Treino de força e apneia do sono: como o exercício pode melhorar a qualidade do sono e a qualidade de vida

Treino de força e apneia do sono: como o exercício pode melhorar a qualidade do sono e a qualidade de vida October 23, 2026Leave a comment

A apneia obstrutiva do sono é uma perturbação respiratória caracterizada por episódios repetidos de obstrução parcial ou completa das vias aéreas superiores durante o sono. Pode provocar fragmentação do descanso, cansaço, dificuldades de concentração e alterações na qualidade de vida.

Embora o tratamento desta condição exija uma abordagem clínica adequada, o exercício físico pode desempenhar um papel complementar importante. Um estudo publicado em outubro de 2026 na revista Sleep and Breathing analisou os efeitos de oito semanas de treino de força na qualidade subjetiva do sono, na sonolência durante o dia e na qualidade de vida de adultos com apneia obstrutiva do sono moderada a grave.

Os resultados sugerem que o treino de força pode melhorar a forma como estas pessoas percecionam o seu sono e o seu bem-estar geral. No entanto, os investigadores não encontraram uma melhoria significativa da sonolência diurna entre os grupos. Esta distinção é importante para percebermos o que o exercício pode oferecer e quais são os seus limites.

O que é a apneia obstrutiva do sono?

A apneia obstrutiva do sono, frequentemente designada pela sigla AOS, acontece quando as vias aéreas superiores estreitam ou colapsam repetidamente durante o sono. A passagem do ar fica reduzida ou interrompida, podendo ocorrer descidas da concentração de oxigénio no sangue e breves despertares que fragmentam o descanso.

Entre os sinais mais conhecidos encontram-se o ressonar intenso, as pausas respiratórias observadas por outra pessoa, o sono pouco reparador e a sonolência durante o dia. Algumas pessoas apresentam também dificuldades de concentração, irritabilidade e menor capacidade para realizar as tarefas habituais.

A intensidade dos sintomas varia de pessoa para pessoa. Além disso, a gravidade da apneia medida num estudo do sono nem sempre corresponde diretamente ao nível de sonolência sentido durante o dia.

O diagnóstico deve ser realizado através de avaliação clínica e dos exames apropriados. O ressonar, por si só, não permite confirmar a existência de apneia, tal como a ausência de sonolência evidente não permite excluí-la.

Como foi realizado o estudo?

A investigação publicada em 2026 foi uma análise secundária de um ensaio clínico aleatorizado. Foram incluídos 25 adultos com apneia obstrutiva do sono moderada a grave, com uma idade média de aproximadamente 55 anos e um índice de massa corporal médio de 36,1 kg/m².

Os participantes foram distribuídos por dois grupos. Um realizou um programa de treino de força durante oito semanas, com três sessões semanais. O grupo de controlo realizou sessões de alongamentos duas vezes por semana, durante cerca de 30 minutos.

O programa de força incluiu oito exercícios para os membros superiores e inferiores. Os investigadores avaliaram os participantes antes e depois da intervenção, recorrendo a instrumentos reconhecidos para medir a qualidade do sono, a sonolência diurna e a qualidade de vida.

A qualidade subjetiva do sono foi avaliada através do Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh. A sonolência diurna foi medida pela Escala de Sonolência de Epworth e a qualidade de vida através do questionário SF-36.

É importante compreender que estes instrumentos avaliam sobretudo a experiência relatada pelos participantes. São úteis para perceber como uma pessoa sente o seu descanso e o impacto da condição na vida quotidiana, mas não substituem os exames utilizados para diagnosticar e acompanhar a apneia.

O treino de força melhorou a qualidade do sono?

Sim. Após oito semanas, o grupo que realizou treino de força apresentou uma melhoria significativa na pontuação global da qualidade subjetiva do sono.

A pontuação média no Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh diminuiu de 7,9 para 4,8 pontos. No grupo de controlo, a alteração foi muito menor, passando de 6,9 para 6,6 pontos.

Neste questionário, uma pontuação mais baixa corresponde a uma melhor qualidade subjetiva do sono. A evolução observada sugere que os participantes do grupo de treino passaram a avaliar o seu descanso de forma mais favorável.

Também foram observadas diferenças em componentes específicos do sono, incluindo a latência do sono, relacionada com o tempo necessário para adormecer, e a duração percebida do descanso.

Estes resultados são relevantes porque dormir bem não significa apenas permanecer várias horas na cama. A facilidade em adormecer, a continuidade do sono e a sensação de recuperação ao acordar influenciam a forma como enfrentamos o dia seguinte.

Contudo, a melhoria num questionário não significa necessariamente que todos os participantes tenham passado a dormir o número ideal de horas ou que a apneia tenha desaparecido. A perceção do sono e as alterações respiratórias durante a noite são dimensões relacionadas, mas distintas.

O exercício reduziu a sonolência durante o dia?

Este foi um dos resultados que exige maior cuidado na interpretação. Apesar das melhorias na qualidade subjetiva do sono, não foi observada uma diferença significativa entre os grupos na Escala de Sonolência de Epworth.

Por outras palavras, os participantes pareceram avaliar melhor o seu sono, mas o estudo não demonstrou que o treino de força reduzisse de forma significativa a sonolência diurna em comparação com o grupo de controlo.

Esta diferença não é surpreendente. A sonolência durante o dia pode depender de vários fatores, incluindo a fragmentação do sono, a duração efetiva do descanso, os horários, os medicamentos e outras condições de saúde.

Assim, uma pessoa pode sentir que adormece mais facilmente ou que descansa melhor sem observar uma alteração equivalente na sonolência durante o dia.

Se a sonolência persistir, sobretudo quando interfere com a condução ou outras tarefas que exigem atenção, é importante procurar avaliação clínica. O exercício não deve ser utilizado como substituto do tratamento da apneia.

Melhorias na qualidade de vida

Outro resultado relevante foi a melhoria da qualidade de vida no grupo que realizou treino de força. A pontuação global do questionário SF-36 aumentou de 56,2 para 66,9 pontos, enquanto o grupo de controlo não apresentou uma evolução semelhante.

Também se observaram melhorias no domínio relacionado com as limitações provocadas por problemas emocionais. Este resultado sugere que os possíveis benefícios do exercício podem ultrapassar a dimensão física e refletir-se na forma como as pessoas sentem o seu bem-estar.

O treino de força pode melhorar a capacidade de realizar tarefas quotidianas, facilitar movimentos que anteriormente eram difíceis e aumentar a confiança nas próprias capacidades. Estas alterações podem ser especialmente importantes em pessoas que apresentam excesso de peso, fadiga ou menor aptidão física.

Contudo, não podemos afirmar que todos estes mecanismos tenham sido diretamente responsáveis pelos resultados observados. O estudo identificou melhorias na qualidade de vida, mas não permite determinar com certeza quais foram as causas específicas de cada alteração.

Porque pode o treino de força ser útil?

O treino de força promove adaptações musculares e neuromotoras que podem facilitar atividades como subir escadas, levantar-se de uma cadeira, transportar compras ou caminhar durante períodos mais prolongados.

Quando existe excesso de peso, a melhoria da capacidade muscular pode contribuir para tornar o movimento mais eficiente. A prática regular de exercício também pode favorecer a saúde metabólica e a composição corporal, dependendo do programa, da alimentação e da adesão ao longo do tempo.

Há ainda uma possível relação entre o exercício, a redução da gordura abdominal e a gravidade da apneia. A gordura acumulada na região do pescoço e à volta das estruturas das vias aéreas pode contribuir para a obstrução durante o sono. No entanto, a apneia tem múltiplos mecanismos e não depende apenas do peso corporal.

Num estudo anterior associado ao mesmo ensaio clínico, os investigadores observaram uma redução do índice de apneia-hipopneia após oito semanas de treino de força. Esse resultado é promissor, mas deve ser interpretado separadamente da análise atual, que se concentrou sobretudo na qualidade subjetiva do sono, na sonolência e na qualidade de vida.

Como aplicar estes resultados na prática?

Na minha experiência, o primeiro passo é perceber a condição física da pessoa, os seus objetivos e a forma como tolera o exercício. Nem todos precisam do mesmo programa, e a presença de apneia do sono não significa que devam realizar sessões intensas desde o início.

Para quem tem indicação clínica para praticar exercício, um programa pode incluir movimentos para os principais grupos musculares, como sentar e levantar de uma cadeira, exercícios de empurrar e puxar, extensões da anca e exercícios adaptados para os membros superiores e inferiores.

A carga, o número de repetições e os períodos de recuperação devem ser ajustados à capacidade individual. Para pessoas sedentárias ou com excesso de peso, pode ser preferível começar com sessões curtas e progressivas, aumentando gradualmente o volume de treino à medida que melhora a tolerância.

O treino de força também pode ser combinado com atividade aeróbica, como caminhar ou pedalar. Esta combinação permite trabalhar diferentes componentes da condição física e pode ser mais fácil de manter quando as atividades correspondem às preferências da pessoa.

A regularidade é fundamental. Um programa realista, que possa ser integrado na rotina semanal, tende a ser mais útil do que uma abordagem exigente que provoque desconforto excessivo ou seja abandonada ao fim de poucas semanas.

O exercício substitui o tratamento da apneia?

Não. Este é provavelmente o ponto mais importante a retirar do estudo.

O treino de força deve ser entendido como uma possível estratégia complementar, e não como uma alternativa automática aos tratamentos prescritos para a apneia obstrutiva do sono.

A pressão positiva contínua nas vias aéreas, conhecida como CPAP, é uma das opções terapêuticas utilizadas. Dependendo da situação clínica, podem também ser consideradas outras abordagens, como dispositivos orais, intervenções sobre o peso ou tratamentos específicos selecionados por profissionais de saúde.

A escolha depende da gravidade da apneia, da anatomia, dos sintomas, das condições associadas e da tolerância aos diferentes tratamentos. A decisão deve ser individualizada.

Quem já utiliza CPAP ou outro tratamento não deve interrompê-lo por começar a treinar ou por sentir melhorias no sono. Qualquer alteração deve ser discutida com a equipa clínica responsável.

Quais são as limitações da investigação?

Apesar dos resultados positivos, o estudo incluiu apenas 25 participantes e teve uma duração de oito semanas. Uma amostra tão pequena limita a capacidade de generalizar os resultados a todas as pessoas com apneia do sono.

Além disso, os participantes tinham uma idade média próxima dos 55 anos. Por isso, não devemos assumir que os mesmos efeitos ocorrerão com a mesma dimensão em adultos muito mais velhos, pessoas com outras doenças ou indivíduos com apneia ligeira.

O estudo também avaliou resultados subjetivos e não demonstrou que todas as melhorias percecionadas correspondam a alterações objetivas equivalentes no sono.

São necessários ensaios mais prolongados, com amostras maiores e diferentes perfis de participantes, para esclarecer a duração dos benefícios e a melhor forma de integrar o treino de força no tratamento da apneia.

Conclusão: força muscular e sono saudável podem complementar-se

Esta investigação acrescenta evidência a favor do treino de força como complemento potencial na gestão da apneia obstrutiva do sono. Ao longo de oito semanas, os participantes apresentaram melhorias na qualidade subjetiva do sono e na qualidade de vida, mas não uma redução significativa da sonolência diurna em comparação com o grupo de controlo.

Na minha perspetiva, o valor deste trabalho está em reforçar a importância do exercício físico numa abordagem mais abrangente à saúde. Melhorar a força, a capacidade funcional e a relação com o próprio corpo pode trazer benefícios que vão além de um único indicador clínico.

O treino deve, no entanto, ser adaptado à pessoa e integrado num plano de cuidados adequado. A apneia do sono precisa de diagnóstico e acompanhamento, e a atividade física deve complementar, não substituir, os tratamentos necessários.

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Referências

  1. de Almeida JRV, da Silva Ferreira DK, de Arantes Lima VD, et al. Effects of resistance training on subjective sleep quality, excessive daytime sleepiness, and quality of life in patients with obstructive sleep apnea: a secondary analysis from a randomized controlled trial. Sleep and Breathing. 2026;30:296.
  2. DOI: 10.1007/s11325-026-03842-5.
  3. Registo do artigo científico: Springer Nature — texto integral do estudo.
  4. Registo do ensaio clínico: ReBEC, RBR-2rg97kz.

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