Durante muitos anos, a diabetes tipo 1 foi considerada sobretudo uma doença autoimune em que o sistema imunitário destrói progressivamente as células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina.
Esta descrição continua correcta, mas uma nova investigação sugere que a história pode ser mais complexa.
Um estudo publicado na revista científica Diabetologia em 31 de agosto de 2026 identificou diferenças importantes na genética e nos mecanismos biológicos associados à progressão da diabetes tipo 1. Os investigadores compararam pessoas com diferentes variantes de alto risco do sistema HLA e encontraram evidências de que podem existir diferentes caminhos biológicos até à diabetes tipo 1. (Springer Nature Link)
O trabalho analisou dados genéticos de 9.091 pessoas com diabetes tipo 1 e 14.157 controlos, provenientes de vários grupos de investigação.
A principal conclusão é interessante: a diabetes tipo 1 poderá não ser uma doença única do ponto de vista biológico, mas incluir diferentes subtipos ou “endótipos”, determinados em parte pelo contexto genético e imunológico de cada pessoa.
O que é a diabetes tipo 1?
A diabetes tipo 1 é uma doença autoimune.
O sistema imunitário, que normalmente protege o organismo contra agentes externos, passa a reconhecer componentes das células beta pancreáticas como alvos.
Com a progressiva destruição dessas células, a produção de insulina diminui.
Quando a quantidade de insulina disponível deixa de ser suficiente, a glicose acumula-se no sangue, originando hiperglicemia.
A diabetes tipo 1 pode surgir na infância, adolescência ou idade adulta.
Uma das características mais interessantes da doença é precisamente a sua enorme variabilidade.
Algumas pessoas desenvolvem diabetes muito cedo. Outras só são diagnosticadas décadas mais tarde.
Algumas apresentam determinados autoanticorpos primeiro, enquanto outras desenvolvem uma sequência diferente de respostas autoimunes.
Por que razão isto acontece?
O novo estudo ajuda a responder parcialmente a esta pergunta.
O papel da genética
A genética desempenha um papel importante no risco de diabetes tipo 1.
Um dos principais grupos de genes envolvidos pertence ao sistema HLA — Human Leukocyte Antigen, uma parte fundamental do sistema imunitário.
O HLA participa na forma como o organismo apresenta determinadas moléculas às células imunitárias, ajudando o sistema imunitário a distinguir o que pertence ao organismo daquilo que pode representar uma ameaça.
Entre as variantes de maior risco encontram-se dois grupos conhecidos como HLA-DR3-DQ2 e HLA-DR4-DQ8.
No novo estudo, os investigadores utilizaram estas características genéticas para dividir as pessoas com diabetes tipo 1 em dois grandes grupos: pessoas com perfil DR3 e pessoas com perfil DR4. (Springer Nature Link)
O objectivo era perceber se a genética associada à doença era exactamente igual nos dois grupos.
E a resposta foi: não completamente.
DR3 e DR4 podem representar caminhos diferentes
Os investigadores encontraram apenas uma correlação genética moderada entre diabetes tipo 1 associada ao DR3 e diabetes tipo 1 associada ao DR4.
A correlação genética foi de aproximadamente 0,6 na análise principal, mostrando que existe uma parte importante do risco genético que não é exactamente igual entre os dois grupos. (Springer Nature Link)
Quando os investigadores retiraram a região HLA da análise, a correlação genética foi de cerca de 0,68.
Para perceber a importância deste resultado, os autores compararam esta diferença com outras formas de dividir a diabetes tipo 1.
A genética da doença apresentou uma correlação muito maior quando os indivíduos foram separados por sexo ou por idade de diagnóstico.
Isto sugere que o perfil HLA poderá representar uma divisão biologicamente mais importante do que algumas características clínicas tradicionais.
Porque é que os autoanticorpos são importantes?
A diabetes tipo 1 pode ser precedida durante anos pelo aparecimento de autoanticorpos dirigidos contra componentes das células dos ilhéus pancreáticos.
Dois dos autoanticorpos mais importantes são:
- GADA, relacionado com a descarboxilase do ácido glutâmico;
- IAA, autoanticorpos contra a insulina.
O perfil DR3 está associado mais frequentemente ao desenvolvimento inicial de GADA, enquanto o DR4 está mais associado ao aparecimento inicial de IAA. (Springer Nature Link)
Esta diferença é importante porque o primeiro autoanticorpo detectado pode estar relacionado com a idade de aparecimento da doença e com diferentes características da progressão da autoimunidade.
Assim, os investigadores utilizaram DR3 e DR4 como uma espécie de marcadores genéticos indirectos de diferentes trajectórias da doença.
O sistema imunitário parece comportar-se de forma diferente
Uma das descobertas mais interessantes do estudo foi a identificação de diferentes padrões associados às células do sistema imunitário.
Nas pessoas com diabetes tipo 1 associada ao DR4, os investigadores encontraram maior enriquecimento de variantes genéticas relacionadas com regiões reguladoras específicas das células T e com vias biológicas associadas às células T.
As células T desempenham um papel fundamental na resposta imunitária e são consideradas importantes na destruição autoimune das células beta pancreáticas.
No grupo DR3 surgiu outro padrão.
Neste caso, os investigadores encontraram maior enriquecimento em regiões reguladoras associadas às células mastocitárias, bem como em vias relacionadas com secreção celular. (Springer Nature Link)
Isto significa que diferentes células do sistema imunitário podem assumir maior importância dependendo do contexto genético.
O que são células T?
As células T são um tipo de linfócito essencial para a imunidade adaptativa.
Participam na identificação e eliminação de células infectadas, coordenam respostas imunitárias e podem também estar envolvidas em doenças autoimunes.
Na diabetes tipo 1, as células T podem reconhecer componentes das células beta como alvos e contribuir para a sua destruição.
O novo estudo encontrou uma associação particularmente forte entre o perfil DR4 e vias relacionadas com células T.
Isto não significa que as células T sejam importantes apenas em pessoas com DR4.
Significa que a sua contribuição genética pode ser relativamente mais importante neste contexto específico.
E as células mastocitárias?
As células mastocitárias são células do sistema imunitário conhecidas sobretudo pelo seu papel em reacções alérgicas e inflamatórias.
Contêm grânulos com diversas substâncias biologicamente activas e participam na comunicação entre diferentes componentes do sistema imunitário.
No grupo associado ao DR3, o estudo encontrou um enriquecimento particularmente interessante de variantes genéticas em regiões reguladoras relacionadas com células mastocitárias.
Esta descoberta não prova que as células mastocitárias causem diabetes tipo 1.
É uma associação genética que ajuda a identificar vias que poderão merecer investigação futura.
É precisamente assim que estudos deste tipo funcionam: não apresentam necessariamente uma nova causa da doença, mas ajudam a identificar mecanismos que podem ser importantes.
Um gene chamou particularmente a atenção
Entre os genes analisados, o IL2 apresentou um efeito significativamente maior no grupo DR4.
A IL-2 é uma molécula importante na regulação da resposta imunitária e na função das células T.
Esta descoberta reforça a ideia de que determinadas vias imunológicas podem ter um peso diferente dependendo do perfil HLA da pessoa. (Springer Nature Link)
Outros loci, como TAGAP e KLRG1, também apresentaram sinais de heterogeneidade, embora com evidência estatística menos forte.
O estudo identificou, no total, 11 regiões genéticas que atingiram significância ao nível de todo o genoma, todas elas já associadas anteriormente ao risco de diabetes tipo 1. (Springer Nature Link)
A novidade não foi necessariamente descobrir novos genes de risco.
Foi perceber que o efeito de determinados genes pode variar consoante o contexto HLA.
Isto significa que existem vários tipos de diabetes tipo 1?
Ainda não podemos afirmar isso dessa forma.
O estudo fornece evidência de que existem diferentes padrões genéticos e biológicos associados à diabetes tipo 1.
Mas transformar esses padrões em classificações clínicas formais exigirá muito mais investigação.
Será necessário perceber se estas diferenças genéticas também se traduzem em:
- diferentes velocidades de progressão;
- diferentes idades de diagnóstico;
- diferentes respostas a tratamentos;
- diferentes respostas a intervenções preventivas;
- diferentes manifestações clínicas;
- ou diferentes riscos de complicações.
É possível que, no futuro, a expressão “diabetes tipo 1” seja complementada por uma caracterização muito mais detalhada do perfil imunológico e genético de cada pessoa.
Porque é que isto pode ser importante para a prevenção?
Esta é provavelmente uma das aplicações futuras mais interessantes.
Actualmente, algumas intervenções experimentais ou terapêuticas dirigidas à progressão da diabetes tipo 1 actuam sobre o sistema imunitário.
Se determinadas vias forem mais importantes num grupo de pessoas do que noutro, poderá ser possível desenvolver estratégias de medicina de precisão.
O próprio artigo refere que pessoas com DR4 parecem apresentar respostas diferentes a algumas intervenções destinadas a modular a resposta das células T, incluindo terapias como teplizumab. (Springer Nature Link)
No futuro, em vez de procurar um tratamento universal para todas as pessoas em risco de diabetes tipo 1, poderá ser possível identificar previamente qual o mecanismo dominante em cada indivíduo.
Ainda estamos longe dessa realidade, mas a investigação genética está a ajudar a construir essa possibilidade.
Isto tem alguma relação com alimentação e exercício?
Aqui é importante não extrapolar os resultados.
O estudo é essencialmente genético e imunológico.
Não demonstra que determinado tipo de alimentação, exercício ou estilo de vida possa alterar o risco genético associado a DR3 ou DR4.
Também não significa que pessoas com determinado perfil HLA devam seguir uma dieta específica.
No entanto, exercício e alimentação continuam a ser relevantes para a saúde metabólica geral e para a gestão da diabetes quando esta já está presente.
A mensagem deste estudo é outra: a biologia individual importa.
Duas pessoas com o mesmo diagnóstico clínico podem não ter exactamente os mesmos mecanismos subjacentes.
Genética não significa destino
É também importante não interpretar um perfil HLA de maior risco como uma sentença.
A diabetes tipo 1 resulta da combinação de factores genéticos, imunológicos e ambientais.
Ter uma variante genética associada a maior risco não significa necessariamente desenvolver a doença.
Da mesma forma, não ter um determinado marcador de risco não significa que seja impossível desenvolver diabetes tipo 1.
A genética influencia probabilidades; não determina sozinha o futuro de uma pessoa.
O que muda com este estudo?
A principal mudança de perspectiva é esta:
Talvez devamos deixar de pensar na diabetes tipo 1 como uma única doença biologicamente homogénea.
O estudo publicado em 31 de agosto de 2026 sugere que o contexto HLA-DR3 ou HLA-DR4 pode estar associado a diferentes vias de progressão da doença.
No DR4, as células T e as vias relacionadas com a sua regulação parecem ter maior importância.
No DR3, surgiram sinais particularmente interessantes relacionados com células mastocitárias e vias de secreção. (Springer Nature Link)
Estas diferenças podem ajudar a explicar por que razão a diabetes tipo 1 pode apresentar diferentes idades de início, autoanticorpos e trajectórias de progressão.
O futuro: medicina personalizada na diabetes tipo 1
A medicina tem evoluído de uma abordagem baseada apenas no diagnóstico para uma abordagem baseada também nos mecanismos.
Em vez de perguntar apenas:
“Esta pessoa tem diabetes tipo 1?”
poderemos, no futuro, perguntar:
“Que tipo de resposta autoimune está a conduzir a doença nesta pessoa?”
“Que células estão mais envolvidas?”
“Qual é o perfil genético?”
“Qual é a velocidade provável de progressão?”
“Que tratamento tem maior probabilidade de funcionar?”
O estudo de Luckett e colaboradores dá mais um passo nessa direcção.
Não oferece ainda uma nova terapêutica, mas ajuda a compreender que a diabetes tipo 1 pode ser geneticamente mais heterogénea do que se pensava.
Conclusão
A diabetes tipo 1 é uma doença autoimune complexa e, provavelmente, mais heterogénea do que a classificação tradicional deixa perceber.
O novo estudo publicado na Diabetologia em 31 de agosto de 2026 analisou geneticamente mais de 23 mil pessoas e comparou a diabetes tipo 1 associada aos perfis HLA-DR3 e HLA-DR4. (Springer Nature Link)
Os investigadores encontraram diferenças significativas na arquitectura genética e nas vias biológicas associadas à doença.
O perfil DR4 apresentou maior enriquecimento em vias relacionadas com células T, enquanto o DR3 mostrou uma associação mais específica com células mastocitárias e vias relacionadas com secreção.
A descoberta mais importante talvez seja a seguinte: a diabetes tipo 1 pode envolver diferentes caminhos biológicos, apesar de partilhar o mesmo diagnóstico clínico.
No futuro, esta informação poderá contribuir para uma medicina mais personalizada, permitindo identificar pessoas em risco com maior precisão e escolher estratégias preventivas ou terapêuticas de acordo com o mecanismo predominante.
Por enquanto, é uma descoberta genética e biológica que precisa de ser confirmada e traduzida em estudos clínicos.
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Referências e links
Estudo científico principal — Diabetologia, publicado em 31 de agosto de 2026:
Genetic association stratified by HLA-DR3 and HLA-DR4 status reveals heterogeneity in pathways of progression to type 1 diabetes — Springer Nature
Versão preliminar do estudo — medRxiv:
Genetic association of type 1 diabetes stratified by HLA-DR3 and HLA-DR4 status — medRxiv
Página do grupo de investigação — Gaulton Lab:
Publicações do Gaulton Lab — University of Exeter