain. Pain. 2011
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21474308/
Hartvigsen J, Hancock MJ, Kongsted A, et al. What Low Back Pain Is and Why We Need to Pay Attention. The Lancet. 2018
https://www.thelancet.com/article/S0140-6736(18)30480-X/fulltext
Leitura complementar
O’Sullivan P. It’s Time for Change With the Management of Non-Specific Chronic Low Back Pain
https://bjsm.bmj.com/content/46/4/224
Foster NE, Anema JR, Cherkin D, et al. Prevention and Treatment of Low Back Pain: Evidence, Challenges, and Promising Directions. The Lancet. 2018
https://www.thelancet.com/article/S0140-6736(18)30489-6/fulltext
Posso ajudar?
Se tem dúvidas sobre se deve continuar a treinar com dor ou precisa de adaptar o seu programa de exercício após uma lesão, uma avaliação individual pode ajudá-lo a tomar essa decisão com maior segurança.
Sou Marcelo Barros, Personal Trainer desde 1995, antigo Personal Trainer oficial da Men’s Health (2003–2015), especialista em joelho e coluna, com formação em Osteopatia e em P-DTR (Proprioceptive Deep Tendon Reflex).
Nas consultas analiso a origem da dor, a biomecânica do movimento, a força, a mobilidade e o controlo neuromuscular para desenvolver um plano de recuperação personalizado.
Realizo avaliações presenciais no Lemon Fit, no Parque das Nações (Lisboa), e acompanhamento online por videochamada.
Se pretende continuar ativo sem agravar a sua lesão, entre em contacto para agendar uma avaliação. Juntos podemos encontrar a forma mais segura e eficaz de regressar ao treino.