Um novo tratamento pode recuperar grande parte do cabelo perdido na alopecia areata grave

Um novo tratamento pode recuperar grande parte do cabelo perdido na alopecia areata grave September 18, 2026Leave a comment

A queda de cabelo nem sempre é apenas uma questão estética. Na alopecia areata, uma doença inflamatória mediada pelo sistema imunitário, o organismo ataca os folículos capilares e pode provocar perda de cabelo extensa, incluindo as sobrancelhas e as pestanas.

Nos casos mais graves, a doença pode afetar uma grande parte ou praticamente todo o couro cabeludo. Além do impacto físico, a perda de cabelo pode interferir significativamente com a qualidade de vida, autoestima e bem-estar psicológico.

Um novo trabalho publicado na JAMA Dermatology em agosto de 2026 apresenta resultados de dois grandes ensaios clínicos de fase 3 que avaliaram o upadacitinib, um medicamento oral que atua sobre determinadas vias do sistema imunitário.

Os resultados mostram que, ao fim de 24 semanas, uma proporção significativa dos participantes tratados com upadacitinib atingiu pelo menos 80% de cobertura do couro cabeludo, enquanto isso aconteceu apenas numa pequena percentagem dos participantes que receberam placebo.

O que é a alopecia areata?

A alopecia areata é uma doença em que o sistema imunitário interfere com o funcionamento normal dos folículos capilares.

Ao contrário da alopecia androgenética, que está relacionada sobretudo com fatores genéticos e hormonais, a alopecia areata é uma doença imunomediada.

Pode surgir em qualquer idade e apresentar diferentes graus de gravidade.

Algumas pessoas desenvolvem apenas pequenas áreas circulares sem cabelo. Outras podem perder uma grande quantidade de cabelo. Nas formas mais extensas, conhecidas como alopecia totalis ou alopecia universalis, a perda pode atingir praticamente todo o couro cabeludo ou também outras regiões do corpo.

O novo estudo concentrou-se precisamente nos casos graves.

O que foi estudado?

Os investigadores realizaram dois ensaios clínicos internacionais, denominados UP-AA1 e UP-AA2.

Os estudos foram realizados entre 2023 e 2025 e incluíram adolescentes e adultos com alopecia areata grave.

Foram randomizados 1.399 participantes nos dois ensaios. A idade média era de aproximadamente 36 anos e os participantes tinham uma perda de cabelo muito extensa.

O estudo incluiu 118 adolescentes entre os 12 e os 17 anos.

Os participantes apresentavam um valor de SALT igual ou superior a 50. O SALT, ou Severity of Alopecia Tool, é uma escala utilizada para quantificar a extensão da perda de cabelo no couro cabeludo.

Como funciona o upadacitinib?

O upadacitinib é um medicamento oral pertencente à classe dos inibidores das Janus quinases, conhecidos como inibidores JAK.

As Janus quinases participam na transmissão de determinados sinais utilizados pelo sistema imunitário.

Na alopecia areata, várias vias inflamatórias participam no ataque aos folículos capilares. A inibição de determinadas vias JAK pode reduzir essa atividade inflamatória.

O objetivo não é simplesmente estimular diretamente o crescimento do cabelo. A estratégia é atuar sobre um dos mecanismos imunológicos envolvidos na doença.

Como foram realizados os dois ensaios?

Os participantes foram distribuídos aleatoriamente para receber:

  • 15 mg de upadacitinib uma vez por dia;
  • 30 mg de upadacitinib uma vez por dia;
  • ou placebo.

O período inicial controlado por placebo durou 24 semanas, seguido de uma extensão cega de 28 semanas.

O principal objetivo era determinar quantos participantes conseguiam atingir um SALT igual ou inferior a 20 na semana 24.

Um SALT ≤20 significa que a pessoa tinha, no máximo, cerca de 20% de perda de cabelo no couro cabeludo, ou seja, pelo menos 80% de cobertura capilar.

Os resultados foram expressivos

No primeiro estudo, 45,2% dos participantes que receberam 15 mg de upadacitinib atingiram SALT ≤20 na semana 24.

Com 30 mg, a percentagem foi de 55,0%.

No grupo placebo, apenas 1,5% atingiu esse objetivo.

No segundo estudo, os resultados foram semelhantes.

44,6% dos participantes tratados com 15 mg atingiram SALT ≤20, enquanto a percentagem chegou a 54,3% com 30 mg.

No grupo placebo, apenas 3,4% atingiram o mesmo objetivo.

Assim, os dois ensaios apresentaram resultados consistentes, com uma diferença clara entre os grupos tratados e o placebo. [oai_citation:1‡JAMA Network](https://jamanetwork.com/journals/jamadermatology/fullarticle/2852906)

Mais do que simplesmente recuperar algum cabelo

Um dos aspetos interessantes da investigação é que os investigadores não analisaram apenas uma pequena melhoria na quantidade de cabelo.

Também avaliaram objetivos mais exigentes.

Um deles foi atingir um SALT ≤10, correspondente a uma perda de cabelo igual ou inferior a 10%.

No primeiro estudo, esse objetivo foi atingido por 35,2% dos participantes tratados com 15 mg e por 45,8% dos tratados com 30 mg.

No segundo estudo, as percentagens foram de 36,0% e 47,1%, respetivamente.

Mais uma vez, os resultados foram muito superiores aos observados com placebo. [oai_citation:2‡JAMA Network](https://jamanetwork.com/journals/jamadermatology/fullarticle/2852906)

Também houve recuperação das sobrancelhas e pestanas

A alopecia areata pode afetar muito mais do que o couro cabeludo.

A perda de sobrancelhas e pestanas pode ter um impacto funcional e estético importante.

Por isso, os investigadores incluíram também avaliações específicas destas regiões.

No UP-AA1, por exemplo, cerca de 40,6% dos participantes tratados com 15 mg e 61,8% dos tratados com 30 mg atingiram o critério definido para melhoria das sobrancelhas.

No UP-AA2, os valores correspondentes foram 41,7% e 58,9%.

Também foram observadas melhorias significativas nas pestanas. [oai_citation:3‡JAMA Network](https://jamanetwork.com/journals/jamadermatology/fullarticle/2852906)

A qualidade de vida também melhorou

A importância deste tipo de tratamento não se limita à quantidade de cabelo recuperado.

A alopecia areata pode afetar profundamente a qualidade de vida, especialmente quando a perda de cabelo é extensa e permanece durante longos períodos.

Os ensaios avaliaram medidas relacionadas com sintomas, funcionamento e impacto emocional da doença.

Os resultados secundários incluíram melhorias em medidas específicas de qualidade de vida relacionadas com a alopecia areata.

Isso é importante porque o objetivo de um tratamento não deve ser apenas melhorar uma fotografia do couro cabeludo, mas também melhorar a experiência da pessoa que vive com a doença.

O tratamento funcionou rapidamente?

Os investigadores observaram diferenças entre os grupos ao longo do período de tratamento, incluindo avaliações realizadas antes da semana 24.

O objetivo principal, contudo, foi definido para a semana 24.

É importante não interpretar estes resultados como significando que todas as pessoas recuperarão cabelo rapidamente ou que o tratamento produzirá os mesmos resultados em todos os indivíduos.

A resposta aos tratamentos da alopecia areata pode variar consideravelmente.

E quanto aos efeitos adversos?

Como acontece com qualquer medicamento que interfere no sistema imunitário, a avaliação da segurança é particularmente importante.

Nos dois estudos, os acontecimentos adversos mais frequentemente relatados incluíram infeções respiratórias superiores, nasofaringite, acne e aumento da creatina fosfoquinase (CPK).

A acne foi mais frequente nos grupos tratados com upadacitinib.

Considerando os dois ensaios em conjunto, acontecimentos adversos graves ocorreram em:

  • 1,6% dos participantes tratados com 15 mg;
  • 2,3% dos participantes tratados com 30 mg;
  • 0,4% dos participantes que receberam placebo.

Não ocorreram mortes durante o período analisado.

O estudo não identificou novos problemas de segurança relativamente ao perfil já conhecido do medicamento nas indicações aprovadas. [oai_citation:4‡JAMA Network](https://jamanetwork.com/journals/jamadermatology/fullarticle/2852906)

Porque é importante distinguir eficácia de segurança?

Um medicamento pode demonstrar eficácia num ensaio clínico e, simultaneamente, exigir acompanhamento médico rigoroso.

Os inibidores JAK são medicamentos sistémicos que interferem com mecanismos do sistema imunitário. Por isso, a sua utilização não deve ser comparada com produtos cosméticos, suplementos alimentares ou tratamentos tópicos de venda livre.

A decisão de utilizar este tipo de tratamento depende da avaliação médica da gravidade da doença, do historial do paciente, de outros medicamentos utilizados e dos potenciais riscos e benefícios.

O que este estudo muda no tratamento da alopecia areata?

Os resultados reforçam a importância dos tratamentos dirigidos às vias imunológicas na alopecia areata grave.

Durante muito tempo, as opções terapêuticas para formas extensas da doença eram limitadas e as respostas podiam ser incompletas.

A investigação com medicamentos que atuam especificamente sobre mecanismos imunológicos envolvidos na doença está a alterar esse cenário.

Este estudo acrescenta evidência de fase 3 para o upadacitinib, demonstrando eficácia em dois ensaios independentes e incluindo adultos e adolescentes.

O que não podemos concluir deste estudo?

Apesar dos resultados positivos, existem várias limitações importantes.

Em primeiro lugar, os participantes tinham alopecia areata grave. Portanto, os resultados não podem ser automaticamente aplicados a todas as pessoas com queda de cabelo.

Em segundo lugar, o estudo acompanhou os participantes durante um período relativamente limitado para uma doença crónica.

A alopecia areata pode apresentar períodos de atividade e remissão, e uma questão importante para o futuro será perceber durante quanto tempo a resposta permanece e o que acontece quando o tratamento é interrompido.

Também é necessário distinguir alopecia areata de outras causas de queda de cabelo, como alopecia androgenética, eflúvio telógeno, défices nutricionais ou determinadas doenças do couro cabeludo.

Queda de cabelo não significa necessariamente alopecia areata

Este ponto é particularmente importante.

Nem toda a queda de cabelo deve ser tratada com medicamentos imunológicos.

A queda de cabelo pode ter muitas causas diferentes. Stress fisiológico, perda rápida de peso, alterações hormonais, doenças, medicamentos, défices nutricionais e fatores genéticos podem contribuir para diferentes formas de alopecia.

Na alopecia areata, é frequente surgirem áreas bem delimitadas de perda de cabelo, mas o diagnóstico deve ser realizado por um profissional de saúde, muitas vezes através da observação do couro cabeludo e, quando necessário, de exames complementares.

O exercício pode ajudar na saúde do cabelo?

O exercício físico não é um tratamento comprovado para substituir a terapêutica médica da alopecia areata.

No entanto, a atividade física regular faz parte de um estilo de vida associado a benefícios cardiovasculares, metabólicos e psicológicos.

Também é importante manter uma alimentação adequada, sono suficiente e evitar dietas extremamente restritivas, particularmente quando existe perda de peso rápida.

Estes comportamentos podem contribuir para a saúde geral, mas não devem ser apresentados como uma cura para uma doença imunomediada como a alopecia areata.

Conclusão

Os dois ensaios clínicos de fase 3 publicados na JAMA Dermatology em 12 de agosto de 2026 mostram resultados relevantes para pessoas com alopecia areata grave.

Entre 1.399 participantes, o tratamento diário com upadacitinib durante 24 semanas aumentou significativamente a probabilidade de recuperar pelo menos 80% da cobertura capilar do couro cabeludo.

Com 15 mg, cerca de 45% dos participantes atingiram SALT ≤20 nos dois estudos; com 30 mg, cerca de 54% a 55% atingiram esse objetivo. No placebo, os valores ficaram entre 1,5% e 3,4%.

Também foram observadas melhorias nas sobrancelhas, pestanas e medidas de qualidade de vida.

Estes resultados não significam que o medicamento funcione para todas as pessoas nem que seja apropriado para qualquer tipo de queda de cabelo. Mas representam evidência clínica importante de que a modulação de determinadas vias imunológicas pode produzir recuperação capilar significativa em pessoas com alopecia areata grave.

A principal mensagem é simples: queda de cabelo extensa merece diagnóstico correto. Quando existe alopecia areata grave, a evolução dos tratamentos sistémicos está a criar novas possibilidades terapêuticas que devem ser avaliadas individualmente por dermatologia.

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Referências