Durante o treino de força, é comum prender a respiração quando a carga se torna exigente. Esta resposta acontece frequentemente durante exercícios como o agachamento, o peso morto ou o leg press, sobretudo quando nos aproximamos do limite da nossa capacidade.
Mas será que a forma como respiramos durante uma série pode influenciar a circulação sanguínea cerebral? E será que quem treina força há vários anos responde de forma diferente de quem não tem experiência de treino?
Um estudo publicado em outubro de 2026 na revista Medicine & Science in Sports & Exercise investigou estas questões, comparando adultos jovens treinados e não treinados durante exercícios de força com diferentes intensidades e estratégias respiratórias.
Os resultados mostram que tanto a experiência de treino como a manobra de Valsalva podem influenciar determinadas respostas cardiovasculares e cerebrovasculares. No entanto, é importante distinguir as alterações temporárias observadas durante o exercício de eventuais consequências clínicas a longo prazo.
O que é a manobra de Valsalva?
A manobra de Valsalva consiste, de forma simplificada, em tentar expirar contra uma via aérea fechada. Durante o treino de força, isto acontece quando uma pessoa contrai os músculos e mantém a respiração bloqueada para estabilizar o tronco durante um esforço exigente.
Esta estratégia pode aumentar a pressão dentro do tórax e do abdómen, contribuindo para a estabilidade do tronco durante determinados movimentos. É uma resposta frequentemente observada em exercícios com cargas elevadas.
No entanto, a manobra também provoca alterações temporárias na pressão arterial, na frequência cardíaca e no retorno do sangue ao coração. Estas mudanças podem influenciar a circulação sanguínea em diferentes órgãos, incluindo o cérebro.
É importante perceber que prender a respiração durante um esforço não é exatamente o mesmo que respirar de forma contínua. As duas estratégias produzem respostas fisiológicas diferentes, sobretudo quando a intensidade do exercício é elevada.
O que investigou o novo estudo?
Os investigadores avaliaram 44 adultos jovens saudáveis, divididos em dois grupos: 23 participantes com experiência regular de treino de força e 21 participantes sem essa experiência.
O estudo teve dois momentos principais. Primeiro, os investigadores avaliaram indicadores cardiovasculares e cerebrovasculares em repouso, incluindo a rigidez arterial e a relação entre a pressão arterial e o fluxo sanguíneo cerebral.
Depois, os participantes realizaram leg press com diferentes intensidades: 50%, 75% e 90% de uma repetição máxima, habitualmente designada por 1RM.
Na intensidade de 90% de 1RM, os investigadores compararam duas estratégias respiratórias: respiração orientada durante o esforço e utilização da manobra de Valsalva. A ordem destas condições foi aleatorizada.
O objetivo era perceber se o treino habitual de força e a estratégia respiratória influenciavam a resposta da circulação cerebral às alterações de pressão produzidas durante o exercício.
Treinar força altera a circulação cerebral em repouso?
Um dos resultados importantes foi a ausência de diferenças entre os grupos em vários indicadores avaliados em repouso.
Os investigadores não encontraram diferenças significativas entre participantes treinados e não treinados na hemodinâmica cerebral em repouso, nas medidas de rigidez da artéria carótida comum ou nas respostas da relação entre a pressão arterial e o fluxo sanguíneo cerebral.
Contudo, foram observadas diferenças noutros indicadores cardiovasculares. O grupo não treinado apresentou maior velocidade da onda de pulso carótido-femoral, um indicador utilizado para avaliar a rigidez arterial, bem como valores mais elevados de pressão arterial diastólica e frequência cardíaca.
O grupo treinado apresentou maior pressão de pulso e maior volume sistólico, isto é, maior quantidade de sangue expelida pelo coração em cada batimento.
Estes resultados são compatíveis com adaptações cardiovasculares associadas ao treino habitual, mas não demonstram que todas as pessoas que treinam força apresentem necessariamente o mesmo perfil.
O que acontece ao cérebro durante um esforço intenso?
Durante o exercício de força, a pressão arterial pode aumentar significativamente. A intensidade do esforço, a quantidade de massa muscular envolvida, a duração da contração e a forma de respirar contribuem para esta resposta.
O cérebro dispõe de mecanismos de autorregulação que ajudam a manter o fluxo sanguíneo dentro de determinados limites, apesar das alterações da pressão arterial. Contudo, a relação entre pressão arterial, fluxo cerebral e atividade física é complexa.
Não basta observar um aumento da pressão arterial para concluir que o cérebro recebe necessariamente mais sangue. A resposta depende também da resistência dos vasos cerebrais e de outros mecanismos fisiológicos.
Neste estudo, apesar de os participantes treinados terem atingido valores máximos de pressão arterial média superiores durante o exercício, as respostas cerebrovasculares foram semelhantes ou atenuadas em comparação com as dos participantes não treinados.
Este resultado sugere que a experiência habitual de treino pode estar associada a diferenças na forma como o sistema cerebrovascular responde aos desafios hemodinâmicos. No entanto, o estudo não demonstra que o treino proteja diretamente o cérebro contra lesões durante esforços intensos.
A manobra de Valsalva aumenta a pressão arterial?
Na comparação realizada a 90% de 1RM, a utilização da manobra de Valsalva aumentou o pico da pressão arterial média e o índice de pulsatilidade da artéria cerebral média. Também foi observada uma redução da frequência cardíaca.
O índice de pulsatilidade é uma medida obtida através da análise da velocidade do fluxo sanguíneo numa artéria. Pode fornecer informação sobre características da circulação, mas não constitui, isoladamente, uma medida direta de lesão cerebral ou de redução do fornecimento de oxigénio ao cérebro.
Por isso, o aumento deste indicador durante uma série não significa automaticamente que tenha ocorrido dano cerebral. Do mesmo modo, não permite concluir que a manobra de Valsalva seja inofensiva para todas as pessoas.
Os resultados mostram que a estratégia respiratória modifica algumas respostas fisiológicas durante o esforço. A relevância clínica destas alterações depende das características individuais e não foi determinada por este estudo.
Devemos prender a respiração durante o treino de força?
A resposta depende da pessoa, do exercício, da carga utilizada e da experiência de treino.
Em muitas pessoas saudáveis, respirar de forma controlada durante o exercício é uma opção prática, sobretudo quando estão a aprender a técnica ou a trabalhar com cargas moderadas. Expirar durante a fase mais exigente do movimento pode ajudar a evitar períodos prolongados de apneia.
Em levantamentos muito pesados, praticantes experientes podem recorrer à manobra de Valsalva para aumentar a estabilidade do tronco. No entanto, esta estratégia exige conhecimento técnico e não deve ser recomendada indiscriminadamente.
Pessoas com hipertensão não controlada, doença cardiovascular ou outras condições clínicas relevantes devem discutir a intensidade do treino e a estratégia respiratória com o profissional de saúde que as acompanha.
Não é necessário realizar todas as séries até ao limite nem utilizar cargas próximas da repetição máxima para obter benefícios do treino de força. É possível desenvolver força e massa muscular através de programas progressivos, ajustados à capacidade individual.
O que significa isto para quem treina depois dos 40 anos?
Na minha experiência, a qualidade do treino não depende apenas da carga levantada. A técnica, o controlo do movimento, a recuperação e a forma como cada pessoa responde ao esforço também são importantes.
Para muitos adultos com mais de 40 anos, o objetivo principal é preservar força, massa muscular e capacidade funcional, sem transformar cada sessão num teste máximo.
Uma abordagem progressiva permite desenvolver força utilizando cargas adequadas e dando tempo ao organismo para se adaptar. A respiração deve acompanhar a exigência do exercício, sem ser necessário prender o ar prolongadamente em todas as repetições.
Também é importante considerar que este estudo foi realizado em adultos jovens saudáveis. Os resultados não podem ser automaticamente aplicados a pessoas mais velhas, a indivíduos com hipertensão ou a doentes cardiovasculares.
Quais são as limitações do estudo?
Apesar de ser relevante para compreender a fisiologia do treino de força, a investigação apresenta limitações.
A amostra foi relativamente pequena e incluiu apenas adultos jovens saudáveis. Além disso, os investigadores avaliaram respostas agudas durante o exercício, não a evolução da saúde cerebral ao longo de meses ou anos.
Consequentemente, não é possível concluir que a manobra de Valsalva provoque lesões cerebrais, nem que a experiência de treino reduza o risco de acidente vascular cerebral. Também não se pode afirmar que uma determinada estratégia respiratória seja a melhor para todas as pessoas.
Conclusão: a respiração faz parte da prescrição do treino
O estudo publicado em 2026 demonstra que a experiência habitual de treino de força e a estratégia respiratória influenciam determinadas respostas cardiovasculares e cerebrovasculares durante esforços intensos.
A manobra de Valsalva aumentou o pico da pressão arterial média e o índice de pulsatilidade da artéria cerebral média, enquanto a frequência cardíaca diminuiu. Apesar de os participantes treinados atingirem picos de pressão arterial superiores, as respostas cerebrovasculares foram semelhantes ou atenuadas em comparação com as dos participantes não treinados.
Estes resultados ajudam a compreender a complexidade das respostas fisiológicas ao treino de força. Na prática, a intensidade, a técnica e a respiração devem ser adaptadas à pessoa, tendo em conta os seus objetivos, experiência e estado de saúde.
Posso ajudar
Ajudo-o a desenvolver um programa de treino de força progressivo e individualizado, com atenção à técnica, respiração, condição física e objetivos de saúde e desempenho.
Referências
- Allison EY, Mei YM, Mizzi V, Abbasi-Hashemi T, Roy MA, Borhani M, Abreu J, Brassard P, Walsh JJ, Phillips SM, Al-Khazraji BK. Training Status and Valsalva Maneuver Effects on Cerebrovascular Regulation during Acute Resistance Exercise. Medicine & Science in Sports & Exercise. Publicado a 6 de outubro de 2026. DOI: 10.1249/MSS.0000000000004163. Consultar o estudo no PubMed.